SUS merece ser valorizado

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A qualidade de vida que buscamos depende de vários fatores, o mais importante são políticas públicas voltadas para o bem estar da população. Atualmente, não há consenso em relação a estas políticas, a alta mortalidade nos hospitais da periferia se dá por motivos banais à falta de estrutura e de orientação à população que na maioria demora a chegar ao hospital ou só procura este atendimento quando a doença já esta em estágio avançado e mesmo assim reluta em procurar atendimento.

Quando lemos uma notícia de que nas regiões mais ricas e centrais concentram mais de 60% dos leitos de UTI do SUS no município de São Paulo e enquanto isso 20% da população (2.375.000 pessoas) vive em sete subprefeituras localizadas nas periferias e sem um leito sequer (Talyta Vespa-UOL- 2020), a sensação de impotência vem a tona, o próprio SUS é desigual?

Ai vê-se que realmente o CEP é mais importante do que o código genético na determinação da morte prematura por doença cardiovascular ou qualquer outra o desafio da saúde hoje é ter medidas de gestão e organização do espaço urbano para o beneficio das pessoas mais afetadas, devíamos fundar a “Sociedade Protetora dos Seres Humanos” (Prof. Paulo Saudiva), tentar fazer uma política mais humana voltada para a o bem geral da sociedade. 

Na situação atual, o Coronavírus escancara a realidade, circulando, preocupando, e alertando a fragilidade principalmente nas zonas periféricas, onde as pessoas precisam sair para trabalhar e usar o transporte público que normalmente vem lotado aumentando o risco de contaminação que, por consequência, leva a infecção de parentes mais próximos. 

Ademais, os acessos aos serviços de saúde estão cada vez mais precários e sem profissionais treinados para informações corretas e diretas, os meios de comunicação usando palavras como: indicadores, índice, curva achatada, contingência, isso não explica nada para o povo, apenas confunde a população que só quer ser atendida dignamente e imediatamente, não dá para responsabilizar as pessoas, muitas não têm condições de cumprir o isolamento por morarem em locais insalubres que na maioria das vezes sete pessoas dividem o mesmo espaço minúsculo. A impossibilidade é uma questão de estrutura e de equalização de oportunidades.

Sabemos que é impossível atender a todos prontamente, mas as informações devem ser claras, não podemos admitir nossos governantes fazendo piadas a respeito de uma doença que esta assolando o mundo inteiro, as pessoas devem procurar atendimento ao primeiro sintoma, sem o receio de ir ao hospital, o uso da máscara e do álcool gel deve ser difundido e não ironizado.

Infelizmente, faltam políticas públicas que incluam estes itens como produtos de uso comum a todos nesta pandemia, as pessoas em situação de vulnerabilidade, os trabalhadores, os desempregados que saem em busca de trabalho e tantos outros que vivem em situação de risco, às vezes não tem como adquirir estes itens e contam com a ajuda de instituições, organizações e grupos que se unem para arrecadar e distribuir este material, afinal, não se pode contar com o poder público para esta emergência.

Este vírus aflorou ainda mais a desigualdade econômica mundial, o acesso aos remédios, equipamentos de saúde e hospitais é 100 vezes maior nos países ricos do que nos pobres (ONU-2020). E por consequência os países mais pobres se endividaram consideravelmente e não estão conseguindo equilibrar-se trazendo efeitos colaterais graves para a economia mundial. A vacina que deveria ser um item global e inclusivo já há duvidas de que todos terão acesso, deixando-nos ainda mais vulneráveis diante desta situação.

Na atual conjuntura do SUS, os maiores problemas que se destacam são questões a respeito do processo de implantação e implementação do sistema de saúde, assim é possível citar a lógica macroeconômica de valorização do capital financeiro; a subordinação da política social, encolhendo os direitos sociais e ampliando o espaço de mercado; a terceirização e precarização dos trabalhadores de saúde; o não reconhecimento da saúde como resultado da determinação social do processo saúde-doença; o rompimento com a política de austeridade fiscal, visto que causa impactos negativos sobre o financiamento das políticas de saúde e as próprias condições de saúde da população brasileira; e, por último, e não menos preocupante, a mercantilização da saúde. 

No contexto econômico, é válido lembrar que o próprio SUS é alvo de golpe financeiro internacional, pois há a entrada de capital estrangeiro como lucratividade, ou seja, é uma Medida Provisória, a qual abre a entrada de capital estrangeiro no Brasil, oferecendo, assim, para o capital internacional um mercado de 25% da população brasileira que consome planos de saúde.

É válido ressaltar que, o sistema de saúde brasileiro é dual – público e privado – e isto só ocorre porque há falhas em ambos os sistemas. Esclarecendo, no SUS, apesar da ideia de saúde pública para todos, há uma falha enorme de gestão, a qual vem a desagradar boa maioria da população, seja rica ou pobre; já a segunda embora conter atendimento esplêndido e de última qualidade, “o sistema de saúde dos sonhos”, não é nada democrático, óbvio, pois, o preço médio a ser pago é totalmente inacessível aos que realmente precisam. Certo, mas se o público é mal coordenado, porém democrático, e o privado é uma utopia de saúde pública, mas absurdamente caro, por que não juntar as parte boa de ambos, assim terá um sistema de saúde gratuito e eficiente? Em tese, sim. Entretanto, vale destacar os seguintes tópicos: 1) As pessoas ainda são tratadas como “números” para o lucro dos grandes empresários; 2) Salvo o Covid-19, ainda temos outros problemas relacionados à saúde pública como a falta de médico e remédios, e de recursos para a saúde, além da discriminação no atendimento relacionado ao preconceito religioso, racial e até à comunidade LGBT; 3) um dos pontos mais crucias do debate a apontar são os planos de saúde subsidiados aos que mais precisam pelas grandes empresas. 

Quando fala-se a respeito dos planos de saúde, é crível que uma das primeiras palavras que vêm à mente é “reembolso”. Há 20 anos, no Brasil, o custo médio de uma consulta, com os melhores médicos, era em torno de R$100,00, já atualmente, raramente fica abaixo de R$500,00, uma variação muito acima da inflação – e óbvio que isso apenas disponível às camadas mais ricas da sociedade. O motivo de tamanha mudança, tanto de preço, quanto qualidade do serviço médico, deriva-se do seguinte pressuposto: maior parte das pessoas que estão no topo da pirâmide possui seguro de vida e, quanto mais rico, maior é o percentual de segurados. Além disso, os planos passam a oferecer maiores reembolsos para consultas, melhores opções de hospitais e de médicos conveniados – cobrança de contas maiores de seus associados e consequentemente reflete em receitas maiores aos planos; médicos e hospitais cobram mais e criam serviços mais caros, de maior luxo e valor agregado; os planos preferem vender seu serviço às pessoas jurídicas (empresas) e elas oferecem aos seus funcionários. 

Logo, muito se acha que são as próprias empresas que pagam a conta de toda essa melhoria dos hospitais e serviços médicos prestados aos ricos, porém não, surpreendentemente os pagantes são os pobres. Para explicar, o economista progressista Eduardo Moreira, em seu livro “O que os donos do poder não querem que você saiba”, usa o termo “follow the Money” (seguir o dinheiro), ou seja, partindo do pressuposto que os maiores empregadores do país são as empresas prestadoras de serviços de infraestrutura, necessidades básicas e os grandes varejistas, e seus serviços atingem de forma quase equânime toda a população brasileira, deduz que uma característica geral da maior parte da população é a pobreza.

Seguindo a lógica, o rico se recusa a aceitar medidas que transfiram maiores recursos à saúde pública e que a solução é privatizar. Não entendem, ou fingem, que estão sendo financiados por aqueles para quem estão negando uma condição mínima de atendimento. Quanto maior o abismo entre a qualidade dos serviços disponíveis para os ricos e pobres, maior será a indiferença. Para melhorar o SUS, seria preciso uma redistribuição de recursos, – é um jogo de soma zero: se um lado tem mais, o outro tem que ter menos; haja vista, o dinheiro à saúde dos mais pobres deve sair dos mais ricos – a qual, se bem efetiva, poderia ser uma solução aos mais ricos, pois, se o SUS melhorasse, eles mesmos poderiam usá-lo e veriam vantagem em abrir mão (ou investir) de seus recursos. 

Portanto, é urgente pensar a redução da desigualdade com políticas de inclusão e de qualidade, nosso país é uma das economias mais desiguais do mundo, os 10% mais ricos se apropriam de 95% da renda gerada no país, (Débora Freire). Concluindo, a saúde privada não é um problema, pelo contrário, é até surreal um país como o Brasil conseguir sustentar dois âmbitos diferentes, porém como dito, o privado não é democrático. Ademais, a Constituição assegura o acesso digno aos bens básicos, por que então não padronizar um direito vital, deixar o pensamento capitalista de lado e valorizar a parte humanista de cada persona. 

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