Sororidade sempre. Tolerância a assédio moral não

As mulheres feministas têm que começar a entender e questionar por que a sororidade é colocada tão em pauta e ao mesmo tempo usada de forma tão errada dentro do nosso próprio contexto

Sororidade sempre. Tolerância a assédio moral não
Sororidade sempre. Tolerância a assédio moral não

A palavra "sororidade" vem do latim "sóror" que significa "irmã", logo "sororidade" significa "irmandade", nasceu junto com a terceira onda do feminismo, tem a ver com o tipo de ideia de que todas as mulheres são irmãs.

Ao ser criado esse termo o intuito principal era que todas as mulheres se identificassem dentro de uma classe como minoria e juntas combatesse o machismo e o patriarcado imposto durante séculos. O conceito é muito bonito e bacana, mas na prática esquecemos que cada mulher tem sua singularidade. A sonoridade não coloca as diferenças entre as mulheres na pauta, quando se pensa que todas nós mulheres somos irmãs não se leva em consideração a classe, raça, identidade de gênero, tudo o que nos diferencia.

Hoje eu quero escrever sobre esse texto trazendo uma reflexão: Até que ponto temos usado a "sororidade" para distorcer situações? Até que ponto usamos como desculpa para um "mantra equivocado" em situações em que a sonoridade é usada para encobrir relações abusivas e desrespeitosas entre mulheres ? Falar sobre sororidade tem sido algo muito perigoso, uma vez que quando se começa a debater sobre o termo automaticamente temos que estar preparadas para todas as "carteiradas feministas" que podemos receber.

Usar da sororidade como "barganha" para silenciar outras mulheres ao serem atingidas por situações que nem sempre são bem-intencionadas é um absurdo sem tamanho. Transformaram a sororidade em um instrumento perigoso de poder que alimenta ainda mais o sistema machista. Ao abrirmos críticas a uma outra mulher automaticamente vem o "fantasma da sororidade" dizer que se você está sendo atacada de forma injusta por outra mulher, apenas releve e a deseje amor e paz, mas se você começar a falar sobre a situação e apontar que aquilo nada tem a ver com sororidade, a nova geração de feministas "paz e amor" não vai gostar.

Vamos começar deixando claro que uma coisa é respeito e outra coisa muito diferente é amizade. Respeito é algo que devemos ter por qualquer pessoa, seja ela quem for e independente da sua posição política partidária, outra coisa muito diferente é amizade, que é uma relação construída ao longo de um período. Ou seja: Ter sororidade por alguém não te transforma em amiga da pessoa, ao ponto de poder se sentir na autoridade de cobrar algo da próxima. Uma coisa é você ter amizade solidificada outra coisa é você ter consciência de grupo por serem mulheres.

É muito romântico acreditar que todas as mulheres são amigas e que se defendem e respeitam, lindo na teoria mas sabemos que na prática é outra coisa. Vale lembrar que muitos ainda utilizam da desarmonia e distanciamento para alimentar a hierarquia social de desunião para dominar. E acredito que vale colocar aqui uma pauta muito séria: Até onde temos que ter sororidade com mulheres que sabem que desrespeitam outras mulheres e fazem isso por prazer ou ganhar likes na internet?

Já passou da hora de entendermos que nem toda mulher é coitada ou prática ataques de assédio moral sem ter noção do que está fazendo, temos que começar e entender que infelizmente existe sim mulheres que sabem muito bom os ataques que está promovendo e gostam disso porque de alguma forma acabam sendo beneficiadas. Por mais difícil que seja está na hora de começar a entender que sim, infelizmente existe mulheres que gostam de propagar a opressão e justamente por isso elas não devem sair impunes a críticas ou exposições, até mesmo porque elas estão utilizando de um termo como a "sororidade" para poderem silenciar mulheres que foram vítimas de seus próprios ataques.

Uma das coisas mais absurdas que já escutei nesses meus quatro anos dentro do feminismo é que eu não poderia "rotulara" a Cleuci Oliveira, então filha do ex-senador preso como "filha de bandido" (fato público e notório), ou que eu não poderia dizer que os ataques dela feitos a mim são movidos a ódio, mentira ou perseguição porque mesmo ela e seus irmãos estando no comando do partido do vice-presidente Mourão, se ela se diz feminista e de esquerda é porque ela é sim, e é melhor eu apenas deixar ela falar sozinha e não responder as suas ofensas porque supostamente eu não estava tendo sororidade com a mesma.

Vamos a um outro exemplo: Sempre que algum homem é "babaca"com uma mulher e se tem amigas em comum, é normal que as amigas continuem falando com esse homem como se nada tivesse acontecido. Ou por exemplo, quando uma mulher ataca outra mulher e a mulher que foi a vítima do ataque resolve se posicionar é normal que outras mulheres acabam ficando contra a vítima, porque o silenciamento é mais agradável. Não havia sido com ela, não era problema delas, é basicamente isso que acontece.

Vou colocar outra situação muito triste que com certeza algumas pessoas devem saber, na época das eleições foi criado o grupo "Mulheres Unidas Contra Bolsonaro", o MUCB que agora já mudou até de nome para "Mulheres Unidas Com o Brasil", que na minha opinião vai tentar ser o "MBL de esquerda", dentro do grupo eu já tinha observado atitudes absurdas das administradoras, sempre maltratando outras mulheres e quando as mulheres vítimas das agressividades resolviam se manifestar, eram excluídas e silenciadas.

Mas a situação só piorou, e para minha surpresa me deparei com uma "nota oficial" do grupo expondo e menosprezando duas mulheres, colocando a luta delas em total questionamento e descaso e partindo realmente para um assédio moral, e quando outras mulheres resolveram se pronunciar contra a nota absurda e também contra a fundadora do grupo, veio uma caravana de mulheres cobrar "sororidade" com as mulheres que queriam apenas que os ataques parassem.

O feminismo só tem sido válido se ele não afeta diretamente a zona de conforto, se não mexe efetivamente na vida. Mulheres falam tanto do "browcode" que os homens têm entre si, mas será que não estamos fazendo a mesma coisa quando o feminismo afeta se indispor com alguém próximo em especial quando esse alguém é uma mulher?

Somos mesmo as burguesas que compartilham 'Survivor' e falas da Emma Watson e não conseguimos virar o pescoço e se importar com a pessoa ao lado de forma real? Que não conseguimos "bater de frente"com outras mulheres que usam da sororidade para enfraquecer outra mulher? Em que momento deixamos de achar que não éramos mais companheiras porque ajudar quem está ao nosso lado pode não dar likes?

As mulheres feministas tem que começar a entender e questionar o porque a sororidade é colocada tão em pauta e ao mesmo tempo usada de forma tão errada dentro do nosso próprio contexto. Começar a entender que infelizmente existe mulheres que gostam de propagar o machismo e fazem isso de maneira totalmente consciente é primordial.

Bater de frente com mulheres que usam não apenas a palavra sororidade mas se apropria do feminismo para promover ataques não vai te fazer menos feminista, apenas vai te colocar na lista das pessoas que lutam para que todas tenham voz.

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