Sultão brilha na corte do Dragão-Rei

Erdogan parece decidido a comprar o sistema russo de defesa antiaérea, desafiando EUA e OTAN, aliando-se a China e Rússia

Presidente Xi Jinping da China e Recep Tayyip Erdogan da Turquia
Presidente Xi Jinping da China e Recep Tayyip Erdogan da Turquia (Foto: REUTERS/Lintao Zhang/Pool)

Tradução de Ricardo Silveira - A imagística de uma Turquia se afastando da OTAN e se aproximando da parceria estratégica entre Rússia e China foi provida, de várias maneiras, pelo Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, em visita ao Presidente da China, Xi Jinping, em Beijing, logo após o G20 em Osaka.

A Turquia é um polo fundamental na Nova Rota da Seda que desponta no mundo, ou a Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota. Erdogan é mestre em acenar com uma Turquia que se faz encruzilhada inequívoca entre o Oriente e o Ocidente. E também tem expressado muito interesse em entrar para a Organização da Cooperação de Xangai (OCX), liderada por Rússia e China, cuja reunião de cúpula foi realizada em Bisqueque poucos dias antes de Osaka. 

Em paralelo, contra todas as correntes – desde o congresso norte-americano e as suas sanções até a OTAN e os seus alertas – Erdogan não arredou pé da decisão tomada em Ankara, que era a de comprar dos russos os seus sistemas S-400 de defesa antiaérea, num contrato de 2,5 bilhões de dólares, segundo informa Sergei Chemezov, presidente da estatal russa Rostec.

Os S-400 começam a ser enviados para a Turquia já esta semana. E, conforme o Ministro da Defesa daquele país, Hulusi Akar, devem começar a ser usados a partir de outubro. Muito a contragosto de Washington, a Turquia é o primeiro estado membro da OTAN a comprar os S-400.

Ao receber Erdogan em Beijing, Xi Jinping reforçou o recado que havia sido costurado juntamente com Putin nas reuniões prévias em São Petersburgo, Bisqueque e Osaka: a China e a Turquia deveriam “assegurar no coração das Nações Unidas uma ordem mundial multilateral que seja baseada no direito internacional”.

Erdogan, por sua vez, entrou com a simpatia: fez publicar um editorial no Global Times enaltecendo as virtudes de uma visão comum de futuro e incluiu ali todos os detalhes. O seu objetivo era consolidar o investimento chinês em várias áreas na Turquia, direta ou indiretamente ligado à Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota.

Sem meias palavras, Erdogan abordou o delicadíssimo assunto dos uigures com extrema destreza. Esquivou-se das acusações, feitas pelo seu próprio Ministro das Relações Exteriores, de que se praticavam “tortura e alienação política” nos campos de detenção para muçulmanos daquela minoria e disse que preferia comentar que os uigures “viviam felizes” na China. “É fato que os povos da região de Xianjiang vivem felizes com o desenvolvimento e a prosperidade da China. A Turquia não aceita que ninguém venha abalar as relações entre os dois países.”

Isso é ainda mais surpreendente ao levarmos em conta que o próprio Erdogan, nesta última década, acusou Beijing de genocídio. E, num famoso caso de 2015, centenas de uigures prestes a serem deportados da Tailândia de volta para a China foram, depois de muita bravata, reassentados na própria Turquia. 

Nova caravana geopolítica

Aparentemente, Erdogan acabou percebendo que a Nova Rota da Seda é a versão 2.0 da Antiga Rota da Seda, cujas caravanas ligavam, pelo comércio, o Império do Meio às várias terras do Islã – desde a Indonésia até a Turquia e desde o Irã até o Paquistão.

Antes do Século XVI, a principal via de comunicação através da Eurásia não era marítima, mas sim a cadeia de estepes e desertos que se estende desde o Saara até a Mongólia, conforme Arnold Toynbee tão magnificamente observou. Por essa via, encontravam-se mercadores, missionários, viajantes, sábios e, ainda, turco-mongóis da Ásia Central em migração para o Oriente Médio e o Mediterrâneo. Eles eram o próprio estofo da ligação entre Europa e Ásia, os responsáveis por suas trocas culturais – projetando-se para lá da descontinuidade geográfica!

Será possível dizer que Erdogan hoje é capaz de ler as novas folhas de chá? A parceria estratégica entre a Rússia e a China – diretamente envolvida na ligação entre a Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota e a União Econômica Eurasiática e também no Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul – considera a Turquia e o Irã como polos absolutamente indispensáveis para o multifacetado processo da integração eurasiana.

Um novo eixo econômico formado por Turquia, Irã e Catar surge lenta mas inequivocamente no Sudoeste Asiático, ainda mais ligado à Rússia-China. Esse salto na integração eurasiana, visível, por exemplo, no frenesi ferroviário projetado para interligar a Nova Rota da Seda, juntamente com o corredor de transporte Rússia-Irã, ao Mediterrâneo Oriental e ao Mar Vermelho e, para o leste, o corredor Irã-Paquistão ao Corredor Econômico China-Paquistão, um dos destaques da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota.

Tudo isso conta com o apoio de acordos que viabilizam a cooperação para o transporte entre Turquia-Irã-Catar e Irã-Iraque-Síria.

O resultado final não só consolida o Irã como o novo polo de conectividade entre a Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota e a parceira estratégica da China, como também, por contiguidade, a Turquia – ponte para a Europa.

Sendo Xinjiang o principal centro de ligação da China Oriental com vários corredores da Iniciativa, Erdogan precisava encontrar um território intermediário – minimizando consideravelmente, no decorrer do processo, as ondas de desinformação e a sinofobia tão apregoada no ocidente. Aplicando-se o raciocínio de Xi Jinping, pode-se dizer que Erdogan resolveu privilegiar a compreensão cultural e o intercâmbio entre os povos em detrimento da batalha ideológica.

Pronto para mediar 

Por conta do sucesso obtido na corte do Dragão-Rei, Erdogan agora se sente à vontade para fazer as vezes de mediador entre Teerã e o governo Trump – pegando o gancho de uma sugestão feita pelo próprio ao Primeiro Ministro japonês Shinzo Abe no G20.

Ele não teria se oferecido caso o assunto não tivesse sido discutido a priori com Rússia e China – que são fundamentalmente signatários do acordo nuclear do Irã, também conhecido como Plano de Ação Conjunta Abrangente – ou JCPOA, na sigla em inglês. 

É fácil ver as razões pelas quais a Rússia e a China deveriam enxergar a Turquia como mediadora perfeita: ela é vizinha do Irã, é a proverbial ponte entre o Oriente e o Ocidente e ainda é membro da OTAN. A Turquia é decerto muito mais representativa do que o EU-3 (França, Reino Unido e Alemanha).

Trump parece estar querendo – ou pelo menos dá a impressão de que está impondo – um JCPOA 2.0, sem a assinatura do Obama. A parceria Rússia-China seria por si só capaz de cantar o blefe, depois de limpar a barra com Teerã, oferecendo uma nova mesa de negociação que incluísse a Turquia. Mesmo que o EU-3 continuasse, com toda a sua ineficácia, haveria um contrapeso de fato na forma de Rússia, China e Turquia.

De todas essas importantíssimas jogadas no tabuleiro geopolítico, destaca-se uma motivação entre os enxadristas: a integração eurasiana não vai avançar se não for refreada a mania que o presidente estadunidense Donald Trump tem de impor sanções a todo mundo. 

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