Trabalhadoras, uni-vos!

"As controvérsias que têm se exponenciado no México refletem os riscos que existem em perpetuar a segmentação entre a luta feminista e a luta política", afirma a autora

Marcha no dia da mulher
Marcha no dia da mulher (Foto: getty images)
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A campanha de paralisação geral no México para o 9 de março, definida também como “Um dia sem mulheres” (Un día sin nosotras ou Un día sin mujeres), mostra que a politização das pautas feministas é, ao mesmo tempo que necessária, instrumentalizada de forma perversa pela mesma política da qual as mulheres deveriam ser protagonistas. 

Enquanto no Brasil a radicalização da direita nos últimos anos trouxe a identificação de quaisquer reivindicações pelos direitos das mulheres como uma luta meramente setorial, limitada ao espectro político da esquerda, no México, a parada geral de amanhã passou a ser vista por parte dos(as) partidários(as) do presidente da República Andrés Manoel López Obrador como uma oportunidade de a oposição manipular as massas contra o chefe de Estado. 

López Obrador, que marcou a ascensão, desde 1º de dezembro de 2018, da esquerda, depois de ganhar historicamente as eleições nacionais pela coalização Juntos Haremos Historia (agregando o Partido del Trabajo, o Partido Encuentro Social e o Movimiento Regeneración Nacional), vem sendo também notabilizado por uma trajetória presidencial que testemunha feminicídios brutais e omissão no enfrentamento da violência de gênero e na garantia dos direitos das mulheres. Em 2019, por exemplo, foram contabilizadas 1.006 vítimas de feminicídio e 976 casos consumados, o que significa que quase três mulheres morreram diariamente no país devido à violência de gênero.  Em meio aos números acintosos, diversos segmentos da sociedade civil se organizaram nos eventos de hoje e amanhã, marcando uma greve sem precedentes das mulheres mexicanas depois de diversos atos no país hoje pelo 8M. No entanto, diante da ascendente adesão de segmentos da direita, os quais veem no episódio uma oportunidade de enfraquecer a imagem do presidente e sua agenda, a paralisação vem ganhando contornos políticos que têm causado ressalvas por parte da comunidade mexicana, mesmo progressista, em manifestar aderência. Um exemplo foi a própria Beatriz Gutiérrez Müller, escritora e esposa de Obrador, a qual, em poucas horas, passou de dar suporte a rechaçar a movimentação nacional. Beatriz Müller, que se notabilizara por negar a posição de ‘primeira dama’ devido aos estereótipos de gênero que carregava, voltou atrás no seu apoio ao movimento, que acontece em meio às discussões sobre a abolição do crime de feminicídio, embora o México seja o país no qual mais de 50% deles ocorrem na América Latina. 

Além disso, López Obrador terminou voltando atrás na data de lançamento de sua iniciativa de venda de 'rifas' para o avião presidencial, que seria lançada no mesmo dia da paralisação. Há poucos dias, o presidente adiou para a terça-feira o início das operações, depois de críticas no sentido de que estaria ‘sabotando’ o ato feminista. A complexidade do movimento se reflete, por exemplo, no papel destacado das Católicas por el Derecho a Decidir (CDD), uma rede que tem representação em nove países da América Latina, inclusive no Brasil, que luta pelos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. O coletivo veio às mídias para exigir que a Conferencia del Episcopado Mexicano, o órgão que reúne as diversas congregações católicas no país, mostrasse uma postura congruente entre apoiar a paralisação e, no cotidiano, eliminar condutas que reforcem padrões de discriminação e subjugação, bem como encobertem a violência física e psicológica contra as mulheres. Vale lembrar que, durante o período eleitoral, López Obrador, que é evangélico, havia lançado como uma de suas intenções de campanha em 2018 convidar o Papa Francisco para mediar um processo de paz no México, em face da violência, inclusive sexual, e do narcotráfico – problemas  tratados, segundo a imprensa, de maneira ambígua e silenciosa pela Igreja no país. 

As controvérsias que têm se exponenciado no México refletem os riscos que existem em perpetuar a segmentação entre a luta feminista e a luta política. Enquanto setores mais conservadores e progressistas podem concordar em linhas gerais com o enfrentamento à violência de gênero, a constante busca por lugares comuns termina deixando de fora do debate questões estruturais relacionadas à própria perpetuação dessa violência, como poder e desigualdade econômica. 

Por isso, ao reivindicar uma parada de todas as mulheres no México, e independentemente de qualquer tentativa de cooptação retórica que esteja sendo feita setorialmente, as mexicanas põem em xeque a dimensão socioeconômica da presença feminina na sociedade, dentro ou fora de casa, e mostra que o debate vai muito além do direito à sua integridade física.    

O movimento mexicano nos lembra também que todas somos trabalhadoras, pois muito antes das discussões em torno da precarização das relações laborais e da uberização, as mulheres ‘do lar’ têm seu trabalho reprodutivo invisibilizado, e as empregadas domésticas, o status de escravidão institucionalizada, racista e classista. 

O trabalho doméstico não remunerado, prestado por mulheres acima de quinze anos, têm, ao menos, o valor de US$ 10,8 trilhões anualmente, já que mulheres e meninas dedicam 12,5 bilhões de horas, diariamente, no mundo, ao trabalho de cuidado sem retorno econômico. No Brasil, 85% do trabalho de cuidado é feito informalmente pelas famílias e, especificamente, por mulheres, as quais, quando detentoras de emprego no mercado de trabalho doméstico, ganham aproximadamente 78% do que os homens recebem nas mesmas funções. Como lembra a mestra e ativista Silvia Federici, nós, mulheres, ‘somos as fábricas de trabalhadores, da comida às roupas e o trabalho emocional’. Por isso, sim, somos todas trabalhadoras.   Nos próximos dias, o Brasil terá diversas manifestações, dando continuidade a algumas das iniciativas já tomadas na semana passada, como a campanha para financiamento coletivo para os protestos de hoje, em São Paulo, e no histórico Primeiro Encontro Nacional das Mulheres Sem Terra, o “Mulheres em Luta: Semeando a Resistência”, ambos iniciados no último dia cinco. 

As ações nas ruas estão majoritariamente concentradas hoje e amanhã, estendendo-se até o dia catorze, quando a memória de Marielle Franco será mais uma vez resgatada, contra aqueles(as) que insistem em um falso esquecimento, além do dia dezoito, que traz à tona a resistência contra o esfacelamento dos serviços públicos.

As participantes do evento do MST, que se juntarão hoje à marcha em Brasília em um ato unificado, evidenciam que as lutas feministas são transversais a muitas outras, como a camponesa, a fundiária, pela moradia, enfim, popular. Na agenda dos debates, que também vêm incluindo campesinas trans e travestis, temas como a legalização de grandes propriedades rurais violadoras de normas socioambientais (Medida Provisória 910, de 2019) e a inviabilização do Programa Nacional de Educação da Reforma Agrária (Pronera), que lastreava a educação no campo historicamente, pelo Decreto n. 10.242, de 2020, são centrais.  

Da mesma forma, a Central de Movimentos Populares como organização concatenadora de diversos coletivos, inclusive de mulheres, discute nas ruas e na articulação dos movimentos dos próximos dias a necessidade de lembrar que a luta feminista é também de cor e de classe.    

Vale lembrar que o “Fora Bolsonaro”, hoje e sempre, deve consistir substancialmente no “Fora Bolsonarismo” e tudo que ele representa: misoginia, racismo, homofobia, retrocessos nos mais diversos espectros dos direitos humanos e esmagamento da classe operária. 

Essa luta não se limita, infelizmente, ao presidente da República, pois ele é apenas o epicentro do autoritarismo branco, macho e heterossexual que se renova não somente na sua figura, mas em um projeto de sociedade e economia que muitos espectros da sociedade legitimam em diversos níveis, não somente no Brasil. Também não se esgota na mera discussão entre esquerda e direita, ou no partidarismo, pois, como o México nos lembra, os direitos das mulheres abrangem um espectro que, longe de consensual, muitas vezes é limitado por conjunturas políticas, ou postos em segundo plano enquanto os homens seguem nas suas disputas endógenas pela alternância do poder que sempre esteve entre eles.  

Por isso, nosso grito por democracia formal e substantiva, por justiça social e econômica, pela integridade dos nossos corpos e valores, é, sobretudo, um manifesto contra o status quo. É, portanto, um conjunto de reivindicações de mulheres como sujeitos no privado e no público, que não querem, e não vão, suportar que o processo de colonização de suas vidas, tempos e espaços, de silenciamento de suas vozes, tenha esse violento e perverso seguimento transgeracional e histórico. Trabalhadoras, uni-vos!

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