Surge um novo eixo político-espiritual na América Latina

Ao redor do Papa Francisco, Lula, Alberto Fernández e Evo Morales são os líderes de um novo projeto político-espiritual que está nascendo na América Latina. Baseado no amor e nos pobres, ele contrapõe-se ao projeto de ódio e opção pelos ricos da direita e do fundamentalismo. Leia o artigo de Mauro Lopes

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Há algo muito potente surgindo. Está em constituição um novo eixo político-espiritual na América Latina. 

Não nos iludamos: não existe religião sem política. A ideia de uma religião ou espiritualidade exclusivamente intimistas, alienadas do mundo e da relação com as pessoas nas condições concretas em que vivem é uma falsificação completa.

Basta olhar para as religiões, as religiosidades e os movimentos de espiritualidade ao longo da história da humanidade. Uma leitura atenta do Novo Testamento, por exemplo, mostra como as diferentes correntes do judaísmo, denominadas não por acaso de "partidos" organizavam-se ao redor de interesses muito concretos, como os saduceus, que representavam a elite da época e os fariseus, que reuniam uma espiritualidade de acento fundamentalista, popular, contraditória. O movimento jesuânico apareceu, ao lado de outros, como os zelotes, com uma clara opção pelos deserdados do sistema, pelos pobres oprimidos pelas elites locais e pela ocupação romana. Na verdade, seria incompreensível à época falar em separação entre política e religião, elas eram uma expressão só no interior da sociedade de Israel. Continua assim -a separação existe para efeitos acadêmicos e de estudo ou como estratégia narrativa esperta dos que desejam ver seu projeto político-espiritual prevalecer.

Em seu artigo no livro "Lula e a espiritualidade: oração, meditação e militância", Júlio Lancellotti, o padre do povo da rua, apresenta um traço de igualdade entre espiritualidade e humanização. Mas há uma espiritualidade que representa des-humanização.

Esta constituiu-se com um projeto político-espiritual ao longo das últimas três décadas o da extrema-direita fundamentalista. A esquerda assistiu pasma, desconcertada e despreparada sua ascensão até que tal projeto tornou-se poder no Brasil. Ódio, opção pelos ricos, preconceitos de toda sorte são a marca deste projeto político-espiritual.

Começa a surgir a contraposição a este projeto. Depois de anos, a esquerda começa a refazer sua relação com o tema da espiritualidade. É o que temos testemunhado ao olhar para a cela de Curitiba onde está aprisionado Lula. Ao longo dos meses, emergiu uma espiritualidade explícita e complexa, que acena um novo projeto para o país e a América Latina.

A carta de Lula de congratulação a Alberto Fernández e Cristina  Kirchner pela vitória na Argentina é exemplar neste sentido e deve ser lida quase como um manifesto do novo eixo político- espiritual que está surgindo na América Latina, com repercussões mundiais. 

Ele terminou assim o texto, datado desta terça (29):

“Boa sorte pra você e Cristina. Que Deus mantenha seu Amor na ajuda ao povo pobre da Argentina. Que o Papa Francisco siga ajudando o querido povo argentino".

Nestas curtas frases estão condensadas as linhas deste novo eixo, que se contrapõe ao projeto político-espiritual da direita-fundamentalistas: Amor (em vez de ódio) e caminho com os pobres (em vez dos ricos).

São três os líderes políticos de nossa região que assumem o protagonismo deste novo eixo: Lula, Alberto Fernández e Evo Morales. Os três têm como referência o Papa Francisco.

A relação entre Lula e o Papa desenvolveu-se de maneira consistente, forte, durante esses tempos de prisão. Fernandéz é amigo de Francisco desde muito antes deste virar Papa. quando era ainda apenas Bergoglio. E a relação Francisco-Evo é de uma ternura patente. Há um tom filial na amizade do presidente boliviano com o Papa, e ela se desenvolveu ao longo dos três encontros mundiais de movimentos populares que o Papa promoveu, entre 2014 e 2016 -o segundo deles aconteceu em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. 

Lula, Fernandéz e Evo Morales, unidos e ao redor de Francisco, são os líderes fundantes deste novo eixo político-espiritual. 

Há algo muito novo surgindo diante de nossos olhos.

Creio que nosso livro sobre a espiritualidade de Lula surge num momento propício e é, talvez, o primeiro registro deste tempo histórico nascente. 

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