Trump e “o declínio do império americano”
Os EUA dão sinais claros de decadência, o que os torna mais perigosos do que nunca
O filme “O Declínio do Império Americano”, de 1986, do diretor canadense Denys Arcand, nunca foi tão atual. Nele oito amigos se encontram para um jantar e conversam, entre outras coisas, sobre teorias que explicavam o mundo que no final da década de 1980 começavam a ser contestadas. Ao mesmo tempo, falam sobre as escolhas políticas e culturais que a geração ainda nascida nos anos 1950 fez nesse período; há um monólogo no final do filme bastante importante.
Há um célebre monólogo final no qual a personagem Dominique reflete sobre o fato de que os grandes impérios não caem apenas por invasões externas, mas sim por uma exaustão interna, onde a busca pelo prazer pessoal e a indiferença superam os ideais coletivos. Eis parte dele: “Quando penso na história, vejo um vasto cemitério... Grandes impérios, civilizações refinadas... todos desaparecem. E nós? Nós estamos apenas desfrutando dos últimos dias de um império. Estamos preocupados com nossas pequenas vidas, nossos prazeres, nossos confortos, enquanto o mundo ao nosso redor está em chamas ou prestes a desmoronar. A história não se importa com a nossa felicidade individual.".
O fato é que em 1986, há quarenta anos, a percepção do declínio do grande império estadunidense foi pautada pelo diretor canadense e existe um padrão histórico que se repete com precisão, mostrando como impérios colapsam ao longo dos séculos.
Os EUA removeram o ditador-presidente da Venezuela, ao arrepio do Direito Internacional e agora declaram guerra ao Irã em busca de controle do petróleo e com objetivo de atrapalhar a “nova rota da seda”, além de constranger os BRICS, argumento que vou defender noutro artigo.
Tal “padrão histórico” do colapso dos impérios possui estágios identificáveis e mensuráveis que aparecem em uma sequência, mais ou menos previsível. Exemplos históricos incluem a Espanha do século XVII, o Império Britânico do século XX e a União Soviética; o próximo império a ruir são os Estados Unidos, pois, a superpotência atual que domina o mundo desde a II Guerra, está a caminho do colapso.
Impérios começam seu declínio no auge de seu poder aparente, expandindo comprometimentos militares além da sustentabilidade econômica, foi assim com a Espanha do século XVII, que mantinha exércitos em Flandres e frotas no Mediterrâneo, gastando mais do que a prata das colônias podia financiar, resultando em déficit operacional permanente; a Grã-Bretanha, cuja vasta extensão do império exigia uma marinha gigante e guarnições globais, com custos insustentáveis, evidentemente as duas guerras mundiais aceleraram o processo; a União Soviética: Gastava 15-20% do PIB em despesas militares, levando à estagnação econômica.
Os Estados Unidos possuem 800 bases militares em mais de 70 países, com um orçamento de defesa de mais de quase 1 trilhão de dólares anuais. O custo total real de todos os comprometimentos militares americanos é de 1,5 trilhão anualmente, cerca de 6% do PIB, superando o crescimento econômico real, um colapso inevitável.
Some-se ao custo militar a depreciação do dólar.
Nos Estados Unidos a dívida nacional é de 35 trilhões de dólares, ou 120% do PIB e "crescendo"; o déficit anual é de 1,8 trilhão, e apenas os juros sobre a dívida excedem 1 trilhão de dólares anualmente. A dívida cresce mais rápido que o PIB, tornando-se insustentável.
Enquanto o governo estadunidense desperdiça recursos em gastos improdutivos, a economia real encolhe e a base industrial atrofia, foi assim com outros impérios.
O colapso do império americano parece haver vários desses fatores: a indústria, que era 27% do PIB em 1960, hoje é 11%; cidades industriais como Detroit e Cleveland colapsaram; os EUA dependem da China para eletrônicos, medicamentos e componentes críticos, uma dependência estratégica perigosa.
Com a economia real encolhendo e bons empregos desaparecendo, a coesão social desmorona.
Há um elemento que precisamos observar: o dólar vem perdendo o status de “Moeda de Reserva”. O mundo está mudando, a China e a Rússia estão comerciando em moedas locais; os BRICS estão criando mecanismos de pagamento alternativos, e a Arábia Saudita aceita Yuan por petróleo. A participação do dólar nas reservas globais caiu de 70% para 58%, indicando uma erosão constante no citado status. Quando o status de reserva se vai, a capacidade de financiar déficits desaparece, a espiral da dívida torna-se insustentável, e a inflação explode.
Quando ocorrerá o colapso do império americano? O tempo é incerto, pode ocorrer em 5 ou 20 anos, mas a direção é clara, pois, não há país excepcional, não há povo escolhido, não há império eterno; Roma, mongóis, Espanha, Grã-Bretanha e URSS, além dos Otomanos caíram seguindo o mesmo padrão e os EUA dão sinais claros de decadência, o que os torna mais perigosos do que nunca, afinal, eles têm a tal bomba-atômica e, como sabemos, a história não se importa com a nossa felicidade individual.
Essas são as reflexões que compartilho com o leitor do 247.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
