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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Tarcísio, Flávio e os limites da autonomia bolsonarista

"Ao embarcar na defesa pública de Flávio Bolsonaro, Tarcísio demonstra que sua margem de autonomia dentro desse campo político continua extremamente limitada"

Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro (Foto: Pablo Jacob /Governo do Estado de SP | Jefferson Rudy/Agência Senado)
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A decisão de Tarcísio de Freitas de sair publicamente em defesa de Flávio Bolsonaro  em seu rolo com Daniel Vorcaro para produção do Dark Horse, filme sobre a vida de Jair Bolsonaro, talvez tenha um peso político muito maior do que aparenta. Não se trata apenas de solidariedade entre aliados. Trata-se de um movimento que expõe as contradições centrais do próprio projeto político de Tarcísio dentro da direita brasileira.

Durante boa parte de seu governo em São Paulo, Tarcísio tentou cultivar uma imagem relativamente distinta da família Bolsonaro: menos ideológica, mais técnica, mais previsível e mais aceitável para setores do empresariado, da Faria Lima e até de parcelas do centro político. Essa construção nunca ocorreu por acaso. Desde a derrota de Jair Bolsonaro em 2022 e sua crescente fragilidade jurídica e política, parte da direita econômica passou a procurar um nome capaz de preservar o campo conservador sem carregar integralmente o desgaste do bolsonarismo mais radical.

Foi nesse contexto que Tarcísio passou a ser visto como possível alternativa presidencial para 2026.

Mas existe um problema estrutural nessa leitura: a própria ascensão política de Tarcísio é inseparável do bolsonarismo. Sem Bolsonaro, dificilmente teria chegado ao governo de São Paulo. Sua trajetória nacional não nasceu de uma liderança política autônoma construída ao longo de décadas, mas da condição de quadro técnico transformado em candidato pelo próprio bolsonarismo. Sua força eleitoral nunca esteve baseada numa identidade independente, mas justamente na transferência direta de capital político do ex-presidente.

E talvez seja exatamente isso que os episódios recentes estejam deixando mais evidente.

Ao embarcar na defesa pública de Flávio Bolsonaro, Tarcísio demonstra que sua margem de autonomia dentro desse campo político continua extremamente limitada. Em momentos decisivos, o governador parece menos um líder independente da direita e mais um satélite político do bolsonarismo — alguém que precisa continuamente reafirmar lealdade à família Bolsonaro para preservar espaço dentro do movimento.

Isso ajuda a entender a posição delicada em que ele se encontra hoje.

Tarcísio precisa simultaneamente manter apoio do eleitorado bolsonarista radical, preservar a confiança do mercado financeiro e tentar ampliar pontes com setores moderados da política brasileira. Mas essas três dimensões começam a entrar em choque crescente.

O bolsonarismo exige fidelidade pública permanente. Não basta concordar silenciosamente. É necessário demonstrar alinhamento explícito — sobretudo nos momentos de pressão política sobre integrantes da família Bolsonaro. Dentro desse universo, neutralidade frequentemente é interpretada como traição.

Por isso, a defesa de Flávio Bolsonaro possui um significado que vai além do episódio imediato. Funciona como sinal político para a base bolsonarista: Tarcísio continua subordinado ao núcleo familiar do ex-presidente e não pretende romper com ele.

O problema é que esse movimento também produz desgaste fora desse universo.

Parte do empresariado e da elite financeira que inicialmente apostava em Tarcísio como uma espécie de “direita racional” começa a perceber que talvez tenha superestimado sua capacidade de autonomia política. Afinal, nos momentos de maior tensão, o governador frequentemente abandona a postura técnica e moderada para mergulhar na lógica emocional e defensiva típica do bolsonarismo.

A própria composição política ao redor de Tarcísio sempre revelou os limites dessa suposta moderação. O governador nunca rompeu efetivamente com o núcleo ideológico bolsonarista e manteve proximidade com figuras emblemáticas da ala mais radical do movimento, como Mario Frias. Ex-secretário especial da Cultura no governo Bolsonaro e conhecido por sua atuação agressiva nas guerras culturais e nas redes sociais, Frias tornou-se uma das vozes mais fiéis do bolsonarismo raiz dentro de São Paulo. Sua proximidade com Tarcísio ajuda a desmontar a narrativa de que o governador representaria uma ruptura real com os métodos e a lógica política do bolsonarismo tradicional.

Isso se torna particularmente delicado porque o país vive um ambiente de crescente fadiga institucional. O Brasil atravessa um período marcado por polarização extrema, desgaste das instituições, radicalização das redes políticas e tensão constante entre investigação, Justiça e disputa partidária. Nesse contexto, lideranças que aspiram à Presidência tendem a ser observadas não apenas por sua capacidade administrativa, mas também pela forma como se posicionam diante das crises.

E é justamente aí que emerge a principal contradição de Tarcísio.

Para herdar o bolsonarismo, precisa provar fidelidade contínua à família Bolsonaro. Mas quanto mais demonstra essa submissão política, mais difícil se torna construir imagem nacional própria capaz de dialogar para além do núcleo bolsonarista.

Em outras palavras: o mesmo vínculo que o criou politicamente pode acabar limitando sua capacidade de se transformar em liderança nacional autônoma.

Existe ainda outro fator relevante. A eventual candidatura presidencial de Tarcísio depende não apenas do apoio de Bolsonaro, mas também da ausência de resistência dentro do próprio clã bolsonarista. E isso está longe de ser garantido. Afinal, o bolsonarismo sempre funcionou muito mais como movimento personalista e familiar do que como campo político institucionalizado.

Nesse tipo de estrutura, herdeiros políticos raramente possuem plena independência.

Por isso, cada gesto público de Tarcísio parece carregar uma tensão permanente: a tentativa de parecer presidenciável sem deixar de parecer obediente.

No fim, a defesa de Flávio Bolsonaro talvez revele menos uma simples circunstância política e mais um retrato estrutural da própria direita brasileira contemporânea. Uma direita que ainda gira em torno da família Bolsonaro, mesmo quando tenta construir alternativas para sobreviver ao desgaste do próprio bolsonarismo.

E talvez resida exatamente aí o dilema central de Tarcísio de Freitas: tentar se apresentar como futuro líder nacional enquanto continua operando politicamente sob a sombra — e sob as ordens — do bolsonarismo que o criou.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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