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Ronaldo Lima Lins

Escritor e professor emérito da Faculdade de Letras da UFRJ

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Trump, o extraterrestre

As decepções recentes, para além de um gosto amargo de desprestígio, oferecem prenúncios de contrapartidas desafiantes

Donald Trump (Foto: Molly Riley/Casa Branca)

No primeiro mandato, ele enganou direitinho. Não parecia tão excêntrico, bizarro, fora do comum, com seus cabelos de Fanta laranja e suas decisões abruptas, inesperadas, desproporcionais. É verdade que arrumou uma confusão na hora de deixar a Casa Branca, premido pela derrota eleitoral. Habituara-se ao conforto, às reverências... E pensou que contaria com apoio das massas afrontando a legislação. Quase se ferrou por causa disso. Mas, nas eleições seguintes, ressurgiu com a corda toda, à vontade, seguro de si, como se dominasse o planeta.

 Um dedo mínimo levantado (para não falar no do meio), bastava para dobrar os renitentes, intra ou fora muros. Quem diria que se isolaria? Chegava com a ideia de ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Infelizmente, deram para outro, uma injustiça. Bem arrumado em seus costumes de Presidente da República, não notavam as diferenças entre cidadãos comuns e ele, com a pinta de bilionário para ninguém botar defeito. Amava as entrevistas dentro de aeronaves, com jornalistas pululando de inquietação, enquanto se sentia como se viajasse entre galáxias. A assessoria extremista, cuidadosamente nomeada e testada, cumpria com o papel de orientá-lo nos dilemas cabeludos. Tudo bom e maravilhoso até o diabo da guerra contra o Irã. Não avisaram que deveria enfrentar um povo danado de inteligente, dotado de cultura milenar e inigualável persistência. Tirava armas do fundo da terra, de onde menos se esperava. 

Os israelenses também se equivocaram, crendo num passeio à beira mar. O resultado foi uma contenta acima do imaginado, com drones e mísseis atingindo bases americanas e aliados em toda parte, sem poupar Tel Aviv. A Europa, quem diria? – recolheu-se, como se aquilo não lhe dissesse respeito, embora instada a comparecer. E Donald Trump, o extraordinário, diferente, agora, arrancava os cabelos para se livrar das dificuldades. É demais para um extraterrestre. Dá vontade de fugir e retornar para a sua galáxia! Como tudo na vida traz consequências, o fechamento do Estreito de Ormuz enlouqueceu o preço dos barris de combustível. A inflação bate às portas, com as sequelas de sempre e o aumento da impopularidade... Trata-se de uma situação que não dá para contornar com os tarifaços, a mágica que lhe agradara usar com gregos e troianos.

 Para agravar os problemas, a crise afeta favoravelmente a Rússia, importante exportadora de petróleo, a qual, entre as grandes potências, além da China, cabe enfrentar, apoiando discretamente o Irã. Tudo isso e mais alguma coisa basta para pintar um quadro de desespero e, quiçá, de derrota, apesar da ainda pequena oposição interna, inclusive entre os democratas. As decepções recentes, para além de um gosto amargo de desprestígio, oferecem prenúncios de contrapartidas desafiantes. Vizinhos pequenos (como Cuba) ou grandes (como a União Europeia) já não se acautelam. E a América vai caindo no buraco.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.