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Gibran Jordão

Ex-coordenador-geral da FASUBRA e membro da Travessia Coletivo Sindical e Popular

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Trump vai conseguir provocar uma recessão global e uma guerra mundial?

Escalada militar no Golfo Pérsico ameaça colapso energético global, pressiona economias e amplia o risco de uma guerra envolvendo grandes potências

Donald Trump (Foto: Reuters/Elizabeth Frantz)

Caso a guerra entre EUA/Israel vs Irã dure mais quatro semanas, com o estreito de Ormuz fechado e com a infraestrutura do sistema petrodólar sendo destruída nos países do Golfo pelos mísseis iranianos, podemos entrar num ponto de não retorno. O que significa que outros países podem ser obrigados a entrar diretamente na guerra para evitar que suas economias entrem em colapso.

Uma parte muito significativa do fornecimento mundial de petróleo, gás natural, fertilizantes e gás hélio é processada pelos países dirigidos por monarquias árabes, que, ao mesmo tempo, são pilares do sistema petrodólar. Donald Trump, em declaração pública, está pressionando que outros países – China, Reino Unido, Coreia do Sul, Japão e a OTAN – enviem navios de guerra para abrir o estreito de Ormuz, arrastando outros atores para a região conflagrada. Um sinal que demonstra o desespero de quem parece estar perdendo o controle da guerra.

Em entrevista ao Washington Post, Trump chegou a dizer que a OTAN terá um futuro muito ruim se não contribuir com esforços de guerra contra o Irã. Até agora não houve uma resposta que sinalize o envolvimento direto de outros países na guerra iniciada pelos EUA e Israel, mas pode ser que esse cenário mude em algumas semanas, pelo fato de grandes potências terem economias altamente dependentes da produção de hidrocarbonetos do Golfo Pérsico. O governo norte-americano parece estar dividido sobre o que fazer: se terminar a guerra agora para evitar um desastre econômico mundial, vai assinar o atestado de derrota para os persas. Mas, caso siga em frente com a guerra, poderá colocar em risco a existência das monarquias árabes e o sistema dólar, prejudicando o financiamento da economia dos EUA, especialmente a corrida tecnológica.

O barril de petróleo está acima de US$ 100 desde o dia 12 de março. No Brasil, o aumento da gasolina e do diesel nas bombas já está sendo sentido. O governo brasileiro já anunciou a isenção de impostos e o aumento da fiscalização para diminuir o impacto no bolso dos consumidores, mas, caso o preço do barril ultrapasse os US$ 150 nas próximas semanas, essas medidas do governo não vão conseguir segurar a alta dos combustíveis. O diesel pode chegar a valores insustentáveis, e não podemos descartar que os caminhoneiros iniciem protestos e que a oposição golpista se aproveite desse momento. O que nos leva a imaginar o estrago que isso pode causar na reeleição de Lula e para toda a esquerda...

Uma recessão econômica global e a ampliação da guerra envolvendo outros países não são alarmismo, mas a realidade concreta. Para dar alguns exemplos, segundo dados da OPEP, entre os produtos produzidos na região do Golfo, o Japão é dependente de até 30% do petróleo bruto e 20% do GNL; Coreia do Sul e Índia são dependentes de 20% do petróleo bruto; os países europeus dependem de 20% do GNL; Brasil, Índia e Paquistão dependem de 30% dos fertilizantes; Taiwan é dependente de 40% do hélio. A prolongação do conflito ameaça transformar o choque inflacionário em uma recessão, na qual a falta física de produtos interrompe cadeias de produção inteiras, desde alimentos na América do Sul até chips de alta tecnologia na Ásia. Isso significa que, em breve, a neutralidade em relação a esse conflito pode começar a custar mais caro do que a intervenção militar direta e, por esse motivo, várias nações com grande poder militar poderão se envolver.

Os países do Golfo Pérsico, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Catar e Kuwait, poderão ser obrigados a entrar na guerra contra o Irã de forma contundente para proteger sua infraestrutura da indústria petroquímica, já que as bases americanas instaladas nesses países têm sido incapazes de garantir segurança. Mas, neste momento, esses países estão priorizando a cautela e as movimentações diplomáticas para um cessar-fogo, pois sabem que o Irã tem plenas capacidades de causar danos tão impactantes que podem colocar em risco não só a economia, mas a sobrevivência da população nesses países, que dependem das usinas de dessalinização para obter água potável.

Nunca estivemos também tão perto de ver a guerra entre OTAN/Ucrânia e Rússia acabar se entrelaçando com a guerra entre EUA/Israel vs Irã. Há interesses diretos de Zelensky e dos países do “Otanistão” em que o Irã seja derrotado, pois é um parceiro militar estratégico dos russos. O contrário também é verdadeiro: Putin sabe que, se o Irã cair, a Rússia vai ficar mais isolada e verá projetos e investimentos que envolvem energia nuclear, lançamento de satélites, rotas comerciais e fabricação de drones de alta tecnologia virarem pó.

A China também tem acordos estratégicos abrangentes assinados com o Irã. Embora a sua política externa não preveja o envolvimento em conflitos e guerras, não há dúvidas de que o governo chinês sempre deu e está, neste momento, fornecendo apoio logístico e material aos iranianos, o que explica a resiliência e a capacidade de resposta militar que está surpreendendo o mundo. O prolongamento dessa guerra pode comprometer efetivamente a economia chinesa e colocar a liderança do Partido Comunista em questão, gerando tensionamentos internos. Se esse momento chegar, é provável que o governo da República Popular da China tenha que reavaliar seu papel nesse conflito.

A guerra de Trump contra o Irã está colocando o mundo em perigo, e não podemos ficar olhando os desdobramentos dos acontecimentos no Oriente Médio, achando que vai prevalecer o bom senso e que o governo americano tem condições de apostar no cessar-fogo e num processo de negociação. Tanto na guerra dos doze dias como no atual conflito, os iranianos foram covardemente atacados enquanto estavam na mesa de negociação com os americanos. Ou seja, Trump e Netanyahu destruíram todas as pontes de diálogo com os iranianos, que, por sua vez, estão agora lutando uma guerra existencial. O governo do Irã não confia mais em nenhuma palavra de Trump e sabe que, se não expulsar a presença militar dos EUA da região e se não impuser baixas significativas a Israel, em breve será atacado novamente. A negociação, nesse caso, não é uma opção no curto prazo.

No dia 28/03 está sendo preparada uma das maiores manifestações da história dos EUA contra Trump. Sua popularidade está em baixa, e as consequências econômicas dessa guerra têm tudo para levar os republicanos a uma derrota eleitoral pesada nas eleições legislativas de meio de mandato. Todas as forças progressistas do mundo deveriam, neste momento, se organizar em torno desse calendário de protestos que está marcado nos EUA. Somente um levante global contra o império e contra todos os chefes de Estado que são aliados de Trump pode evitar uma desgraça para a humanidade em escala internacional.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.