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Esmael Morais

Jornalista e blogueiro paranaense, Esmael Morais é responsável pelo Blog do Esmael, um dos sites políticos mais acessados do seu estado

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Tombo de Trump nos EUA pressiona bolsonarismo no Brasil

Queda de aprovação de Donald Trump agrava desgaste global e cria passivo político para o bolsonarismo às vésperas da disputa de 2026

Donald Trump, Flávio e Eduardo Bolsonaro (Foto: Daniel Torok/Casa Branca I Agência Brasil I Reuters)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou neste sábado (28) numa zona de desgaste mais funda dentro de casa. No rastreador da The Economist, baseado em dados da YouGov, ele aparece com aprovação líquida de -18, com 38% de aprovação, 56% de desaprovação e 6% de indecisos, na atualização de 28 de março.

A erosão também aparece na pesquisa Reuters/Ipsos. O levantamento concluído na segunda-feira (23) mostrou Trump com 36% de aprovação, a pior marca desde a volta à Casa Branca. Só 25% aprovam sua condução do custo de vida, 29% endossam sua gestão da economia e 61% desaprovam os ataques ao Irã. O preço médio da gasolina nos Estados Unidos subiu cerca de US$ 1 por galão desde o início da guerra, e 63% dos entrevistados descrevem a economia como fraca.

Um mês depois da entrada dos EUA na guerra contra o Irã, a conta política ficou mais pesada. A Reuters resumiu o impasse de Trump assim: ou ele fecha um acordo imperfeito para sair do conflito, ou amplia a escalada e corre o risco de deixar a guerra consumir sua presidência e atrapalhar os republicanos nas eleições legislativas de novembro.

Esse tombo não interessa só à política americana. Ele conversa diretamente com o Brasil porque o trumpismo virou uma referência explícita do bolsonarismo. Após a vitória de Trump em 2024, a Blog do Esmael registrou que a extrema direita brasileira ganhou novo fôlego. Jair Bolsonaro agradeceu a Deus pelo resultado, e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse que a vitória do republicano reforçaria o movimento para recolocar Bolsonaro na Presidência em 2026.

A ligação ficou ainda mais visível no episódio do tarifaço contra produtos brasileiros. Em 9 de julho de 2025, Trump anunciou tarifa de 50% sobre importações do Brasil e vinculou a medida ao que chamou de “caça às bruxas” contra Bolsonaro. Dias depois, nós mesmos mostramos que Trump apresentou a sobretaxa como gesto de apoio ao ex-presidente brasileiro, mas aliados de Bolsonaro já temiam que a manobra produzisse dano político.

Dentro do bolsonarismo, a pressão americana não foi apenas tolerada. O então deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho zero três do ex-presidente, em agosto do ano passado, disse que não via caminho para reduzir a tarifa sem concessões do Supremo Tribunal Federal e tratou a sobretaxa como um custo aceitável da ofensiva em defesa do pai. Em paralelo, Lula chamou a operação de afronta à soberania nacional e acusou Bolsonaro de ter provocado a intervenção de Trump.

Na guerra contra o Irã, o contraste político também salta aos olhos. O governo brasileiro condenou oficialmente os ataques de Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro e reiterou que a negociação é o único caminho viável para a paz. No outro polo, a conferência conservadora CPAC fechou fileiras em torno da ofensiva de Trump, sem crítica aberta à operação, e a programação do evento incluiu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do clã ao Planalto.

É nesse ponto que a crise americana encosta na eleição brasileira de 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro. A partir dos fatos já postos, o campo de Lula ganha munição para colar no bolsonarismo duas imagens ruins ao mesmo tempo: a de uma direita que se alinhou ao tarifaço contra o Brasil e a de um bloco político associado a uma guerra que encarece petróleo, diesel, frete e inflação. Isso não decide voto sozinho, mas oferece um eixo de campanha forte, porque mistura soberania nacional com custo de vida, dois temas que batem direto no eleitor.

Trump desaba nos Estados Unidos, mas o estrago político não para na fronteira americana. Se a guerra seguir cara, o petróleo continuar pressionado e a memória do tarifaço permanecer viva, o bolsonarismo entrará em 2026 carregando no colo um aliado externo cada vez mais tóxico para vender ao eleitor brasileiro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.