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Francisco Alexandre

Ex-diretor eleito de Planejamento da Previ e ex-presidente da BRF Food Previdência

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Taxa Selic de 15% é punitiva para a população e a economia

Juros elevados aprofundam a desigualdade, travam o crescimento econômico e transferem renda da sociedade para bancos e rentistas

Vista aérea do Banco Central do Brasil, no Setor Bancário Sul, em Brasília (Foto: Pedro França/Agência Senado)

Nos últimos 20 anos, a média da inflação pelo IPCA foi de 5,5%. Em apenas um ano ela ficou abaixo de 3%. Na faixa superior da banda, estabelecida em 4,5%, apenas em sete oportunidades a inflação ficou abaixo do teto projetado.

Os que se apegam à defesa da manutenção da taxa Selic nas nuvens, em 15% a.a., argumentam que é preciso perseguir a meta, repetindo os argumentos de austeridade fiscal e de que o governo é expansionista, entre outros. Contudo, no governo passado, de 2018 a 2022, a inflação anual média foi de 6,15%, versus a média dos últimos três anos de 4,63%. A queda da inflação continua. Em 2025, o IPCA foi de 4,26%, índice abaixo do teto da meta, dados que mostram a preocupação do governo atual com a redução da inflação.

Manter a taxa de juros em patamar tão elevado é uma decisão fora da realidade e serve apenas para garantir a poucos renda alta vinda da dívida pública, ou seja, penalizar a população com juros extorsivos que colocam o Brasil no topo da lista, com a segunda maior taxa do mundo.

Para entender a quem beneficiam os juros altos, basta comparar e observar que, nos últimos quatro anos, os ganhos da poupança, investimento dos mais pobres, renderam 31,5%, média de 7,5%. Enquanto isso, os quatro maiores bancos lucraram, em média, 122%, ou 22% ao ano. A poupança não pagou sequer a inflação do período, de 33,7%. Assim, quem depositou R$ 100 na poupança há quatro anos tem hoje R$ 131, enquanto bancos e rentistas têm R$ 220 no mesmo período.

Os poupadores levam 10 anos para dobrar seu capital; já os bancos, apenas quatro. Os juros altos sangram quase R$ 1 trilhão de recursos públicos a cada ano, dinheiro que poderia ser destinado a benefícios sociais e investimentos em benfeitorias para a sociedade.

O efeito da taxa de juros nas regiões mais pobres do país é ainda maior. Recentemente, um relatório do Banco Mundial mostrou que os juros bancários na Região Nordeste são ainda mais caros e que a disponibilidade de crédito é ainda menor. O relatório mostra que os juros nos níveis atuais impactam as pessoas e as empresas daquela região com maior intensidade, quer seja na tomada de um empréstimo pessoal, quer seja para as empresas. Todos são punidos com juros que tornam impraticável pensar em alavancagem financeira para financiar negócios.

O Banco Central continua acenando que não reduzirá a taxa de juros neste mês, o que é ruim. Para o Bacen, é como se a inflação não estivesse abaixo do teto da meta. Na contramão, ele prefere se ancorar no desejo dos bancos revelado na pesquisa Focus, produzida pelos mesmos bancos que lucram diariamente com juros altíssimos em aplicações em operações compromissadas para alocar recursos disponíveis em seus caixas.

Em vez de adotar medida que parece ser a mais adequada diante da amplitude de juros reais atualmente praticada — taxa real de 10% acima da inflação —, a Autoridade Monetária, a cada 45 dias, confirma a expectativa do mercado — neste caso, os bancos —, que é a continuidade de uma taxa de juros punitiva em todos os sentidos. Punitiva para o país, para a economia, para o setor produtivo, para os donos de pequenos e médios negócios e para a população em geral, que paga juros bancários escorchantes quando contrai crédito.

O Bacen bem que poderia pensar em adotar outra ferramenta, como o aumento do nível de depósito compulsório, atualmente em 21%, que também reduz a liquidez. A medida, por certo, impactaria a taxa de juros bancários. Contudo, as taxas seriam resultado da lógica de mercado e da concorrência, forçando os bancos a oferecer linhas de crédito para induzir a economia e evitar a continuação dos lucros substanciais de bancos que sangram o caixa do governo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.