Tragicômica ignorância

Com a aprovação em curso da reforma da Previdência Social, os recursos “economizados” são baseados no valor do trabalho dos contribuintes do sistema

(Foto: Alan Santos - PR)

Quando houve a descoberta do pré-sal, falava-se em um bilhete premiado para a população do país, em função dos investimentos previstos em saúde e educação dos rayalties do petróleo dali advindos. Podia ser excesso de otimismo, mas era um recurso baseado no capital. Agora, com a aprovação em curso da reforma da Previdência Social, os recursos “economizados” são baseados no valor do trabalho dos contribuintes do sistema. Ou seja, o desbalanço entre trabalho e capital se perpetua. Não há sacrifício do capital. O trabalho, que é remunerado de forma complementar e a posteriori, é mais uma vez desprezado na relação preconizada há séculos por Marx. Nesse suposto equilíbrio, que deveria ser dinâmico, pagam os pobres pela manutenção da riqueza que não é a deles.

Ao serem atenuados levemente os impactos sociais dessa reforma, a Bolsa de Valores caiu, mas o índice de empregabilidade não subiu. É, pois o mercado, representante do capital que não vive de aposentadoria, que aprova o andamento da reforma. Algo de muito distorcido está ocorrendo. Sintomático que o dinheiro liberado para as emendas dos deputados favoráveis se equivala aos valores contingenciados pelo MEC, retirados do orçamento das universidades públicas federais. Sapiência em xeque (ou em cheque?). Tabata Amaral vira símbolo da questão, pois, para ela, trair princípios e valores significa ousadia. O trabalhador está descobrindo o custo do sistema que cairá sobre si, pois tudo tem um preço e Tabata Amaral deve saber o dela.

A Constituição Cidadã de 1988 preconizava um sistema parlamentarista que, no último momento, não foi aprovado e deixado para plebiscito popular que o refutou. Resultou uma Lei Magna dependente do governo de coalizão, que funcionou razoavelmente bem até alguns anos atrás. Não podemos nos basear em modelos que possam funcionar lá fora – como o federalismo norte-americano ou a monarquia constitucional inglesa – que aqui não possuem a experiência da vivência. A Constituição, bem ou mal, trouxe o povo para dentro do estado democrático de direito e parece que isso está sendo sistemática e sintomaticamente destruído.

Em artigo recente, Contardo Calligaris afirmou que “a reação moralista é uma resposta à modernização dos costumes”, traçando um levantamento histórico para desenhar o quadro atual do Brasil, baseado em Foucault. Entendo que essa reação está fortemente associada aos milicianos, aos homens de ‘bens’ e à ‘teologia da prosperidade’. Ela é tão forte que conseguiu plasmar o pobre de direita, o negro fascista e o homossexual machista.

Até uma matéria sobre diminuição de imposto sobre refrigerantes possui o traço da ignorância oficialmente instalada, pois a posição esdrúxula deveria ser refutada com argumentos que começam assim “vários estudos demonstram que...”. É a negação do conteúdo dessa frase (estudos) que simboliza um governo ignorante formado por ignorantes para os quais educação, conhecimento e pesquisa científica são gastos desnecessários. Não há qualquer lógica nessas medidas, além de também esconderem interesses escusos.

A Flip deste ano foi palco de manifestações fascistas e a desvalorização do pensamento foi analisada em artigos balizados, sendo o de Renato Janine Ribeiro na Folha de S. Paulo (16/7) um deles. Infelizmente, é mais fácil descrever os acontecimentos a posteriori. Já passamos pela retirada à força de Dilma Rousseff do poder, a ascensão de um governo devastador dos direitos constitucionais de Michel Temer e, agora, o ápice da destruição do pouco de civilidade duramente edificada na redemocratização. A história se repete como tragédia e comédia.

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