Trump recua frente à teocracia do Irã
Após prometer derrubar os aiatolás, Trump aceita cessar-fogo sem atingir metas e expõe limites do poder dos EUA no Oriente Médio
Rugindo como um leão, exibindo os dentes e vermelho como quem projeta o ódio, Trump declarou guerra ao Irã e vaticinou o seu objetivo como um Poder Supremo edita uma sentença transitada em julgado:
- Acabar com o regime dos Aiatolás. Aliado a Netanyahu, começou matando o chefe da teocracia e boa parte da cúpula militar e política do país inimigo. Depois da operação “Midnight Hammer”, que objetivava destruir toda a estrutura militar iraniana, instou as forças policiais e a Guarda Revolucionária a deporem suas armas em troca da imunidade, alertando-os que em caso de resistência, pagariam com a morte generalizada. Gravou um vídeo de 8 minutos exortando o povo Iraniano a assumir o poder, nas suas palavras: “quando terminarmos, assumam o controle do seu governo, ele será de vocês(…)”.
- Fim do enriquecimento de urânio e entrega de todo o urânio enriquecido aos EUA ou então o Irã, com toda a sua história milenar, seria varrido do mapa do mundo. Nas palavras do primeiro ministro de Israel, o Irã voltaria à Idade da Pedra.
- O petróleo e a circulação de navios no Golfo Pérsico seria totalmente “livre”, entenda-se por livre, controlada pelos EUA. Prometeu até mudar o nome consolidado do Golfo Pérsico para Golfo da Arábia.
Refiro a Trump e Netanyahu, pois, mesmo que no começo, a maioria do povo americano apoiasse a beligerância anunciada pelo seu “poderoso” presidente e pelo não tão poderoso assim primeiro ministro de Israel, porque eles não representaram, nesta desastrada ação bélica, a hegemonia histórica e papel de liderança global exercido, até então, pelos EUA. Os Estados Unidos sempre invadiram nações livres e sempre intervieram em questões internas de outros países, mas do século XX até Trump, faziam questão de combinar a força bélica com a construção da hegemonia. Eram a difusão cultural com a defesa do pensamento democrático, mesmo quando patrocinavam ditaduras; os filmes exaltando de forma exagerada a vitória e seus heróis na segunda guerra, seus programas e exemplos para outros países e em muitos casos a ajuda financeira. Trump rompeu com esta trajetória de construção de hegemonia e passou a afirmar, sem pejo a “maravilha” da economia americana, a superioridade do dólar e a supremacia dos EUA por sobre todas as nações, retomou o slogan America First, com uma versão diferente da original de Woodrow Wilson, a primeira defendia que os EUA não entrasse nas guerras dos outros; a de Trump, deixou claro que primeiro os EUA e que os outros são submissos e dependentes.
Antes da guerra, o Irã enfrentava uma crise interna, sem precedentes desde o início da revolução islâmica, dirigida pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1979. Havia grandes manifestações de massa nas ruas, clamando por democracia e protestando contra a inflação de mais de 50% ao ano, contra a opressão às mulheres e outros temas alimentados ou não por ações do ocidente. A situação era tão grave que, apesar da brutal repressão empreendida pelo governo, o povo não abandonava as ruas, a ponto de o presidente do país, Masoud Pezeshkian, aventar a possibilidade de evacuar Teerã.
O Irã vivia sob bloqueio econômico, embargo total decretado pelos EUA em 1996, com punições a empresas estrangeiras que investissem no setor de petróleo iraniano. Em 2006 e 2007, a ONU e a União Europeia impuseram sanções e embargos ao fornecimento de armas ao Irã devido ao avanço do programa nuclear.
Durante o governo de Obama, com diplomacia e firmeza, os EUA chegaram a um acordo muito importante para o mundo, o Plano de Ação Conjunto Global (Joint Comprehensive Plan of Action), que estabeleceu que o Irã iria desativar milhares de centrífugas e reduzir em 98% o seu estoque de urânio enriquecido, iria permitir acesso das equipes de inspeção da ONU a todas as suas instalações nucleares, entre outras medidas restritivas. Em troca, a ONU, a União Europeia e os EUA iriam paulatinamente reduzir as sanções ao país, até voltar à normalidade. Porém, 3 anos depois, com a eleição de Trump para o primeiro mandato, os EUA se retiraram do Acordo e tudo começou a degringolar. Chegamos aos dias de hoje, o Irã possui mísseis de longo alcance e segundo informações de organismos internacionais, capacidade de enriquecer urânio para além da utilização pacífica. O Irã dispõe de 440,9 Kg de urânio enriquecido a 60% de pureza, volume que, segundo a Agência Internacional de Energia, está a um passo para o patamar de 90%, o suficiente para produzir armas nucleares.
Entre os diversos tipos de combate e disputa entre humanos o único em que existem poucos registros de empate é na guerra. Podemos lembrar três situações classificadas por empates por exaustão, ou por falta de condição de um lado vencer o outro: a guerra entre o Iraque e o Irã (1980-1988); a guerra entre as Coreias (1950-1953) e a Guerra entre os EUA e o Reino Unido (1812 a 2015). Porém, esta guerra entre EUA, aliado a Israel, e o Irã não foi empate; teve vencidos e vencedor. Mesmo que, a meu ver, a guerra não tenha terminado, houve um importante cessar fogo que, como defensores da paz, temos de apoiar e saudar a assinatura de um acordo. Se funcionar, se Israel não impedir o acordo, teremos um impacto positivo para todas as nações. Apesar disso, infelizmente, ainda há muitos problemas e muitos pontos que podem gerar conflitos pela frente. Não atevejo solução definitiva enquanto não for resolvido o problema do Estado Palestino, o impeto daqueles que querem destruir Israel e daqueles que querem acabar com o Irã.
Até hoje não consegui entender como o governo americano foi induzido ou ludibriado, para declarar unilateralmente guerra ao Irã e achar que uma simples operação militar derrubaria o governo iraniano.
O General prussiano Clausewitz escreveu em seu livro “Da Guerra”: “A força - isto é, a força física, porque a força moral não possui existência a não ser como expresso no Estado e na legislação - constitui assim o meio de que dispõe a guerra. Impor a nossa vontade ao inimigo constitui o seu propósito. Para atingir aquele propósito devemos fazer com que o inimigo fique impotente e este é, em tese, o verdadeiro intuito da guerra”.
Trump estabeleceu objetivos ao declarar a guerra, não alcançou nenhum deles, mesmo dispondo de um potencial militar descomunal mesmo comparado à força militar da Rússia, China e França somadas - imaginem se compararmos à força do Irã.
Além da destruição imensa da infra estrutura econômico-produtiva, social e principalmente da bélica do Irã, temos a morte de 13 militares e mais de 300 feridos americanos;, entre os iranianos 3468 pessoas mortas, sendo 376 crianças e 496 mulheres e mais de 26 mil feridos; outros milhares de mortos e feridos no Líbano, em Israel e em outros países no Oriente Médio. Devemos destacar também o aumento da inflação e de problemas econômicos nos EUA e no mundo, com repercussões de longo prazo.
Apesar da destruição parcial do Irã, do número desproporcional de mortos e feridos e de Trump cantar vitória, os EUA e Israel não alcançaram os objetivos. Sofreram uma importante derrota estratégica e geopolítica. Israel se isolou do mundo, a causa palestina tem mais simpatia hoje, os EUA está em conflito diplomático aberto com a Europa e mesmo com a direita europeia; os países do Oriente Médio já não confiam tanto na salvaguarda da potência americana; o Irâ reafirmou a sua força e mostrou o seu potencial ao fechar o Estreito de Ormuz; a China de forma silenciosa mantém uma cadência impressionante no seu fortalecimento na geopolítica mundial.
O Memorando de Entendimento de Islamabad, patrocinado pelo Paquistão, aliado à China, assinado às pressas pelos EUA, sem consulta ou participação de Israel, mostra a fragilidade americana, a despeito da arrogância, de Trump. Não tocou na mudança de regime, nem ao menos na redução da repressão brutal a opositores no Irã; não tratou do desmantelamento das milícias iranianas existentes no Iraque, do Hezbollah, dos Houthis ou do desarmamento do Hamas; adiou por 60 dias a discussão sobre o urânio enriquecido a 60% em poder do Irã, o Irã apenas se comprometeu a diluir seu estoque sob a supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica; Trump e seu vice ainda desmoralizam Israel ao firmarem acordo envolvendo as ações israelitas, sem sequer consultar qualquer autoridade do país e ainda deixando claro, impropriamente, que a existência de Israel depende do apoio americano; por fim, a ação americana ainda contribuiu para o fortalecimento interno do regime dos aiatolás e da sua linhagem mais radical.
Os EUA estão perdendo esta guerra, aguardemos os próximos episódios, pois enquanto eu escrevia este artigo, Israel bombardeava o Líbano.
É triste e preocupante!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

