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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Trump e Artemis II

Entre a grandeza histórica e a mediocridade política

Cápsula da tripulação da Artemis 2 desce no Oceano Pacífico nesta captura de tela de vídeo de transmissão (Foto: NASA/Divulgação via Reuters)

A chegada do homem à Lua em 1969 foi um dos momentos mais extraordinários da história. Não apenas pela proeza tecnológica, mas pelo que ela simbolizou: a capacidade de uma sociedade de mobilizar ciência, planejamento, recursos e imaginação coletiva para ultrapassar limites que pareciam intransponíveis. Foi um salto civilizatório — um instante em que o poder foi colocado a serviço do conhecimento, da curiosidade e da expansão do horizonte humano.

Hoje, décadas depois, esse impulso retorna com força renovada. O programa Artemis — e, de forma particularmente emblemática, o retorno bem-sucedido dos astronautas da missão Artemis II — projeta a presença humana de forma mais duradoura no espaço e representa muito mais do que uma missão científica. Ele sintetiza avanços tecnológicos de ponta — em propulsão, inteligência artificial, materiais e engenharia de sistemas — e aponta para um novo ciclo de inovação com impactos que transcendem o setor espacial. Trata-se de um esforço que envolve cooperação internacional, articulação entre Estado e setor privado e uma visão de longo prazo sobre o lugar da humanidade no cosmos.

É, em essência, um momento que deveria mobilizar orgulho, reflexão e sentido histórico. Um momento de grandeza para a humanidade.

Há, no entanto, um aspecto ainda mais revelador nesse contraste. Os Estados Unidos, que já foram capazes de transformar a chegada do homem à Lua em um marco civilizatório global, mostram hoje, com Donald Trump, uma impressionante incapacidade de reconhecer e capitalizar um feito dessa natureza. Em outro momento histórico, um avanço como o representado pelo programa Artemis II seria celebrado como símbolo de liderança, de projeção de futuro, de grandeza nacional. Hoje, porém, ele é eclipsado.

Absorvido por uma obsessão por guerras, particularmente pela escalada militar contra o Irã, o presidente dos Estados Unidos revela não apenas uma escolha política, mas uma limitação mais profunda: a incapacidade de compreender a dimensão histórica do próprio tempo.

Enquanto a ciência avança e projeta o futuro, a política se apequena, reduzida à mediocridade do confronto imediato.

Mas é justamente nesse contraste que se revela algo profundamente inquietante: enquanto a ciência aponta para o futuro e reafirma a capacidade humana de construir projetos complexos e duradouros, a política externa dos Estados Unidos parece cada vez mais aprisionada no improviso, na instabilidade, na ignorância e na ausência de direção.

Sob a liderança de Trump, a política externa americana se consolida por meio de um padrão que já não pode ser tratado como episódico. Trata-se de uma oscilação contínua, em que declarações se sucedem não para construir uma linha de ação, mas para substituí-la antes mesmo que se estabilize.

Na quarta-feira, 2 de abril de 2026, em um pronunciamento televisionado à nação a partir da Casa Branca, Trump apresentou ao público americano — e, inevitavelmente, ao mundo — uma versão triunfalista da guerra contra o Irã.

O discurso ocorreu em um momento cuidadosamente escolhido: poucos dias após uma operação arriscada que resultou no resgate de um militar americano em território iraniano, conduzida com apoio da Central Intelligence Agency (CIA). O cenário era, portanto, propício à construção de uma narrativa de força. E foi exatamente isso que se viu.

Diante das câmeras, Trump declarou, na prática, a derrota do Irã. Afirmou que sua Marinha havia sido destruída, que sua Força Aérea estava neutralizada, que seus sistemas de defesa estavam “aniquilados”. A mensagem era clara: os Estados Unidos haviam imposto sua superioridade de forma incontestável.

Mas o que aconteceu nos dias posteriores não foi a consolidação dessa narrativa alucinada — foi a sua dissolução.

Nos dias que se seguiram ao pronunciamento de 2 de abril, esse padrão não apenas se manteve — ele se intensificou. Entre 4 e 6 de abril, o presidente Donald Trump voltou a alternar, em entrevistas e postagens públicas, entre menções vagas à possibilidade de negociação e ameaças explícitas de novos bombardeios, incluindo ataques a infraestruturas civis e energéticas, caso suas exigências não fossem atendidas. Prazos foram anunciados, modificados ou simplesmente abandonados.

A retórica oscilou entre o anúncio de uma vitória já consumada e a promessa de uma escalada iminente. Não houve, portanto, continuidade ou consolidação da posição apresentada no discurso inicial — apenas a sua substituição sucessiva por novas versões, igualmente questionáveis.

Pouco depois do discurso, surgiram relatos de resistência iraniana e de novos confrontos. A guerra, que havia sido apresentada como próxima do fim, voltou a ser descrita como um processo em aberto. Novas ameaças de bombardeios foram feitas. Prazos foram anunciados e, em seguida, alterados. A própria ideia de negociação foi evocada ao mesmo tempo em que se prometia a escalada.

É nesse movimento que se revela o padrão.

O discurso do dia 2 de abril não pode ser compreendido apenas como uma peça de comunicação voltada ao público interno americano. Tampouco se limita a uma tentativa de demonstração de força no cenário internacional. Ele opera em uma zona ambígua — fala simultaneamente para a audiência doméstica, para aliados e para adversários, sem se fixar plenamente em nenhum desses planos.

Essa ambiguidade não é um detalhe. Ela é constitutiva da forma como o poder vem sendo exercido por Trump.

Ao mesmo tempo em que busca reforçar a imagem de liderança diante do eleitorado americano, o discurso projeta ameaças ao exterior sem oferecer qualquer previsibilidade sobre sua execução. O resultado é um tipo de comunicação que não estabiliza expectativas — pelo contrário, fragmenta-as.

É tentador interpretar essas idas e vindas como simples inconsistência. Mas essa leitura subestima o fenômeno.

O que se observa é a transformação da oscilação em método.

Ao declarar a derrota de um adversário e, dias depois, admitir a continuidade da guerra, não se trata apenas de erro de avaliação. Trata-se de um uso deliberado da linguagem como instrumento de desorientação. Cada afirmação deixa de construir uma linha de ação e passa a funcionar como um evento isolado, desconectado do anterior.

Nesse contexto, a palavra perde sua função tradicional na política internacional. Ela deixa de sinalizar intenções, de orientar comportamentos, de permitir cálculo. Passa a produzir ruído. E esse ruído não é periférico — torna-se o próprio ambiente em que decisões são tomadas.

O episódio do resgate do militar americano é emblemático. Um fato, com alto valor simbólico, é rapidamente incorporado a uma narrativa de vitória total. Mas essa narrativa não se sustenta nem mesmo no curto prazo. Ela se dissolve à medida que novos eventos contradizem suas premissas.

O resultado é uma política externa que não acumula sentido ao longo do tempo. Ela se reconfigura continuamente, sem coerência, sem continuidade e sem compromisso com o que foi dito anteriormente.

E é exatamente isso que a torna perigosa.

Não apenas pela possibilidade de escalada militar, mas porque elimina um dos elementos mais básicos da convivência internacional: a capacidade de interpretar a palavra do outro como referência minimamente confiável.

Quando isso desaparece, não é apenas a diplomacia que se fragiliza.

É a própria possibilidade de coordenação entre países que entra em colapso.

O mundo passa, assim, a operar não apenas sob o risco da guerra, mas sob algo mais instável: a impossibilidade de antecipar o comportamento da principal potência global. E, nesse cenário, a questão deixa de ser estratégica.

Ela se torna quase elementar: o que, afinal, ainda pode ser levado a sério vindo do presidente da maior potência militar do mundo?

Não por acaso, começam a surgir leituras — ainda que cautelosas — de que Trump atravessa um processo de desgaste que vai além da política cotidiana. Não se trata apenas de perda de popularidade ou de críticas circunstanciais. Trata-se de algo mais profundo: a percepção crescente de que sua liderança se apequena diante da escala histórica dos desafios que enfrenta.

E talvez seja justamente aqui que o contraste inicial retorna com toda a sua força.

No momento em que a humanidade demonstra ser capaz de organizar conhecimento, tecnologia e cooperação internacional para expandir sua presença no espaço — como evidencia o sucesso da Artemis II —, a principal potência do sistema internacional revela dificuldades crescentes em sustentar algo muito mais básico: coerência, previsibilidade e sentido na condução de suas ações.

A história dificilmente será indulgente com esse descompasso.

Porque, entre ampliar os horizontes da humanidade e reduzi-los à lógica imediata do conflito, não há ambiguidade possível.

Há escolha.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.