Todos de olho na Bolívia domingo, 20 de outubro

"O que Morales fez na Bolívia ao longo dos últimos treze anos ninguém tinha feito ao longo dos últimos cinco séculos. Mais que tirar da pobreza e da miséria milhões de bolivianos, deu a eles dignidade", escreve o jornalista Eric Nepomuceno

Governo de Evo Morales tem 56% de apoio
Governo de Evo Morales tem 56% de apoio

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia

Domingo agora, os mais de seis milhões de eleitores bolivianos vão às urnas. Serão eleitos 130 deputados e 36 senadores, além do presidente.

O índio aimará Evo Morales, nas vésperas de fazer 60 anos, quer ficar mais quatro na presidência que ocupa desde 2006.  

Quais as chances? Ora, se as pesquisas estiverem certas, muito altas. A média dos últimos resultados indicam que Morales conta com 43% dos votos, e seu mais direto competidor, o ex presidente Carlos Mesa, 32%. Pela legislação boliviana, ganha no primeiro turno quem tiver a metade mais um dos votos. Ou então 40% dos votos, desde que com uma diferença de dez pontos sobre o segundo.

Embora em nossas comarcas quase nada seja impossível, convém lembrar outros dados para reiterar o favoritismo de Evo Morales. Pesquisas recentes mostram sua imagem, passados treze anos na presidência, conta com a aprovação de 54% dos bolivianos. E que 72% têm avaliação positiva de seu governo. A maior parte dos analistas acha que Morales leva no primeiro turno. E que se não conseguir, terá um segundo turno apertado – mas ainda assim, leva.

Quando ele chegou à presidência pela primeira, a Venezuela tinha Hugo Chávez, o Brasil tinha Lula, na Argentina estava Nestor Kirchner, Tabaré Vázquez ainda não tinha saído tanto da proposta de esquerda no Uruguai. E foi naquele mesmo 2006 que Michelle Bachelet assumiu a presidência chilena.

O quadro hoje é bem outro. Nicolás Maduro está extremamente desgastado numa Venezuela sufocada, e tirando a extirpação de Mauricio Macri na Argentina, todo o resto vai da direita neoliberal do chileno Sebastián Piñera à tresloucada de Ivan Duque.  

O paralelo mais próximo é o distante e um tanto confuso México de Andrés Manoel Lopes Obrador, e não se sabe ao certo o que sairá das urnas uruguaias no mesmo domingo 27 em que Macri será catapultado, deixando para trás um país em ruinas.  

E isso tudo, claro, para não mencionar a aberração psicopata que atende pelo nome de Jair Bolsonaro.

Ganhando, Evo Morales e seu eterno vice Álvaro García Linera, enfrentarão dificuldades, causadas principalmente pelo déficit do comércio externo, que anualmente vem rondando a casa dos dois bilhões de dólares.  

A alta dependência das exportações de gás natural, principalmente para Brasil e Argentina, além de minérios, é um flanco frágil na economia boliviana. Os dois grandes importadores enfrentam dificuldades sérias em suas economias.  

A Bolívia, por sua vez, desde a chegada de Morales vive uma etapa sem precedentes. Nesses treze anos a Bolívia deixou a companhia de países como o Haiti e saiu do mapa das comarcas mais miseráveis desta nossa conturbada América Latina.

Aliás, aconteceu exatamente o contrário. O crescimento médio da economia do país se mantém ao redor de 4,9% anuais. Quando Morales assumiu, 38% dos bolivianos viviam na miséria. E na pobreza, 60%. Hoje, os que vivem na miséria são 15% dos bolivianos. E na pobreza, 34%.

Pela primeira vez na história boliviana os povos indígenas foram resgatados do abandono. E pela primeira vez tiveram não só reconhecidos, como fortalecidos, direitos básicos e essenciais, a começar pela dignidade que foi negada a eles ao longo do tempo.  

Enfim, o que Morales fez na Bolívia ao longo dos últimos treze anos ninguém tinha feito ao longo dos últimos cinco séculos. Mais que tirar da pobreza e da miséria milhões de bolivianos, deu a eles dignidade.  

Na economia, sobram exemplos, que vão do fato elementar de que todos os bolivianos (bem, 99% deles, segundo dados oficiais comprovados) mantêm suas poupanças em pesos, e não dólares como era tradição, até orientar créditos e investimentos tanto privados como públicos para atividades produtivas, com ênfase na construção de moradias populares. Também houve fortes investimentos em infraestrutura, e empresas estratégicas foram nacionalizadas (e com um detalhe insólito: seus antigos proprietários foram convidados a se tornarem sócios, a começar pela petroleira espanhola Repsol...), em suma, o avesso radical das receitas neoliberais que afundam países pelo mapa latino-americano com eficácia tremenda.  

Assim foram criados quase 700 mil postos de trabalho, as reservas em divisas subiram 45%, o consumo aumentou 125%, e os investimentos equivalem hoje a 30% do PIB, tudo isso com uma inflação rondando a marca de 1,5% na média anual.

E é justamente o resultado da economia o principal motor do eleitorado que vai às urnas no domingo dia 20. Aliás, como acontecerá também no domingo seguinte na Argentina.

A diferença é que uma dessas economias está forte, sólida e distribui benefícios aos abandonados de sempre. E que a outra está arruinada, e só distribui benefícios aos privilegiados de sempre.

Esse o nó da diferença entre Morales e Macri. Além da decência, claro.

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