Trump pode boicotar Mercosul-União Europeia por temer China na América Latina
Nesse cenário de avanço imperialista, o imperador americano vai deixar rolar, impunemente, o Acordo Mercosul-União Europeia
O imperialismo americano, que ganhou fôlego ao invadir Venezuela, prender Nicolás Maduro, roubar petróleo venezuelano vendido em yuan à China e determinar que os bolivarianos rompam com chineses, russos e cubanos, não ficará, certamente, de braços cruzados diante do Acordo Mercosul-União Europeia, fechado, nesta sexta-feira, depois da decisão da primeira ministra da Itália, Meloni, dar voto decisivo para concretização da negociação, deixando para trás a França de Macron; são mais de 700 milhões de consumidores que estão por trás desse acordo que levou mais de 20 anos para ser concretizado, e que ainda depende dos eurodeputados, numa decisão final, embora não determinante para rompê-lo.
Os europeus, avançados, tecnologicamente, venderão produtos manufaturados para o Mercosul em troca de produtos primários, o que representa, como a realidade histórica já demonstrou, largamente, deterioração nos termos de troca; os países industrializados, que trabalham com matérias primas baratas do terceiro e quarto mundo, desde sempre, manufaturam-nas, a um custo barato, determinado pela conquista científica e tecnológica – que eleva a oferta em relação à demanda – e as vende caro, determinando perdas cambiais que se transformam em déficits em contas no balanço de pagamentos dos países pobres; estes, como a história comprova, acumulam dívidas externas, para cobrir seus déficits, subordinando-se às ordens internacionais dos mais ricos etc; a deterioração nos termos de troca é a forma de os ricos inviabilizarem a desindustrialização da periferia capitalista, eternizando, por sua vez, a dependência econômica periférica frente ao capitalismo cêntrico.
EUROPA NÃO TEM MAIS AQUELA FORÇA
Essa prática se disseminou por séculos pelo capitalismo europeu, porém, agora, a Europa não tem mais a força imperialista; quem determina os acontecimentos, imperialmente, são os Estados Unidos; por essa razão, o presidente Trump, que acaba de dar demonstração de força, invadindo a Venezuela, evidenciando a força militar comandada pela cibernética, indo além, em termos científicos e tecnológicos, relativamente, aos demais países desenvolvidos, tratará o Acordo Mercosul-União Europeu, tão somente, do ponto de vista dos interesses dos Estados Unidos, conforme a novíssima ordem imperialista americana; eis porque, muito provavelmente, as vantagens que os europeus pretendem usufruir com o Acordo Mercosul-União Europeia, o imperador vai querer para ele, ou seja, para os Estados Unidos e não para a Europa.
MEDO DA COMPETIÇÃO CHINESA
Ademais, na cabeça imperialista trumpista, o temor maior não são sequer os europeus, mas a China, dado que os chineses, por disporem de maior produtividade e competitividade que a Europa, com certeza, terão mais capacidade de atrair, com os produtos fabricados na China, os 700 milhões de consumidores que estão na base do Acordo Mercosul-Europa; a China, nesse sentido, seria uma representação prática desse acordo, com a Europa, certamente, aliando aos chineses, para negociar, indiretamente, com a América Latina, como terceiro mercado.
Por ter se descolado do neoliberalismo, na crise monetária de 2008, que abalou capitalismo americano, da qual este ainda não recuperou, a China opera muito mais vantajosamente; isso ocorre graças à estratégia econômica chinesa de ter os bancos públicos estatais como cabeça de ponte para dinamizar crédito interno e internacional; a política monetária chinesa, atuando ao largo do dólar, emite yuan e, dessa forma, emprestando ao mundo a juros baixos – até abaixo de zero – vai comendo pelas beiradas todos os concorrentes; a deflação é a nova arma chinesa, já que o capitalismo americano precisa da inflação para fazer guerra via dívida pública, no ambiente da financeirização, para reproduzir o capital de forma ampliada, o que a economia real deixou de fazê-lo.
Nesse contexto, os produtos chineses terão, evidentemente, maior aceitação, graças à qualidade e, principalmente, competitividade, com preços bem baixos, o que, aliás, já vem acontecendo, aceleradamente, nos últimos quase 20 anos, após a crise neoliberal de 2008, da qual Pequim se livrou.
DOUTRINA DONROE, ARMA CONTRA CHINA
Foi por essa razão que Trump entrou com os quatro pés na América Latina, com a nova versão da Doutrina Monroe, denominando-a de Doutrina Donroe, para forçar o afastamento dos países americanos da China e, também, da Rússia, para que não realizem, com ambos, acordos militares e comercial; Rússia e China se juntaram, depois de 2022, com invasão russa na Ucrânia, e mudaram a geografia econômica global, iniciando desdolarização.
Agora, no sufoco, o que Trump, evidentemente, deseja é disseminar o “Modelo Miley”, isto é acordos bilaterais, para que os governos da América Latina vendam suas mercadorias primárias para os Estados Unidos e comprem produtos industrializados dos Estados Unidos; Trump quer, portanto, puxar o tapete dos europeus, minando o Acordo Mercosul-União Europeia, substituindo por Acordo EUA-América Latina; essa, aliás, é a imposição que acaba de ser feita por Trump à Venezuela – sem se saber ainda se haverá ou não resistência do governo venezuelano: vender petróleo para os Estados Unidos e com a receita em dólar comprar produtos americanos, na base da relação neocolonial.
Os europeus, portanto, que se cuidem, depois que a ideologia trumpista escanteou a Europa, preferindo relacionar-se com a Rússia de Putin, dando como certa a vitória russa contra a Ucrânia frente a fracassada Otan, da qual Trump está se escapulindo; não é à toa que o imperador laranja decretou a Europa continente em decadência, obrigando-a a aumentar gastos fiscais em guerra para livrar o tesouro americano e maiores ônus com os europeus.
Como, então, nesse cenário de avanço imperialista, o imperador americano vai deixar rolar, impunemente, o Acordo Mercosul-União Europeia que beneficiaria a industrialização na Europa, sendo que a prioridade trumpista é a reindustrialização americana?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

