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Fernando Nogueira da Costa

Professor Titular do IE-UNICAMP

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Teoria do Drone

Como drones transformam a guerra em prática unilateral, ampliando riscos éticos, jurídicos e geopolíticos ao banalizar o assassinato seletivo

Um edifício ao lado do quartel-general da 5ª Frota da Marinha dos Estados Unidos em Juffair, no Bahrein, foi danificado por um drone de ataque iraniano no fim de semana (Foto: Reuters)

O livro Teoria do Drone (2015), de Grégoire Chamayou, apresenta o drone não apenas como uma inovação tecnológica, mas como um objeto capaz de provocar um questionamento profundo nas categorias tradicionais da guerra, da ética e do direito. O drone, segundo o léxico militar, é qualquer veículo (terrestre, naval ou aéreo) controlado à distância ou de modo automático.

A ideia central é que qualquer arma pilotada tem a possibilidade de ser “dronizada” caso se remova a tripulação humana de bordo. Chamayou foca, especificamente, nos drones “caçadores-matadores”. Ele os descreve como “câmeras de vídeo voadoras, de alta resolução, armadas de mísseis”.

As bases de lançamento de drones são muito diversificadas, variando desde instalações militares formais até plataformas improvisadas e móveis, devido à natureza da guerra assimétrica e ao alto custo dos sistemas de defesa tradicionais. A maioria dos drones táticos e de médio alcance é lançada por catapultas ou caminhões. Isso permite rápida movimentação após o lançamento na tática “atire e corra”.

A fabricação de drones, inclusive de forma “caseira”, ocorre em lugares variados, até mesmo em apartamentos. Drones com foco em longo alcance são usados para atingir alvos profundos, exigindo bases de lançamento capazes de sobreviver à espionagem.

Historicamente, “projetar força militar” significava enviar tropas e aceitar o risco de perdas. O drone rompe essa equação ao remover o corpo vulnerável do combatente do local do conflito, deixando-o fora de alcance.

A violência torna-se unilateral. O drone opera uma mudança de paradigma: entre o gatilho e o alvo intercalam-se milhares de quilômetros, tornando impossível para quem usa essa arma “morrer ao matar”. Isso significa o fim da reciprocidade militar.

A guerra deixa de ser um combate, onde há risco mútuo. Ela se converte em uma “campanha de abate ou genocídio”. O inimigo é reduzido a um simples alvo passivo.

O drone se tornou o emblema de uma política antiterrorista, sob o ponto de vista americano, baseada no assassinato seletivo. O uso dessa tecnologia banalizou-se, sendo aplicada não apenas em zonas de guerra declarada (como o Afeganistão e o Irã), mas também em países oficialmente em paz (como Paquistão, Iêmen e Somália), onde ataques ocorrem rotineiramente.

Se o CV e o PCC forem decretados “grupos terroristas” pelo presidente dos Estados Unidos, talvez ele se dê o direito de lançar drones sobre as favelas cariocas ou as periferias paulistanas... Ele alvejará instituições financeiras, acusadas de “lavagem do dinheiro sujo” do crime organizado, na Faria Lima?!

Em vez de julgar a guerra pelos “fins perseguidos” (justificativas morais), deve-se examinar as consequências impostas pela natureza dos meios empregados, ou seja, a arma em si. O drone perturba noções elementares de lugar, bravura, ética e conflito jurídico. O livro de Chamayou fornece sugestões discursivas para quem deseja se opor à política de utilizar o drone como instrumento de violência legítima.

O conceito de “necroética” é um esforço discursivo de extremistas de direita, defensores da arma, para apresentá-la como a "mais ética" ou "humanitária" já inventada, tentando garantir sua aceitabilidade social. Essa "guerra sem risco" desafia os princípios do direito de matar na guerra e busca dar lugar a um direito de “assassinato seletivo”, operado pelo poder soberano do Império americano.

Na análise das “técnicas e táticas”, definidoras dessa tecnologia militar, o drone reconfigura a geografia, a lógica e a execução da violência armada. A tática fundamental do drone baseia-se no uso de máquinas “telequíricas”, isto é, tecnologia de manipulação à distância.

Essas máquinas permitem transferir a consciência do operador para um corpo mecânico invulnerável. Isso cria uma topografia específica, onde o espaço é dividido entre uma “zona segura”, onde está o operador, e uma “zona hostil”, o campo de batalha, permitindo projetar poder sem projetar a vulnerabilidade do lançador assassino.

A tática do drone, ao transformar “o olho” em uma arma de pretenso extermínio seletivo, rompe com o modelo de guerra convencional de duelo entre combatentes e adota o paradigma da caça ao alvo militarizada. O inimigo não é visto como parte de uma hierarquia militar, mas como um “nó” em uma rede social.

Ataques preventivos passaram a ser adotados pelo Imperador Donald. O objetivo é a eliminação profilática de indivíduos considerados perigosos antes mesmo de qualquer ameaça direta ocorrer.

O drone introduz o conceito de “olhar persistente”, operando 24 horas por dia sem as limitações de um piloto humano. Sistemas utilizam dezenas de câmeras para monitorar cidades inteiras simultaneamente.

O sistema grava e arquiva as atividades de diversas populações, permitindo a rastreabilidade retrospectiva, por exemplo, ao voltar no tempo para ver de onde veio um veículo suspeito. Cruza metadados de comunicações telefônicas via celulares com coordenadas GPS e imagens de vídeo em tempo real.

A tática de seleção de alvos baseia-se na “informação baseada na atividade”. Permite atacar indivíduos cuja identidade é desconhecida, mas cujo comportamento, conforme visto do céu, corresponde a uma “assinatura” de atividade militante inimiga pré-identificada. Algoritmos monitoram a rotina de uma população e sinalizam qualquer desvio de certa norma (irregularidades ou anomalias) como uma ameaça potencial.

O campo de batalha é fragmentado em kill boxes — cubos de morte representados em telas 3D. Quando uma kill box é ativada, as forças aéreas têm autorização para abrir fogo à vontade, sem coordenação direta com o comando central, tendo autonomia de massacre. A “zona de conflito” deixa de ser geográfica e passa a ser “alvo-centrada”, acompanhando e alvejando o corpo do inimigo onde ele esteja, em uma desterritorialização das soberanias nacionais.

O drone inverte o princípio da guerrilha: ele priva o inimigo de ter um adversário para combater. A tática foca na desmoralização psicológica, por meio do terror de uma morte inevitável, vinda de uma fonte inalcançável. Diferente da contrainsurgência clássica (“ganhar corações e mentes”), a estratégia do drone é a da erradicação infinita, eliminando periodicamente novos recrutas conforme eles surgem.

O livro Teoria do Drone (2015), de autoria de Grégoire Chamayou, também apresenta as falhas dessas técnicas. O atraso entre a imagem e a realidade (latência do sinal) permite que alvos se movam em zigue-zague para escapar. Sinais de vídeo e dados podem ser interceptados ou manipulados por meio de pirataria eletromagnética.

O spoofing de GPS é uma técnica maliciosa para manipular um receptor de Sistema de Posicionamento Global (GPS) e fazê-lo acreditar estar em uma localização falsa. Isso é feito ao sobrecarregar os sinais de satélite reais, geralmente fracos, com sinais de rádio falsos e mais potentes, transmitidos por um atacante próximo. O envio de sinais falsos engana o piloto automático e possibilita derrubar a aeronave.

Ao proteger totalmente seus soldados, o Estado americano transfere todo o risco da guerra para as populações civis de pretensos inimigos. A guerra de drones criou uma “era de drones baratos” diante da economia de guerra tradicional. Torna a defesa mais cara para encarar o ataque e maximiza danos financeiros em infraestruturas críticas.

A guerra com drones, devido à popularização dos modelos de “custo/benefício” ou "suicidas", transformou a economia de conflitos modernos, reduzindo custos de ataque, enquanto elevou drasticamente os custos de defesa e infraestrutura. Porém, essa tecnologia, caso seja dominada por “grupos terroristas” (sic), permitirá que atacantes com orçamentos limitados atinjam grandes potências.

À primeira vista, drones diminuem a necessidade de perdas humanas próprias, reduzindo o custo político e social da guerra para quem ataca. Porém, aumentam o impacto financeiro na economia mundial com a valorização do dólar e o aumento do custo do petróleo.

O aumento da tensão geopolítica e os gastos com defesa valorizam o dólar como reserva de valor em curto prazo. Mas os gastos com bases militares, Marinha e Força Aérea aumentam ainda mais e ampliam a dívida pública americana, levando à fuga dos treasuries (títulos de dívida pública dos EUA) no longo prazo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.