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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Trump pode fazer com Lula o que fez com Maduro?

Ao pedir ajuda a Washington contra o próprio país, Flávio, Eduardo Bolsonaro e a extrema-direita querem importar para o Brasil a lógica da Guerra ao Terror

Lula e Donald Trump - 23 de setembro de 2025 (Foto: Reuters)
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A pergunta parece exagerada. Mas talvez seja exatamente por isso que mereça ser levada a sério. O portal Canada Diário Notícias lançou uma indagação que passou a circular depois da viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos: Trump pode fazer com Lula o que fez com Nicolás Maduro? 

A resposta imediata é não. O Brasil não é a Venezuela. Tem outra dimensão econômica, outro peso diplomático, instituições mais robustas e uma inserção internacional muito diferente. Mas a pergunta não surgiu do nada. 

Ela nasceu de uma sequência concreta de fatos. Flávio Bolsonaro foi a Washington pedir que os Estados Unidos classificassem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Pouco depois, o governo Trump anunciou exatamente essa medida. Em seguida vieram as reações indignadas do governo Lula, que acusou integrantes da família Bolsonaro de atuarem contra a soberania nacional. 

O problema não está apenas na classificação das facções. Está na doutrina que acompanha essa designação. 

A América Latina volta à mira 

A pergunta levantada não deve ser lida apenas a partir da Venezuela. O que se desenha é mais amplo. 

A Venezuela foi o laboratório mais dramático. Cuba voltou a aparecer no radar estratégico americano. E agora o Brasil entra na mesma moldura discursiva, com PCC e Comando Vermelho classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas. Não se trata de dizer que os três casos são iguais. Não são. 

Mas todos passam a ser enquadrados por um mesmo vocabulário político: drogas, crime organizado, terrorismo, segurança nacional dos Estados Unidos e legitimidade para agir além das próprias fronteiras. 

É essa a gramática da nova Doutrina Trump para a América Latina. E é exatamente essa gramática que Flávio e Eduardo Bolsonaro querem importar para o Brasil. A pergunta, portanto, é maior do que parecia inicialmente. Não é apenas se Trump pode fazer com Lula o que fez com Maduro. É se a América Latina está entrando novamente em um ciclo no qual Washington decide quais governos devem ser pressionados, isolados ou enquadrados em nome da sua própria segurança nacional. 

O precedente Maduro 

A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos não foi apresentada como guerra convencional contra a Venezuela. Foi enquadrada dentro da lógica do combate ao narcoterrorismo. 

Primeiro constrói-se a narrativa: crime organizado, narcotráfico, ameaça transnacional, risco à segurança dos Estados Unidos. Depois, o alvo deixa de ser apenas uma organização criminosa e passa a ser um governo acusado de tolerar, proteger ou participar dessas atividades. 

Foi assim que maduro deixou de ser tratado apenas como adversário político de Washington e passou a ser enquadrado como peça de uma estrutura de narcoterrorismo. É por isso que a pergunta do Canada Diário não pode ser descartada com ironia. 

A questão não é imaginar tanques americanos cruzando a Amazônia. A questão é entender por que setores da extrema direita brasileira passaram a utilizar exatamente a mesma linguagem política empregada por Washington em outros países. 

A frase esquecida da Baía de Guanabara 

A atual controvérsia começou muito antes da viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos. Em 23 de outubro de 2025, o senador respondeu a uma publicação de Pete Hegseth, secretário do Departamento de Guerra americano, que comemorava uma operação militar contra embarcações suspeitas de narcotráfico. 

Naquele momento, os Estados Unidos ampliavam ações de combate ao tráfico em áreas próximas à Venezuela. Flávio Bolsonaro reagiu com uma frase que hoje ganha novo significado: 

“Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como esse aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Vocês não gostariam de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?” 

Na época, a declaração provocou críticas por sugerir a atuação de forças estrangeiras em território brasileiro. Depois, Flávio alegou ter sido mal interpretado. Vista hoje, porém, a publicação ganha outro peso. 

A palavra-chave já estava presente: terrorismo. Sete meses antes da atual crise. Sete meses antes da decisão anunciada por Trump. Sete meses antes da ida de Flávio a Washington. O que parecia um comentário isolado transformou-se em linha política: primeiro veio a inveja das operações militares americanas; depois, a viagem a Washington; por fim, a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. 

Eduardo Bolsonaro e a senha Bin Laden 

Se Flávio abriu a porta, Eduardo mostrou o que havia atrás dela. Ao comemorar a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, Eduardo Bolsonaro afirmou que as facções brasileiras poderiam ser combatidas “como Bin Laden era”. A frase é reveladora. 

Osama bin Laden não foi preso por uma operação policial convencional. Foi localizado e morto por forças especiais americanas em território paquistanês, numa ação realizada fora das fronteiras dos Estados Unidos sem autorização, sequer conhecimento do governo paquistanês. 

Ao invocar esse precedente, Eduardo não está falando apenas de cooperação policial ou combate ao tráfico. Está evocando a doutrina central da Guerra ao Terror: a ideia de que Washington pode agir além de suas fronteiras quando classifica alguém como ameaça terrorista. 

É justamente por isso que a referência a Bin Laden é tão importante. Ela mostra que o debate já não está restrito à segurança pública. Passa a envolver a legitimidade de ações extraterritoriais conduzidas pelos Estados Unidos. 

Durante sua participação na CPAC Texas 2026 (Conservative Political Action Conference), realizada entre 25 e 28 de março de 2026, Eduardo Bolsonaro mencionou porta-aviões dos EUA entrando pelo Lago Paranoá, em Brasília.  

Eduardo, o filho Zero Três de Jair fez referência — em tom hipotético — à chegada de porta-aviões norte‑americanos ao Lago Paranoá como parte de um discurso sobre intervenção externa e resistência política no Brasil. Essa fala foi citada pela imprensa e levou o ministro Alexandre de Moraes a cobrar explicações da defesa de Jair Bolsonaro sobre o vídeo gravado no evento. 

A farsa humanitária da Guerra ao Terror 

Há outro aspecto raramente lembrado. Sempre que os Estados Unidos justificaram intervenções externas em nome do combate ao terrorismo, os resultados para as populações locais estiveram longe das promessas feitas no início. 

Afeganistão, Iraque e Síria são exemplos eloquentes. 

No Afeganistão, duas décadas de ocupação terminaram com a volta do Talibã ao poder. No Iraque, a invasão baseada em argumentos que depois se revelaram falsos abriu caminho para destruição institucional, violência prolongada e instabilidade regional. Na Síria, anos de guerra e intervenção externa deixaram um país devastado. A promessa era derrotar o terror. O resultado, muitas vezes, foi a multiplicação do sofrimento. 

É essa história que torna tão grave a atitude de Flávio e Eduardo Bolsonaro. Nenhum país que valoriza sua soberania entrega a uma potência estrangeira o direito de definir seus inimigos internos, seus métodos de combate ao crime e os limites de sua própria segurança nacional. 

A pergunta, portanto, não é se Donald Trump, Marco Rubio ou Pete Hegseth têm boa vontade para com o Brasil. A história mostra que impérios não operam movidos por altruísmo. A pergunta é porque políticos brasileiros fingem acreditar nisso. 

O risco não começa com tanques 

Muitos imaginam que uma ameaça à soberania começa apenas quando soldados atravessam fronteiras. Na realidade, ela começa antes. Com sanções. Bloqueios financeiros. Pressões diplomáticas. Restrições bancárias. Monitoramento de empresas. Constrangimentos econômicos. 

Quando os Estados Unidos classificam organizações como terroristas, ativam uma poderosa estrutura jurídica, financeira e política capaz de produzir efeitos muito além do campo militar. É esse o receio manifestado pelo governo brasileiro. 

Não porque alguém esteja defendendo PCC ou Comando Vermelho. Mas porque o combate ao crime não pode ser transformado em justificativa para mecanismos externos de pressão sobre o país. 

Lula reage aos “traidores da Pátria” 

A resposta de Lula foi muito além de uma crítica diplomática. O presidente tratou o episódio como questão de soberania nacional. Ao comentar a articulação de Flávio Bolsonaro junto ao governo Trump, Lula acusou integrantes da família Bolsonaro de agir contra o Brasil. 

A reação não ficou restrita ao discurso presidencial. O governo brasileiro reafirmou que a soberania nacional é inegociável e classificou como deplorável a tentativa de buscar apoio estrangeiro para pressionar o próprio país. 

Ao mesmo tempo, deixou claro que o Brasil não rejeita a cooperação internacional no combate ao crime organizado. O que rejeita é a substituição da cooperação pela tutela. Foi nesse contexto que Lula endureceu o tom. Chamou de “traidores da Pátria” aqueles que recorrem a uma potência estrangeira para pressionar o próprio país. E procurou inverter a narrativa bolsonarista. 

O problema não é combater PCC e Comando Vermelho. O problema é transformar esse combate em justificativa para ampliar a influência política, econômica e estratégica de Washington sobre o Brasil. É nesse ponto que a controvérsia deixa de ser apenas policial. Passa a ser uma disputa sobre quem tem o direito de definir os limites da soberania brasileira. 

O recado de João Santana 

Há ainda um alerta vindo de quem conhece a linguagem das campanhas eleitorais. João Santana, marqueteiro das campanhas de Lula e Dilma, sugeriu que o governo traduza melhor o debate para a população. Em vez de falar apenas em “perda de soberania” — expressão correta, mas abstrata —, seria preciso explicar o risco em imagens mais diretas: porta-aviões, ingerência estrangeira, intervenção militar. O ponto é relevante. 

“Soberania” pode parecer uma palavra distante. Mas a ideia de uma potência estrangeira decidir sobre o Brasil, seus portos, sua polícia, seus bancos, suas Forças Armadas e sua política interna é concreta. É disso que se trata. 

Quando Flávio Bolsonaro pede ajuda a Trump e Eduardo Bolsonaro evoca Bin Laden, não estão apenas fazendo bravata. Estão propondo transformar um problema brasileiro em pretexto para que Washington se sinta autorizado a agir sobre e contra o Brasil. O recado dos Bolsonaro é claro. Flávio diz: “venham bombardear os barcos na Baía de Guanabara”. E Eduardo complementa: “Façam como fizeram com Bin Laden”. E, pior ainda, “esperamos o porta aviões no Lago Paranoá,” nas margens do qual está o Palácio do Alvorada, residência oficial do Presidente da República. 

O fantasma de 1964 

Existe ainda um componente histórico impossível de ignorar. O Brasil conhece a tradição intervencionista dos Estados Unidos na América Latina. O golpe de 1964 contou com apoio político e logístico de Washington. 

Antes e depois do Brasil, diferentes governos latino-americanos foram transformados em alvos sempre que contrariaram interesses estratégicos americanos: a Guatemala de Jacobo Árbenz, derrubada em 1954; Cuba, submetida a mais de seis décadas de bloqueio; o Chile de Salvador Allende, destruído pelo golpe de 1973; a Nicarágua sandinista dos anos 1980; a Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. 

Mudam os países, mudam os contextos, mudam os argumentos. Mas a lógica permanece semelhante: governos considerados excessivamente independentes passam a ser tratados como ameaças à segurança hemisférica. 

É essa memória histórica que reaparece quando políticos brasileiros buscam apoio externo para enfraquecer adversários internos. O problema não é apenas Trump. É a disposição de setores da política brasileira de recorrer a uma potência estrangeira para interferir nos rumos do próprio país. 

O Brasil não é protetorado 

Trump provavelmente não fará com Lula exatamente o que fez com Maduro. Mas talvez essa já não seja a pergunta principal. A verdadeira pergunta é outra. 

Por que políticos brasileiros passaram a defender conceitos, categorias e precedentes jurídicos criados para justificar ações extraterritoriais dos Estados Unidos? Por que um senador brasileiro, pré-candidato a presidente da República, manifestou inveja de operações militares americanas em países vizinhos? 

Por que um deputado federal -- também filho de Jair Bolsonaro como o senador, fugiu para os Estados Unidos para conspirar contra seu país -- escolheu Bin Laden como referência para celebrar uma medida anunciada por Washington? 

Essas perguntas são mais importantes do que qualquer exercício de futurologia. Porque revelam algo que já aconteceu. Antes mesmo de qualquer decisão de Trump, setores da extrema direita brasileira passaram a normalizar a ideia de que os Estados Unidos podem arbitrar questões internas do Brasil. 

A pergunta já não é apenas se Trump poderia agir contra Lula. A pergunta é por que políticos brasileiros trabalham para criar as condições políticas que tornariam essa hipótese discutível. É por isso que a advertência de Lula sobre os “traidores da Pátria” encontrou eco muito além do governo. 

Ela toca num tema que atravessa toda a história brasileira: a defesa da soberania nacional diante daqueles que preferem buscar apoio fora do país para vencer disputas dentro dele. Porque, no final das contas, a questão central não é o que Trump pode fazer. 

A questão é o que alguns brasileiros estão dispostos a pedir que Trump faça.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.