Trump mente: onde está a razão do desastre norte-americano?
A resistência passa pela possibilidade material e simbólica das forças de esquerda se apresentarem na cena pública nos EUA e na Venezuela
O monstro não se reconhece diante do espelho. O quadro geopolítico das guerras em curso mostram que a política se define pelos movimentos de acumulação de poder, nas diversas formas que afetam o controle das populações e dos territórios, de meios de produção e de diferentes capitais e recursos matérias e imateriais. A força abstrata, a força militar e o poder ideológico movimentam os fantasmas e as fantasias. A crueldade e o medo são o modo de administração da necropolitica mundial no momento da desglobalização, com a desordem do deslocamento de forças que acelera a passagem ao ato de força, que se espalha com a crise ambiental, os processos de limpeza étnica, as sindemias e a competição financeira e tecnológica.
A quebra dos monopólios de que falou Samir Amim não gera multilateralismo mas acentua a crise de hegemonia no sistema mundo. Mas como ler na conjuntura algum sinal de uma solução que emerge m desde as ruínas do direito e das instituições internacionais num momento de guerra híbrida, absoluta e difusa? A lição brasileira é evidente: se o bolsonarismo se retroalimentou dos processos de crise de representação, de formação de regimes de exceção e da vida nua, a resistência brasileira encontrou forças para um plataforma em defesa da vida que veio avançando na direção do comum. Um.contágio positivo e necessário mas que precisa se mundializar como vimos a partir de Gaza.
A questão de como resistir a Trump não terá uma resposta desde as estatalidades da Rússia ou da China. A resistência passa pela possibilidade material e simbólica das forças de esquerda se apresentarem na cena pública nos EUA e na Venezuela, atravessando e superando, com uma plataforma de radicalidade democrática, as opções desgastadas das formas tradicionais de política de conciliação. Superando nos EUA ou na Venezuela os limites das forças que se dizem progressistas repetindo formas minimalistaa de gestão do social. O mesmo vem valendo para nós, um jogo repetitivo em que a possibilidade de deslocar o centro e barrar a direita trouxe perda da nitidez.
Precisamos cada vez mais da esquerda radicalmente democratica, cujo horizonte está em saber ligar o velho das instituições de direito com o novo das subjetividades coletivas, de um devir que tem sua força nas subjetividades coletivas corporificadas emergiram na confluência das lutas via reflexivodade/interseccionalidade, gerando as bases para um novo bloco histórico.
Devemos entender o significado do "ninguém larga a mão de ninguém" na horizontalidade dos coletivos que venceram em Nova York e que nos permitem derrotar o golpismo. A mentira trumpista que liga pela noção de narco-terrorismo o que ocorre no plano interno e no externo, na nova guerra norte-americana tem de ser o foco. Trump mente ao colocar a Venezuela como a razão dos problemas da vida norte-america. O mal radical está na lógica do capital, este sim conecta tudo que existe de mais nefasto na intensidade do sofrimento humano.
A máquina de guerra que tudo devora não é uma máquina de salvação. Assim como no Vietnã, no Iraque ou na Síria não existe um "super homem", a kriptonita não é Venezuelana mais do que norte-americana ela é a lógica do capitalismo que se esgotou. A única pluralidade que pode gerar multilaterslismo é a que pode nascer da luta das populações e grupos subalternos. A democracia é processo que constrói a emancipação e depende da insurgência dos povos cansados da razão cinica e da crueldade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
