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Roberto Santana Santos

Professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU-UERJ). Doutor em Políticas Públicas e Mestre em História Política

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Trump ataca Venezuela, mas mira o Brasil

A ofensiva dos EUA contra a Venezuela expõe uma estratégia imperialista que ameaça a soberania regional e projeta riscos diretos ao Brasil em ano eleitoral

Donald Trump e Nicolás Maduro (Foto: Manaure Quintero/Reuters I Piroschka Van De Wouw/Reuters)

O ataque norte-americano contra a Venezuela na madrugada do dia 03 de janeiro, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro, inaugura o intervencionismo direto de Donald Trump e ameaça todos os países da América Latina e do Caribe, inclusive o Brasil.

Trump representa uma fração – hoje majoritária – da burguesia estadunidense que compreendeu ser impossível manter a unipolaridade das últimas décadas e frear novas potências mundiais e regionais, principalmente a China. Dentro dessa perspectiva, tentam terminar com conflitos que não os interessam (como na Ucrânia) e delimitar suas zonas de influência, principalmente na América Latina. Lançam mão, para isso, de ações de imperialismo clássico, com tomada de territórios e golpes de Estado. O que começou apenas com palavras, com as ameaças de “tomar” a Groenlândia e o Canal do Panamá, ganha concretude no ataque covarde à Venezuela.

O falso pretexto já está posto: “combater o narcotráfico”, acusando oportunamente todos os políticos da região que não se ajoelham perante Washington de apoiadores do crime organizado. Nem mais a velha cantilena de “combater ditadores e levar liberdade” a outros países vem sendo utilizada.

Trata-se de um ataque coordenado, irradiado pela Casa Branca e imediatamente reverberado pela extrema direita de cada país latino-americano. No Brasil, a ofensiva realizada ao final de 2025 pela equiparação das facções criminosas ao nível de grupos terroristas – “narcoterroristas” – é o Cavalo de Troia para preparar cenário semelhante em nosso país. O mesmo movimento é feito em todos os países latino-americanos por suas respectivas versões locais do fascismo colonial. Trump realiza as mesmas acusações contra outros líderes progressistas, como Gustavo Petro, na Colômbia, e Claudia Sheinbaum, no México.

Claramente, o objetivo imediato da agressão estadunidense é se apossar do petróleo e demais riquezas minerais venezuelanas. Sem esses recursos, a economia norte-americana simplesmente não funciona. Há, no entanto, o objetivo geopolítico geral, que é disciplinar toda a América Latina a este “novo-velho” modus operandi de Washington. O recado é claro: a carta da invasão militar e do controle de territórios está novamente na mesa e será usada contra todos aqueles que não se submeterem aos ditames de Trump, incluindo a possibilidade de sequestro de mandatários para serem “julgados” como “narcotraficantes”. Para quem acompanha as redes da extrema direita, seja no Brasil ou em qualquer outro país latino-americano, percebe que essa é exatamente a posição emanada por seus porta-vozes.

A captura de Maduro não acaba com o governo venezuelano de uma única vez. O que os EUA buscam é rachar as Forças Armadas venezuelanas e provocar um golpe de Estado em Caracas com apoio interno armado. No cenário mais grave, essa situação provocaria uma guerra civil na Venezuela, com participação direta de militares americanos, visto que boa parte da população venezuelana está armada e organizada a partir da estratégia militar de “guerra de todo o povo”, como no Vietnã, onde todo cidadão se torna um combatente.

Qualquer escalada do conflito teria consequências catastróficas para o Brasil. A fronteira entre os dois países é amazônica, de difícil monitoramento e segurança. Nosso território poderia ser invadido e utilizado por ambos os lados do conflito. Uma guerra civil de grandes proporções na Venezuela provocaria um êxodo migratório de pessoas desesperadas fugindo do conflito, o que pressionaria nossos sistemas de saúde e assistência social, reforçando grupos criminosos. E o mais importante: vitaminaria a extrema direita brasileira em ano eleitoral, que atacaria Lula como “aliado do narcotráfico” e dispararia a xenofobia e o racismo contra os imigrantes venezuelanos, fortalecendo uma candidatura presidencial do seu campo e atiçando golpistas, civis e militares.

Os próximos dias serão decisivos. Washington pode voltar a bombardear Caracas nos próximos dias, buscando um racha entre os militares venezuelanos e, com isso, legitimar um golpe de Estado. O ponto decisivo é a capacidade de resistência do povo venezuelano, que já se encontra ocupando as ruas e demandando a defesa do país e o retorno do presidente Maduro. Ao contrário do que a grande imprensa divulga, o chavismo é uma força política organizada desde as bases e com grande capacidade de mobilização, e não uma ditadura de um homem só. Trump sabe disso e, por isso, tenta desestabilizar para quebrar a unidade.

Lula se posicionou bem ao qualificar como “inaceitável” o ataque norte-americano. No entanto, é necessário mais. O direito internacional ruiu. Em Gaza, na Ucrânia, na Venezuela. A diplomacia brasileira nos últimos anos agiu como se fosse possível ser amiga de todos, colocando-se em uma posição de “mediador universal”. Se a prudência é sempre bem-vinda, a ingenuidade não tem espaço na política. Vivemos tempos de fascismo, tempos de decisões bruscas. As regras de ontem não existem mais. O Itamaraty precisa se posicionar firmemente pela cessação das agressões militares contra a Venezuela e pelo retorno do presidente Nicolás Maduro à Venezuela. Qualquer coisa diferente disso mostrará fraqueza perante Washington e, com isso, a certeza de que podem avançar contra o Brasil. Trump ataca Caracas, mas mira as urnas de outubro no Brasil.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.