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César Fonseca

Repórter de política e economia, editor do site Independência Sul Americana

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Tragédia uruguaia

Falha de Muslera contra a Espanha amplia frustração uruguaia e encerra campanha marcada por divergências internas sob Bielsa

Tragédia uruguaia (Foto: Reuters)
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Muslera, em Guadalajara, no Mundial de 2026, encarna a decepção geral de toda a nação uruguaia ao engolir um frangaço, tal como Barbosa, em 1950, deixou passar a bola chutada por Ghiggia, que calou o Maracanã e fez o Brasil chorar.

Momento dramático que abalou os alicerces do time de Bielsa, diante de uma Espanha não muito brilhante.

O drama uruguaio, segundo os comentaristas desportivos, começou antes da partida.

Os jogadores queriam um time mais agressivo para encarar os espanhóis.

Pero, El Loco Bielsa tinha seu plano distinto.

Desejava sua equipe não tão agressiva, mas postada conservadoramente e cautelosa na defesa, na armação e na conclusão das jogadas.

Mas o germe da divergência corroía consciências.

Pressentiam todos — e esse é o fato decisivo — a mística do futebol, que, às vezes, é terrível: o Uruguai jamais venceu a Espanha em Copa do Mundo.

Rolaria, novamente, essa tragédia futebolística?

Sim, os deuses do futebol fizeram repetir esse misticismo que parecia entranhado na Celeste e que o time ainda não superou para arrancar da alma o temor uruguaio, dirigido por um bravo técnico argentino.

Os torcedores, nas arquibancadas, na América Latina, no Uruguai, no México, na Espanha, no Brasil, enfim, no mundo voltado suas atenções para a Copa, antes da trágica falha de Muslera, já sonhavam e se arrepiavam com a possibilidade de enfrentar a Argentina na próxima fase.

Os jornais em Buenos Aires cantavam essa antecipação.

Seria ou não espetacular, mais uma vez, o confronto de gigantes?

Os portenhos têm uma bronca: o Uruguai venceu a final de 1930 contra a Argentina e sacou o primeiro título mundial, algo jamais esquecido por eles, no gramado do Centenário, em Montevidéu.

Também os jornalistas brasileiros prenunciavam essa que poderia ser uma incrível partida.

Em 1950, o Uruguai vibraria sua alma pelos tempos afora, enquanto o Brasil derramava copiosas lágrimas diante da derrota comandada pelo bravo Obdúlio Varela, no Maracanaço, a vitória épica de 2 x 1.

Mas, nesta sexta-feira, em Guadalajara, onde, em 1970, o Brasil brilhou, vencendo a Itália por 4 x 1, os arcanjos da bola decretaram o fracasso uruguaio.

Casa dividida, poder rachado, derrota certa

Havia no ar um temor: uma divergência entre técnicos e jogadores, a propósito de como se comportarem, taticamente, em campo, que resultou em colapso espiritual de toda uma nação, a enxugar suas lágrimas na vibrante camisa celeste.

O maior adversário de um país não é o inimigo externo, mas o interno.

Com a casa dividida e cheia de rancores, enchendo o peito dos leões celestiais, em confronto com seu comandante, ainda no vestiário, o resultado, previamente, parece, estava decretado nos astros do espetáculo.

Nada dava certo para o time de Bielsa, embora o espírito combativo de Artigas, o herói libertador da nação uruguaia, se mostrasse presente, especialmente do meio do segundo tempo até o final dramático.

Muslera e Bielsa foram autênticos.

O goleiro, que vive na Argentina, reconheceu o erro e pediu desculpas ao povo uruguaio, frustrado em suas expectativas.

E o técnico derrotado, igualmente, chamou a si, com grande personalidade, a culpa pela tragédia, desabafando: “Minha herança ao futebol uruguaio é nada".

Triste adeus.

Cai uma brava equipe que sonhava com sete pontos — tinha tudo para conseguir — na fase eliminatória e ficou com apenas dois.

As páginas dos jornais uruguaios choram, tal como aconteceu no Brasil em 16 de julho de 1950.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.