Sultão brilha na corte do Dragão-Rei

Erdogan parece decidido a comprar o sistema russo de defesa antiaérea, desafiando EUA e OTAN, aliando-se a China e Rússia

www.brasil247.com - Presidente Xi Jinping da China e Recep Tayyip Erdogan da Turquia
Presidente Xi Jinping da China e Recep Tayyip Erdogan da Turquia (Foto: REUTERS/Lintao Zhang/Pool)


Tradução de Ricardo Silveira - A imagística de uma Turquia se afastando da OTAN e se aproximando da parceria estratégica entre Rússia e China foi provida, de várias maneiras, pelo Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, em visita ao Presidente da China, Xi Jinping, em Beijing, logo após o G20 em Osaka.

A Turquia é um polo fundamental na Nova Rota da Seda que desponta no mundo, ou a Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota. Erdogan é mestre em acenar com uma Turquia que se faz encruzilhada inequívoca entre o Oriente e o Ocidente. E também tem expressado muito interesse em entrar para a Organização da Cooperação de Xangai (OCX), liderada por Rússia e China, cuja reunião de cúpula foi realizada em Bisqueque poucos dias antes de Osaka. 

Em paralelo, contra todas as correntes – desde o congresso norte-americano e as suas sanções até a OTAN e os seus alertas – Erdogan não arredou pé da decisão tomada em Ankara, que era a de comprar dos russos os seus sistemas S-400 de defesa antiaérea, num contrato de 2,5 bilhões de dólares, segundo informa Sergei Chemezov, presidente da estatal russa Rostec.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Os S-400 começam a ser enviados para a Turquia já esta semana. E, conforme o Ministro da Defesa daquele país, Hulusi Akar, devem começar a ser usados a partir de outubro. Muito a contragosto de Washington, a Turquia é o primeiro estado membro da OTAN a comprar os S-400.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ao receber Erdogan em Beijing, Xi Jinping reforçou o recado que havia sido costurado juntamente com Putin nas reuniões prévias em São Petersburgo, Bisqueque e Osaka: a China e a Turquia deveriam “assegurar no coração das Nações Unidas uma ordem mundial multilateral que seja baseada no direito internacional”.

Erdogan, por sua vez, entrou com a simpatia: fez publicar um editorial no Global Times enaltecendo as virtudes de uma visão comum de futuro e incluiu ali todos os detalhes. O seu objetivo era consolidar o investimento chinês em várias áreas na Turquia, direta ou indiretamente ligado à Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Sem meias palavras, Erdogan abordou o delicadíssimo assunto dos uigures com extrema destreza. Esquivou-se das acusações, feitas pelo seu próprio Ministro das Relações Exteriores, de que se praticavam “tortura e alienação política” nos campos de detenção para muçulmanos daquela minoria e disse que preferia comentar que os uigures “viviam felizes” na China. “É fato que os povos da região de Xianjiang vivem felizes com o desenvolvimento e a prosperidade da China. A Turquia não aceita que ninguém venha abalar as relações entre os dois países.”

Isso é ainda mais surpreendente ao levarmos em conta que o próprio Erdogan, nesta última década, acusou Beijing de genocídio. E, num famoso caso de 2015, centenas de uigures prestes a serem deportados da Tailândia de volta para a China foram, depois de muita bravata, reassentados na própria Turquia. 

Nova caravana geopolítica

Aparentemente, Erdogan acabou percebendo que a Nova Rota da Seda é a versão 2.0 da Antiga Rota da Seda, cujas caravanas ligavam, pelo comércio, o Império do Meio às várias terras do Islã – desde a Indonésia até a Turquia e desde o Irã até o Paquistão.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Antes do Século XVI, a principal via de comunicação através da Eurásia não era marítima, mas sim a cadeia de estepes e desertos que se estende desde o Saara até a Mongólia, conforme Arnold Toynbee tão magnificamente observou. Por essa via, encontravam-se mercadores, missionários, viajantes, sábios e, ainda, turco-mongóis da Ásia Central em migração para o Oriente Médio e o Mediterrâneo. Eles eram o próprio estofo da ligação entre Europa e Ásia, os responsáveis por suas trocas culturais – projetando-se para lá da descontinuidade geográfica!

Será possível dizer que Erdogan hoje é capaz de ler as novas folhas de chá? A parceria estratégica entre a Rússia e a China – diretamente envolvida na ligação entre a Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota e a União Econômica Eurasiática e também no Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul – considera a Turquia e o Irã como polos absolutamente indispensáveis para o multifacetado processo da integração eurasiana.

Um novo eixo econômico formado por Turquia, Irã e Catar surge lenta mas inequivocamente no Sudoeste Asiático, ainda mais ligado à Rússia-China. Esse salto na integração eurasiana, visível, por exemplo, no frenesi ferroviário projetado para interligar a Nova Rota da Seda, juntamente com o corredor de transporte Rússia-Irã, ao Mediterrâneo Oriental e ao Mar Vermelho e, para o leste, o corredor Irã-Paquistão ao Corredor Econômico China-Paquistão, um dos destaques da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota.

Tudo isso conta com o apoio de acordos que viabilizam a cooperação para o transporte entre Turquia-Irã-Catar e Irã-Iraque-Síria.

O resultado final não só consolida o Irã como o novo polo de conectividade entre a Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota e a parceira estratégica da China, como também, por contiguidade, a Turquia – ponte para a Europa.

Sendo Xinjiang o principal centro de ligação da China Oriental com vários corredores da Iniciativa, Erdogan precisava encontrar um território intermediário – minimizando consideravelmente, no decorrer do processo, as ondas de desinformação e a sinofobia tão apregoada no ocidente. Aplicando-se o raciocínio de Xi Jinping, pode-se dizer que Erdogan resolveu privilegiar a compreensão cultural e o intercâmbio entre os povos em detrimento da batalha ideológica.

Pronto para mediar 

Por conta do sucesso obtido na corte do Dragão-Rei, Erdogan agora se sente à vontade para fazer as vezes de mediador entre Teerã e o governo Trump – pegando o gancho de uma sugestão feita pelo próprio ao Primeiro Ministro japonês Shinzo Abe no G20.

Ele não teria se oferecido caso o assunto não tivesse sido discutido a priori com Rússia e China – que são fundamentalmente signatários do acordo nuclear do Irã, também conhecido como Plano de Ação Conjunta Abrangente – ou JCPOA, na sigla em inglês. 

É fácil ver as razões pelas quais a Rússia e a China deveriam enxergar a Turquia como mediadora perfeita: ela é vizinha do Irã, é a proverbial ponte entre o Oriente e o Ocidente e ainda é membro da OTAN. A Turquia é decerto muito mais representativa do que o EU-3 (França, Reino Unido e Alemanha).

Trump parece estar querendo – ou pelo menos dá a impressão de que está impondo – um JCPOA 2.0, sem a assinatura do Obama. A parceria Rússia-China seria por si só capaz de cantar o blefe, depois de limpar a barra com Teerã, oferecendo uma nova mesa de negociação que incluísse a Turquia. Mesmo que o EU-3 continuasse, com toda a sua ineficácia, haveria um contrapeso de fato na forma de Rússia, China e Turquia.

De todas essas importantíssimas jogadas no tabuleiro geopolítico, destaca-se uma motivação entre os enxadristas: a integração eurasiana não vai avançar se não for refreada a mania que o presidente estadunidense Donald Trump tem de impor sanções a todo mundo. 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email