Trump, bolsonarismo e sua troca de favores
Nem os Estados Unidos virão combater o PCC, nem o bolsonarismo tampouco o fará. Afinal, o bolsonarismo pode ser tudo, menos autofágico
Há mais de duas semanas que a pauta das conversas entre a maioria dos brasileiros não tem sido do agrado dos próceres do bolsonarismo. É que, agora, a consciência de que o bolsonarismo constitui o núcleo da grande bandidagem no Brasil não está restrita aos que estão medianamente informados sobre os bastidores da política em nosso país.
Portanto, nos dias de hoje, é difícil encontrar alguém que não saiba que é a cúpula do bolsonarismo quem comanda o mais vasto esquema de bandidagem financeira de que se tem conhecimento, ao longo de mais de dois séculos de nossa existência como nação autônoma.
Então, já está bastante bem delineado na mente de quase todo mundo por aqui o papel desempenhado pelo Banco Master e sua gigantesca máquina de ladroagem de recursos da população brasileira para o favorecimento pessoal dos dirigentes bolsonaristas e seus aliados mais achegados, assim como das instituições que estão a seu serviço.
Por isso, já é de domínio público que os principais dirigentes do banco bandido e seus apoiadores diretos estão indissoluvelmente ligados ao bolsonarismo. Para nos assegurarmos disto, basta prestar um pouquinho de atenção nos nomes dos articuladores mais importantes dessa central financeira do crime. Aí, vamos nos deparar com notórios expoentes do bolsonarismo explicitamente político e os comandantes das empresas-igrejas praticantes do neopentecostalismo bolsonarista.
Convém recordar que a magnitude das atividades e dos tentáculos desse arcabouço da criminalidade financeira foram revelados com o trabalho realizado pela Polícia Federal durante a denominada Operação Carbono Oculto, quando pela primeira vez, o crime organizado do alto escalão foi confrontado. Foi quando as provas encontradas indicavam os fortes vínculos entre a extrema direita política e as estruturas operacionais do grande crime organizado.
Com o intuito de encontrar uma saída para sua desesperadora situação em vista do panorama acima traçado, o delfim e pretendente a herdeiro do cabedal político do clã bolsonarista se mandou para Washington. Afinal, em momentos de grandes apuros, nada mais conveniente e apropriado que procurar apoio daquele que sempre foi o mentor, tutor e orientador de sua linha de pensamento e conduta, ou seja, nada melhor do que correr para pedir socorro a Donald Trump e seus auxiliares.
La na capital do Estados Unidos, por mediação de Donald Trump e seus assessores, talvez pudesse estar a solução para, pelo menos, fazer que o centro das conversas no Brasil deixassem de girar em torno da imensa roubalheira do Banco Master, que salpicava diretamente nas principais figuras do bolsonarismo.
No entanto, embora o alaranjado chefe do império gringo nada tenha de franciscano, ele sempre sabe aplicar às inversas a máxima de São Francisco. E, assim, adotou seu lema tradicional: “É recebendo que se dá”. Em vista disto, para ofuscar o tema do surrupio de centenas de bilhões de reais dos fundos de aposentados pelo dispositivo de fraude financeira montado pelo bolsonarismo e sua substituição por outro que não expusesse tanto o verdadeiro caráter do bolsonarismo, foi cobrado e exigido a aprovação explícita da cúpula bolsonarista à inclusão oficial do PCC e outras quadrilhas de bandidos no catálogo de organizações terroristas. Com isto, em terras tupiniquins, a pauta das conversas passaria a ser outra. Que alívio para o bolsonarismo!
Mas, por que uma tal categorização seria importante e necessária para os Estados Unidos? A gente sabe que, sempre que é de seu interesse, eles não dão a mínima para nenhuma lei, invadem e massacram pessoas e povos em quaisquer outros países.
Em meu entender, a administração trumpista precisa da oficialização do PCC e outros grupos como entidades terroristas por uma questão fundamentalmente interna dos Estados Unidos. Ali, a legislação em vigor impede a seu presidente desfechar atos de guerra contra outros países sem a aprovação prévia do Congresso. No entanto, isto não se aplica no caso de referir-se ao combate de organizações consideradas terroristas. Então, ao contar com a anuência aberta de uma força política do próprio país onde as organizações criminosas estão sediadas, ficou muito mais fácil para Trump ter sua lei aprovada.
Caberia perguntar: por que os Estados Unidos e o bolsonarismo desejam tanto combater o PCC e essas outras organizações criminosas, se, como ficou demonstrado, elas vinham sendo financiadas pelo próprio Banco Master bolsonarista?
Na verdade, nem os Estados Unidos, nem muito menos os bolsonaristas, têm o mínimo interesse em combater o PCC ou qualquer outro grupo criminoso. O que eles precisam é contar com um dispositivo que possa servir como uma ameaça e advertência constante sobre quem quer que seja que esteja no comando político do Brasil. É esta a razão que lhes torna importante a formalização da qualificação do PCC como uma organização terrorista.
Nem os Estados Unidos virão combater o PCC, nem o bolsonarismo tampouco o fará. Afinal, o bolsonarismo pode ser tudo, menos autofágico. Assim, Trump e os bolsonaristas fizeram tão simplesmente uma troca de favores. Para o primeiro, fica realçado seu potencial de intervenção e subjugação dos governantes do Brasil; para os segundos, resta a esperança de que o tema da roubalheira do Banco Master desapareça de nosso papo do dia a dia.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

