Suspiro

A moribunda Lava-Jato, desmoralizada, pilhada em dezenas de denúncias, como último suspiro, aparenta recuperação. Ou tenta. Volta-se até contra aliados a quem não convém melindrar, como disse Moro em uma das conversas com Deltan, investigando cardeais tucanos

Moro vai escrever a nova constituição?
Moro vai escrever a nova constituição? (Foto: Pedro de Oliveira/ ALEP)
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Nesses tempos de muitas perdas de entes queridos em decorrência das duas pandemias (do vírus e da estupidez) falar em morte beira o mau gosto. Mas é inevitável. Ela está, como uma cinzenta névoa, ubíqua, em nosso cotidiano. 

Todos conhecemos relatos de alguém que aparentava melhora, renovando esperanças entre os seus, antes de falecer. Não há explicação científica para o fenômeno. A perda, nesses casos, vêm acompanhada da surpresa. Estava melhorando, com energia e, de repente, se foi. Expirou.

Não se sabe a razão, mas acontece com frequência. 

A moribunda Lava-Jato, desmoralizada, pilhada em dezenas de denúncias, como último suspiro, aparenta recuperação. Ou tenta. Volta-se até contra aliados a quem não convém melindrar, como disse Moro em uma das conversas com Deltan, investigando cardeais tucanos. 

A Direita Concursada se inquieta. Antes onipotente, teme que seu marqueteiro bordão se efetive. A lei é para todos. Apavoram-se diante da possibilidade de punição aos procuradores filhos de Januário com pouco reputada progenitora. Tentam alguma sobrevida. Alimentam a vultúrica imprensa com midiáticas operações requentadas, abutres, envolvendo governadores para justificar suas competências funcionais, realimentando indignações moralistas, para desacreditar os políticos e a política. Tenta, à beira da morte, repaginar o figurino justiceiro. Aparenta melhora às vésperas de previsível velório, pintura negra de um atormentado Goya. 

Esperneiam. Seus crimes estão sendo desvendados pela disputa entre facções. Seus arquivos foram compartilhados com a banda rival. O stf tende a anular dezenas de processos ao reconhecer desmandos na condução dos inquéritos e nos julgamentos. Delações obtidas mediante extorsão e ameaças devem ser invalidadas como provas. A suspeição de Moro já não pode ser escondida. O repasse de informações sigilosas, de interesse nacional, a outros países, traição, de fato, constitui motivo suficiente para apenamentos e para desequilibradas reações de seus acadelados agentes. 

O lavajatismo produziu na credibilidade do poder judiciário e no ministério público federal efeito socialmente similar ao vislumbrado nas forças armadas pela incompetência da intervenção militar no ministério da saúde. O desconforto é evidente. O Brasil foi desmoralizado pelo hipócrita discurso moralista. 

Não há cloroquina que resolva o descrédito do aparato repressivo nacional. Eles sabem disso. Eram onipotentes como o desembargador paulista, rasgando a legalidade. Não há mais como pedir morísticas escusas. Agiram como bandidos confiando na leniência corporativa. Não contavam, todavia, com as consequências da vaidade exacerbada que fez rachar a unidade simbólica entre Moro e Bolsonaro. Eram uma coisa só, como afirmou a conja. As revelações das relações obscenas, indecentes, dentro do aparato repressivo desnudaram as relações espúrias entre lavajatistas e bolsonaristas. 

As guardas municipais, as milícias, as polícias militares, também se viam como onipotentes, blindadas, podiam tudo. Sob Bolsonaro sentiram-se autorizadas a matar, a espancar, a constranger seus adversários e suas vítimas. Espelharam-se no lavajatismo. Podem tudo. Assim como a Direita Concursada, sentem-se superiores. Assim como os mais de seis mil militares que ocupam funções no governo federal, entendem-se inexpugnáveis. Assim como os genocidas em outras latitudes e em outros momentos históricos, não contam com a possibilidade de serem futuramente julgados por seus atos. A história não lhes ensina. Negam-na. Vai dar em nada, presunçosos, supõem. Ou supunham. 

A saúde do monstro do autoritarismo boçal, com características franquistas e fascistas, parece hígida durante a pandemia de estupidez iniciada em 2013 e para a qual inexiste vacina eficiente. É só aparência, todavia. Cedo ou tarde a sociedade gerará anticorpos para enfrentá-la, para debelá-la. A história jamais expira, suspira e não acaba. 

Na guerra de facções no ministério público federal e na disputa hegemônica entre as antagônicas alas no stf, a retomada do ativismo punitivista se assemelha à melhora que antecede à morte? A resposta a essa indagação situa-se envolta nas brumas onde transitam os desejos e as análises que se pretendem objetivas, inviáveis vaticínios descomprometidos. Suspiremos. 

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, preside o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora

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