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Bruno Fabricio Alcebino da Silva

Bacharel em Ciências e Humanidades e graduando em Ciências Econômicas e Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC. Pesquisador do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB)

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Trump como método: a política da tensão permanente

Ao transformar crises em rotina e ameaças em narrativa central, o presidente dos Estados Unidos consolida a tensão permanente como técnica de poder

Trump como método: a política da tensão permanente (Foto: Reprodução)

Há algo de profundamente calculado e perigoso no fato de Donald Trump estar, literalmente, todos os dias nas capas dos jornais e noticiários pelo mundo. Não se trata apenas de visibilidade. Trata-se de método. A presença constante não é um efeito colateral do seu estilo político: é o próprio instrumento de poder.Trump governa pela saturação.

A lógica é simples: manter o ambiente público em estado contínuo de alerta, de conflito e de urgência. Quando tudo parece excepcional, quando cada dia traz uma nova crise, uma nova ameaça ou um novo gesto “disruptivo”, o debate público deixa de ser deliberativo e passa a ser reativo. A política deixa de ser reflexão e se torna sobrevivência. E é nesse terreno que lideranças autoritárias prosperam.

Essa saturação não opera apenas no plano institucional ou diplomático. Ela atua diretamente na formação da opinião pública, que não deve ser entendida como a soma espontânea das opiniões individuais, mas como um processo socialmente construído de percepção da realidade política. A opinião pública se forma a partir da repetição de temas, da dramatização de conflitos e da definição do que é percebido como urgente.

Quem controla o ritmo da crise molda o horizonte do debate.

Recentemente, a derrota de Trump na Suprema Corte em relação ao chamado “tarifaço” representou um raro momento de contenção institucional do Poder Executivo. A decisão reafirmou limites ao unilateralismo econômico do governo. Em condições normais, esse episódio abriria espaço para um debate sobre legalidade, protecionismo e equilíbrio entre poderes.

Mas a normalidade não é o terreno em que o trumpismo opera.

Na sequência do revés judicial, a escalada militar contra alvos iranianos, conduzida pelos Estados Unidos em coordenação com Israel no último dia 28, rapidamente reorientou o foco do debate público. O deslocamento do foco, do limite institucional ao conflito externo, não é acidental. Trata-se de uma lógica clássica: quando o poder é contido internamente, projeta-se força externamente.

Mas os desdobramentos recentes indicam que não se trata apenas de projeção de força.

A ofensiva conjunta atingiu não apenas instalações estratégicas, mas também o núcleo da liderança política iraniana, incluindo o aiatolá Ali Khamenei, cuja morte foi confirmada posteriormente. A operação assumiu caráter de ataque de decapitação, voltado à desorganização do comando estatal e à reconfiguração do equilíbrio regional de poder. Em resposta, o Irã iniciou ataques retaliatórios contra bases e aliados dos Estados Unidos no Golfo, ampliando o risco de regionalização do conflito e sinalizando que a dinâmica já ultrapassa o plano simbólico da dissuasão.

A política externa, embora possua dinâmica própria, frequentemente opera como extensão da disputa doméstica. A identificação de um inimigo externo, como o Irã nesse episódio, reverbera no plano interno ao produzir coesão e legitimar narrativas de proteção nacional. A mensagem implícita é clara: estamos combatendo ameaças externas para garantir segurança ao povo americano.

Essa lógica ganha ainda mais relevância no atual contexto pré-eleitoral nos Estados Unidos. Embora Trump não esteja diretamente na cédula, as eleições legislativas de meio de mandato (midterms) definirão se seu partido manterá a maioria no Congresso, condição essencial para a continuidade de sua agenda e para evitar investigações e bloqueios institucionais.

A mobilização de conflitos externos não é apenas resposta estratégica internacional, mas parte de uma disputa interna por legitimidade e apoio. A construção de ameaças externas reorganiza o debate doméstico e reposiciona a liderança como agente de proteção em um ambiente de incerteza.

Essa estratégia se articula com um elemento central da política contemporânea da extrema direita: a mobilização permanente da ameaça. Recentemente, na Conferência de Segurança de Munique, o secretário de Estado Marco Rubio advertiu que a migração em massa estaria “desestabilizando a civilização ocidental” e ameaçando a soberania nacional. Ao criticar a ideia de um “mundo sem fronteiras”, apresentou a migração não como fenômeno social complexo, mas como risco civilizacional.

O enquadramento é revelador.

Não se trata de uma política migratória, mas de uma narrativa de defesa cultural. A migração deixa de ser tema administrativo e se transforma em ameaça existencial. Esse tipo de construção retórica desloca conflitos sociais para o terreno identitário, produzindo coesão interna pela definição de um “outro” externo.

Trump reforçou essa lógica em discurso recente no Congresso. Ao estruturar sua fala em torno da proteção nacional frente à imigração e da necessidade de priorizar cidadãos americanos, o pronunciamento operou menos como prestação de contas e mais como ritual de demarcação política. A política torna-se performativa.

Nesse ponto, Trump não está isolado, mas inserido em uma tendência global da extrema direita contemporânea, da qual Milei é expressão regional. Em diferentes contextos, o padrão se repete: construção de crises permanentes, personalização do conflito e identificação de inimigos internos ou externos.

Historicamente, essa técnica não é nova.

A propaganda nazista operava por saturação simbólica. A repetição incessante de ameaças — o “perigo judeu”, o “bolchevismo internacional”, a decadência cultural — criava um ambiente de mobilização contínua. A política era apresentada como luta existencial. Não havia normalidade possível, apenas conflito.

De modo semelhante, durante o auge do anticomunismo no pós-guerra, a dramatização da ameaça soviética foi usada para justificar medidas internas extraordinárias. O macartismo operou pela produção de um clima de suspeição permanente: o inimigo poderia estar em qualquer lugar — na universidade, na imprensa, no governo. A tensão era o mecanismo de coesão. O que diferencia o presente é a velocidade.

A extrema direita contemporânea opera em um ecossistema midiático que permite a substituição contínua de crises. A derrota na Suprema Corte poderia gerar debate sobre limites institucionais. Em vez disso, foi rapidamente eclipsada por uma escalada militar. O discurso sobre tarifas poderia expor fragilidades econômicas. Em seu lugar, surge o discurso sobre civilização e fronteiras.

É nesse ponto que a análise pode ser aprofundada à luz do que o filósofo francês Jacques Rancière (2005) denomina partilha do sensível: “o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas”.

A política não opera apenas no plano das decisões, mas na própria definição do que pode ser visto, dito e reconhecido como legítimo. A política da tensão permanente atua precisamente nesse nível.

Ao saturar o debate público com ameaças, crises e inimigos — sejam eles migrantes, potências estrangeiras ou instituições internas —, lideranças como Trump intervêm na própria estrutura da percepção coletiva. A repetição contínua de determinados temas reorganiza o campo do visível: quem pertence ao “nós”, quem aparece como ameaça, quem merece proteção e quem pode ser descartado.

Discursos que enquadram a migração como risco civilizacional não apenas defendem políticas específicas; eles redesenham a partilha do sensível. Reconfiguram quem é percebido como parte do comum e quem é deslocado para fora dele.

Nesse processo, a opinião pública não apenas reage aos acontecimentos. Ela passa a ser moldada por uma reorganização perceptiva que redefine pertencimentos e legitimidades.

A sucessão de choques, derrotas institucionais, escaladas militares e discursos de civilização produz dessensibilização. O extraordinário torna-se rotina. Quando tudo é ameaça, toda resposta excepcional parece legítima. É assim que a instabilidade se converte em capital político.

Ao monopolizar a atenção, Trump define a agenda. E, ao defini-la, limita o campo do imaginável. O debate não gira mais em torno da legalidade de suas ações, mas da urgência de responder às crises que ele próprio ajuda a produzir.

No limite, o trumpismo não é apenas um conjunto de políticas. É uma técnica de governo baseada na tensão permanente, um padrão que ressoa historicamente em outras experiências de mobilização autoritária e que hoje encontra eco na extrema direita global.

Democracias dependem de momentos de normalidade. A política da crise contínua trabalha precisamente para eliminá-los.

Referências

CNN BRASIL. Duração de 1h47: leia na íntegra o discurso de Trump do Estado da União. 24 fev. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/duracao-de-1h47-leia-na-integra-o-discurso-de-trump-do-estado-da-uniao/. Acesso em: 1 mar. 2026.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005.

RUBIO, Marco. Discurso na Conferência de Segurança de Munique. Munique, Alemanha, 14 fev. 2026. Disponível em: https://www.state.gov/releases/office-of-the-spokesperson/2026/02/secretary-of-state-marco-rubio-at-the-munich-security-conference?. Acesso em: 1 mar. 2026.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.