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Luiz Fernando Padulla

Professor, biólogo, doutor em Etologia, mestre em Ciências, autor do blog 'Biólogo Socialista'

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Tapajós e a luta anticolonial

"Anular o decreto nº 12.600/2025 é mais do que defender nossa soberania, é questão moral!""

Tapajós e a luta anticolonial (Foto: Agência Brasil/Antaq)

Não é apenas uma hidrovia. Não é apenas uma ferrovia. É um projeto de dragagem. É um projeto de devastação ambiental. Um sifão gigantesco inserido nas veias abertas do Tapajós para sugar, com voracidade inédita, a riqueza viva do território e convertê-la em commodity morta, em grão anônimo para saciar a fome insaciável do capital global. Destruição para escoar soja, algodão, milho, produzidos pelo agronegócio latifundiário que mata, polui, desmata e gera fome.

A dragagem de rios como o Tapajós, Madeira e Tocantins, muda o fundo, a água, o curso, a fauna, as margens, toda a vida e biodiversidade de quem depende dele todos os dias. Os protestos dos povos originários que ecoam nas margens do rio não são “obstáculos ao desenvolvimento”. São protestos legítimos de povos, de culturas pela soberania nacional, lutando contra a lógica reducionista e excludente do agronegócio exportador. É a luta pelo território que é alimento, caminho, memória e morada.

A Ferrogrão (EF-170) e as hidrovias são a materialização de um modelo antinacional e anti-vida. Vestem-se com o discurso modernizante da “logística eficiente”, mas seu DNA é colonial. O objetivo é único e claro: reduzir o custo de escoamento da soja, do algodão e do milho do Mato Grosso até os portos do Norte, incrementando o lucro de um punhado de corporações internacionais e seus sócios locais. Em seu rastro, deixam não desenvolvimento, mas um rastro de devastação: a aceleração do desmatamento, a desestruturação irreversível dos ecossistemas fluviais, a invasão de terras indígenas e a condenação de populações inteiras a um futuro de pobreza e dependência.

A expansão dos portos na região correlaciona-se com o crescimento de 165% na produção de grãos nos estados do Norte, bem como em Mato Grosso e Maranhão, entre os anos de 2009 e 2020, conforme dados da Confederação Nacional da Agricultura. Nesse mesmo período, as exportações de soja e milho pelos portos do denominado “Arco Norte” registraram um aumento de 487%.

A indignação, aqui, é dupla. 

Primeiro, pela violência direta contra os povos originários que nem ao menos são recebidos pelas autoridades, o que viola a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário. Neste acordo, diz-se que é dever do Estado ouvir povos originários e tradicionais antes de projetos ou empreendimentos que tragam impactos a eles. Ignora-se também a própria Constituição ao negligenciar seus territórios que devem ser protegidos. É um verdadeiro apartheid democrático. 

O segundo aspecto a ser considerado diz respeito à renúncia em âmbito nacional. Enquanto se investe bilhões em infraestrutura para exportar matéria-prima bruta (o velho pacto colonial, ou neocolonialismo), se esquece o principal: industrializar o país. O Brasil, na contramão da história, aprofunda sua condição de fazenda e mina do mundo, abrindo mão de gerar empregos de qualidade, tecnologia e soberania. A Ferrogrão não traz uma usina siderúrgica, uma fábrica de máquinas ou um polo de biotecnologia. Ela apenas acelera a corrida rumo ao abismo da desindustrialização, nos condenando à eterna volatilidade dos preços das commodities no mercado externo.

Destrói-se o ambiente, exterminam-se as populações e seguimos sendo escravos do capital.

E o que dizer do cinismo climático? Afinal, por mais que o Brasil apresentasse um papel fundamental durante a 30ª Conferência da Organização das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30 (realizada justamente em Belém, no coração da Amazônia), o governo federal e os governos estaduais incentivam projetos que são a negação de qualquer compromisso socioambiental sério. Como se pode falar em “governança climática” e “economia de baixo carbono” enquanto se financia a infraestrutura que vai expandir a fronteira agrícola sobre a floresta e intensificar a queima de combustíveis fósseis no transporte? 

É uma esquizofrenia política que beira a hipocrisia. É o Estado promovendo o “greenwashing” e financiando seu próprio fracasso. 

Os povos originários, representados desde o dia 22 de janeiro por 14 etnias do Baixo e Médio Tapajós, que se unem e resistem acampados nas instalações da Cargill em Santarém (PA), não lutam apenas por seus direitos específicos. Eles estão na linha de frente da batalha por um projeto de nação. Sua resistência é a trincheira mais avançada contra um modelo econômico que vê a Amazônia – e o Brasil – como um estoque de recursos a ser pilhado, e não como um complexo vivo a ser desenvolvido em harmonia.

Apoiar suas manifestações não é uma questão de simpatia ou solidariedade. É uma questão de sobrevivência coletiva e de lucidez econômica. Ou o Brasil interrompe essa marcha insana de autofagia, onde destrói seu maior patrimônio biológico e cultural para alimentar um capitalismo predatório, ou assinará, com a Ferrogrão e as hidrovias, a certidão de óbito de sua própria possibilidade de futuro. O Tapajós sangra. E seu sangue, se não estancado, será o nosso.

Anular o decreto nº 12.600/2025 é mais do que defender nossa soberania, é questão moral!

*Professor, Biólogo, Doutor em Etologia, Mestre em Ciências, Especialista em Bioecologia e Conservação. Autor do livro “Entre mitoses e revoluções”, do blog e do canal no YouTube “Biólogo Socialista”, e do PodCast “ProfPadulla”. Instagram: @BiologoSocialista

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.