Tentativa de aproximação de Lula com militares pode ser prematura ou equívoco

Jornalista Denise Assis apresenta avaliação de "uma fonte próxima dos quartéis" sobre suposta tentativa de aproximação de Lula com militares: "buscar um diálogo com os 'Militares', como se fossem atores políticos autônomos, me parece um erro abissal."

(Foto: Marcos Correa/PR)
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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia

Enquanto Bolsonaro contabiliza quilometragem de moto país a fora, mililitros em perdigotos aspergidos sobre a população ou decibéis emitidos em palavrões, o Brasil ferve, se inquieta e continua a contabilizar os seus mortos. Incorporamos tanto a pandemia em nossas vidas que jornalistas já exibem gráficos sobre a Covid-19, com a naturalidade de quem mostra os índices e oscilações da bolsa de valores. Enquanto isto, setor a setor da sociedade se afastam dos arroubos do “presidente”, que diante do cenário cinza à sua frente, sopra as brasas da campanha pelo voto impresso, como se a decisão, - derrotada em 23 a 11 na Câmara dos deputados, nesta semana -, fosse mesmo decisiva para mudar a sua disposição de conflagrar o país. Não é. 

Bolsonaro insiste no assunto apenas porque não tem outro melhor para tratar. Nega-se a tomar a vacina (sabe-se lá se já não recebeu o imunizante). Prefere precaver-se contra a derrota, ou pelo menos consolidar para o seu público cativo (25%) uma desculpa que o permita sair do picadeiro para “entrar na história” sem ser alvo de muitos tomates e ovos podres. Para os demais 70% ele constará dela em uma nota de rodapé, onde ficará registrado: “o pior presidente da história do Brasil”.

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Até mesmo a ala militar, que já veio a público fazer coro com os seus arroubos, tratou de procurar o ministro do Supremo, Gilmar Mendes, para não ficar mal na fita. Enquanto isto, O ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, - salvo manobras jurídicas radicais -, sobe nas pesquisas, o que o leva a se mover na direção de setores que não o  engolem de modo algum, buscando diálogo e entendimento.

Consta que está a cargo do ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, neutralizar a intolerância militar a uma eventual chegada de Lula ao poder. Pra isto, segundo publicou o jornal Folha de São Paulo, ontem à noite (06/8), Jobim incluiu nos seus habituais jantares com os amigos Dias Toffoli, do STF, e o general Sergio Etchegoyen,  o também ex-ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo. Isto porque Azevedo, além de ser próximo a Toffoli, compreende bem os meandros e movimentações do governo Bolsonaro - e dos colegas que pertencem ou pertenceram ao Planalto -, e pode apontar “brechas” para uma eventual “deglutição” de Lula entre os militares.

Conforme externado à Folha, por alguns entrevistados reservadamente, a abordagem é prematura, precipitada. Ainda há pendências a serem resolvidas entre eles próprios – deixando transparecer que há racha nas fileiras, ou no mínimo indefinição – e, também, escoriações de outros tempos a serem cicatrizadas com relação ao ex-presidente, revelaram ao jornal: 

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“Isso não significa, ressaltam oficiais da reserva e da ativa, ouvidos, qualquer tipo de óbice caso o petista seja escolhido nas urnas em 2022. Oficiais da ativa têm tido o mesmo discurso, afirmando que prestarão continência a qualquer pessoa eleita, descartando ameaça a uma eventual posse de Lula”.

Ainda conforme o que ouviu a Folha, “a resistência a Lula, arrefecida nos anos do petista no poder (2003-10) devido ao grande investimento em reequipamento proporcionado pela pujança do ciclo de commodities, voltou a se elevar nos meios militares no governo Dilma”. Os militares alegam dois pontos inarredáveis para tal rancor: “a tentativa de tirar de comandantes a prerrogativa de escolha nas promoções e a forma com que Dilma conduziu a Comissão Nacional da Verdade”. Eles queriam a versão do tal do “outro lado”. 

Uma fonte próxima aos quartéis, avalia a questão do ponto de vista de Lula. Ou seja, da conveniência ou não desta “aproximação” neste momento. 

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“A busca de um acordo político para atual crise política-institucional brasileira é urgente. O diálogo com o Congresso Nacional, com os partidos políticos e os tribunais superiores está em curso. Deve-se rapidamente buscar a sociedade civil, em especial os sindicatos e as representações populares, vítimas do desemprego e do descalabro econômico, para ampliar a capilaridade de tal esforço”, reconhece. 

“No, entanto, buscar um diálogo com os "Militares", como se fossem atores políticos autônomos, me parece um erro abissal. E um vício  tremendo de outros tempos, de outra República, morta de morte assassinada por tal vício:  "militares" é/são uma categoria socioprofissional, como qualquer outra na República. Reconhecer neles um mandato, ou pior, uma "tutela", ou o "decaído Poder Moderador" , do Imperador, é parte, e fundamental, da ideologia/farsa militarista que subjugou as diversas Repúblicas aos próprios interesses militares ao longo da história Republicana brasileira”, opinou, a fonte, por e-mail.

E concluiu: “uma República democrática e livre não está subordinada aos vetos de nenhuma instituição ou autorizações de "grandes eleitores" autoqualificados  que impõe seu "nihil obstat" como se fossem a velha Inquisição. Na República quem decide, como disse o poeta "em ti quem mais ordena",  é o Povo, a vontade  popular. Sem peias, sem travas ou medo, seja de gritos ou sussurros de golpes ou sabres”.

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