Temer se agarra ao poder com medo de ser preso

O desespero com o qual Temer se agarra ao cargo seria muito mais decorrência do seu temor em sair do Planalto direto para a cadeia do que, propriamente, da sua ambição pelo poder.

(Brasília - DF, 15/05/2017) Presidente Michel Temer durante entrevista para o programa Frente a Frente da Rede Vida. Foto: Marcos Corrêa/PR
(Brasília - DF, 15/05/2017) Presidente Michel Temer durante entrevista para o programa Frente a Frente da Rede Vida. Foto: Marcos Corrêa/PR (Foto: Ribamar Fonseca)

Longe de ser uma rotina ou uma possível obediência ao senador afastado Aécio Neves, que criticou asperamente o ministro Osmar Serraglio na conversa com o empresário Joesley Batista, a sua substituição no Ministério da Justiça por Torquato Jardim pode ter sido uma das últimas manobras de Temer para manter-se no poder. E provavelmente já resultou do seu encontro de duas horas, no sábado, com o ex-presidente José Sarney, com quem certamente decidiu aconselhar-se quando sentiu que o terreno estava fugindo sob os seus pés. Sarney, reconhecido como a maior raposa política viva deste país, parece ser uma das últimas esperanças de Temer para permanecer no Palácio do Planalto. Tudo indica que a nomeação de Jardim para o Ministério da Justiça, em pleno domingo, já seria fruto da conversa com o ex-presidente, que tem sido consultor de quase todos os presidentes quando em apuros.

Antes mesmo de sentar na cadeira de ministro, Torquato já sinalizava a missão que o trouxera do Ministério da Transparência para a Justiça: tentar salvar a pele de Temer. Ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral e com reconhecida bagagem jurídica, o novo ministro da Justiça conhece os meandros do funcionamento da Corte Eleitoral e tem trânsito no Poder Judiciário, o que pode facilitar a sua missão, destinada a manter Temer no Planalto. Sua primeira tarefa certamente será tirar o presidente ilegítimo da linha de tiro da Procuradoria Geral da República, desqualificando as denúncias do dono da JBS e segurando a caneta do ministro Edson Fachin. Ao mesmo tempo, fazendo uso da autoridade do cargo, deve estancar o entusiasmo da Policia Federal, que parece ansiosa para por as mãos em Temer, tendo insistido inclusive em ouvi-lo em depoimento no inquérito aberto por decisão de Fachin. A terceira fase seria por um freio na empolgação do pessoal da Lava-Jato, de modo a salvar a pele dos amigos do presidente. A Lava-Jato, aliás, que também deu a sua contribuição ao golpe e à ascensão de Temer, hoje paga pelo pecado com o corte nas verbas para o seu funcionamento.

Em princípio, a missão não seria tão impossível, considerando-se a convergência de interesses do Congresso, de parte do Judiciário, das elites e da mídia em preservar Temer. O problema é que para que a missão do novo ministro tenha sucesso seria necessário que os outros agentes envolvidos no processo no TSE, no STF e no Ministério Público, por exemplo, estivessem de acordo. E pensar que eles estão propensos a preservar Temer, procrastinando nas decisões ou até mesmo absolvendo-o, pode ser um insulto, principalmente aos ministros da Corte Eleitoral. Esses aspectos obviamente devem ter sido discutidos na conversa com Sarney, que conhece como poucos a estrutura política do país, mas além da pressão popular para Michel Miguel deixar o Planalto, há que se levar em conta os imprevistos como, por exemplo, a repentina mudança de comportamento do ministro Gilmar Mendes, presidente do TSE.

Gilmar, até então considerado a tábua de salvação de Temer, levando em conta a amizade de 30 anos que os unia, reagiu indignado às insinuações de que no TSE serão utilizados artifícios para salvar o velho amigo. “O Tribunal não é departamento do governo”, disse. A declaração de Gilmar não significa que ele teria rompido a velha amizade, por conta da qual participou de alguns rega-bofes no Jaburu, mas a necessidade de salvar a própria pele, pois já há quem esteja cogitando também do seu impeachment. E diante da atenção que o julgamento da ação dos tucanos, pedindo a cassação da chapa Dilma-Temer, despertou em todo o país, constituindo-se hoje praticamente na única alternativa para defenestrá-lo do Planalto, já que o Congresso é seu cúmplice, qualquer manobra para retardar a decisão provocará uma reação nacional. E não apenas do povo mas, também, dos tucanos, que já buscam um sucessor pinçado dos seus quadros. Até porque todo mundo sabe que Temer, embora tente se segurar de toda maneira no poder, não reúne mais as mínimas condições para continuar à frente do governo.

Na verdade, aparentemente o desespero com que ele se agarra ao cargo seria muito mais decorrência do seu temor em sair do Planalto direto para a cadeia do que, propriamente, da sua ambição pelo poder. Afinal, ele sabe que a sua proteção é o cargo e que estará exposto à ação da Justiça assim que deixa-lo e, portanto, precisa segurar-se no Planalto o maior tempo possível, pelo menos até que possa, mobilizando a sua ainda maioria no Congresso, votar uma lei que o proteja dos que estão loucos para por a mão nele. Até porque quando deixar o Palácio do Planalto ele estará só, abandonado pelos amigos do poder. Não terá, como Dilma, o povo do seu lado. Sem a Presidência da República ele será esquecido até pela mídia, pois não terá mais nenhuma utilidade para os barões da imprensa, como aconteceu com o ministro Joaquim Barbosa, antes endeusado até aposentar-se do Supremo Tribunal Federal. Fora do Planalto Temer não será mais nem vice-presidente, ficando sujeito também a responder pelos crimes de que foi acusado antes de assumir a Presidência. O seu futuro parece sombrio.

Se as manobras aconselhadas por Sarney não produzirem o efeito desejado, mantendo-o no cargo até as eleições de 2018, Temer vai ter que jogar a sua última cartada: um pai-de-santo. Porque se a missão do ministro Torquato Jardim fracassar ele deverá ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Se isso não acontecer, será a desmoralização total das instituições nacionais, em especial do Poder Judiciário. E o Brasil precisará ser reinventado para recuperar o respeito não apenas dos próprios brasileiros mas, também, dos estrangeiros.

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