Tsunamis criam caos, destroem países, bagunçam finanças e exterminam milhares de vidas

Como alguém deseja ser presidente da República lançando diante de si tão formidável conjunto de ideias catastróficas, desolação, terror, destruição em massa, trágica perda de centenas de milhares de vidas?



A Convenção do PSDB que oficializou, após muitas idas e vindas, o mineiro Aécio Neves seu candidato à Presidência revelou verdades incômodas do PSDB.

E desnudou o que representa o projeto neoliberal se reposicionando para retornar ao centro das decisões do Brasil.

O próprio clima da convenção tucana tinha algo de muito artificial, acadêmico, e só faltaram mesmo as bandeirolas que enfeitam os circos partidários em que se transformam as convenções norte-americanas, sejam Republicanas, sejam Democratas, para parecer evento político norte-americano em terras brasileiras.

Inegável que mais parecia mais um convescote elitista: não se encontrava um único afrodescendente – esses que antes chamávamos negros - nas dezenas de fotos do evento partidário, e nenhum com cara de trabalhador, jeito de operário, característica de quem habita o andar de baixo da pirâmide social brasileira. O mais ligado aos trabalhadores era o notório Paulinho da Força, esse que tem sempre o nome envolvido em negócios nebulosos, jeito truculento e mal educado de se referir a seus muitos – e bons de votos – adversários políticos. Portanto, para melhorar o visual do espectro abrasileirado que se espera de um partido que tenha mensagem ao povo, não vale.

Os bonecos de papelão com a figura em tamanho natural do candidato tucano foram de imenso mau gosto – algo mais simplório, banal e impertinente que isso será difícil de encontrar na vasta memorabilia das campanhas presidenciais do Brasil. Talvez o exemplo mais próximo sejam as vassourinhas grandemente usadas na campanha à presidência do controvertido e ciclotímico Jânio Quadros, na segunda metade dos anos 1950

As novidades de quem deseja a todo custo de firmar como o "Candidato das Mudanças" em sua vasta maioria tinha longa quilometragem nas lutas políticas. Destaque para o trio das velhas novidades: o octogenário Fernando Henrique Cardoso, sua principal estrela, mesmo que já fosse um provecto 'centennial man"; o septuagenário José Serra; o sexagenário Geraldo Alckmin. É difícil imaginar grandes novidades de um laboratório tão claramente identificado com o passado. E cadê as mulheres? Qual o destaque e o papel da mulher em um novo retorno tucano ao Planalto? Sinal algum disso. Mas havia uma entusiasmada colunista da rádio CBN declarando a plenos pulmões: "O Aécio teve um discurso de estadista! Adorei!" Era a conhecida – e não menos polêmica – Lucia Hippolito. Mais não se ouviu, nem se noticiou que tenha relação com as mulheres na arrancada de Aécio Neves para levar o PSDB de volta à Presidência da República.

Os discursos da Convenção foram a pior nota-chave do encontro: não convenciam pela absoluta falta de argumentação e de propostas; não empolgavam tanto pelo uso estridente quanto claudicante como que eram expelidos e uma farra de lugares-comuns: petistas precisam ser varridos, petistas são indecentes, petistas precisam ser generosos, petistas são corruptos, petistas são descarados. Com ataques nesse nível muito abaixo da linha da cintura é bem difícil prever que os tucanos amealharão meia dúzia de votos a mais de sua marca comum – porque os tucanos são empurrados a uma velocidade de cruzeiro para o espectro político e ideológico mais desgastado no mundo atual – as ideias de direita, as plataformas neoliberais, os ranços do conservadorismo, o medievalismo na questão dos costumes, o verniz de hipocrisia em temas centrais como o direito ao aborto, à inclusão de gênero.

Nenhum discurso, nem mesmo o de sagração de uma tardia primavera para o político mineiro, sequer aventou propostas, projetos, plataformas, sonhos ou meras ideias capazes de capturar a imaginação dos brasileiros, calar fundo no coração de nossa desperta juventude, atender aos reclamos das ruas infelizmente infestadas por black blocks, baderneiros, vândalos e quetais. Discursos políticos quando recheados por lugares-comuns, platitudes amenas, frases longas a título de bordões e sensos comuns resultam sempre em amontoado de palavras vazias e pensamentos desconexos.

É como se a mente e o coração formulasse algo e a boca se recusasse a enunciar esse "algo".

A metáfora do TSUNAMI amplamente empregada por Aécio Neves à guisa de exercício retórico deixou muito a desejar. E por vários, diferentes motivos. O evento catastrófico conhecido como Tsunami faz referência direta a um terremoto submarino que ocorreu na madrugada do dia 26 de dezembro de 2004, no Oceano Índico e que teve seu epicentro na costa oeste de Sumatra, na Indonésia. O terremoto desencadeou uma série de tsunamis devastadores ao longo das costas da maioria dos continentes banhados pelo Oceano Índico, matando mais de 230.000 pessoas em quatorze países diferentes e inundando comunidades costeiras com ondas de até 30 metros de altura. Por onde passou deixou apenas morte, ruínas, destruição, desolação e muito sofrimento humano. Além de sérias dificuldades políticas e financeiras ao governo indonésio para reconstruir aquele trágico cenário do inferno de Dante.

Na falta de explicações adicionais que possam conceder uma réstia sequer de ideias positivas e construtivas associadas à aterradora imagem de TSUNAMI, sobram fios desencapados no pensamento do candidato que se apresentou como tsunami aos líderes de sua refinada grei. Como alguém deseja ser presidente da República lançando diante de si tão formidável conjunto de ideias catastróficas, desolação, terror, destruição em massa, trágica perda de centenas de milhares de vidas?

Para que isso possa ocorrer na prática e segundo uma visão minimamente política, será de todo necessário que o Brasil seja impactado por um tsunami social, econômico, financeiro e comercial que, por onde passe, deixe seu rastro de destruição. Alguns sinais dessa catástrofe se abatendo sobre o Brasil: extinção dos programas de transferência de renda, conhecido genericamente como Bolsa-família, infelicitando assim milhões de brasileiros carentes, historicamente deserdados das riquezas nacionais; descuido com as políticas públicas e econômicas que vem sendo coroadas de êxito na geração de pleno emprego em todo o Brasil; extinção dos programas de acesso às universidades, como o ProUni, que vem garantindo a legiões de jovens afrodescendentes, indígenas, egressos das escolas públicas o sempre sonhado diploma universitário; extinção dos programas de capacitação de mão-de-obra jovem como o Pronatec, inserindo essa faixa etária no mercado de trabalho pela porta de frente, da educação profissionalizante e não através do conhecido mercado informal de tantas mazelas e iniquidades; extinção do programa Mais Médicos, esse que fez milhares de médicos estrangeiros pisar pela primeira vez em terras do Brasil profundo, vilarejos, vilas e cidades em que nossos médicos se recusam a ir devido à falta de infraestrutura básica e proximidade de grandes centros urbanos; privatização de grandes empresas nacionais, símbolos maior de nosso potencial econômico a serviço da nacionalidade – começando pela Petrobras e o Banco do Brasil.

Se o candidato do PSDB levar a ferro e fogo essa ideia infeliz de, se eleito for em outubro de 2014 para o mais alto cargo da administração pública brasileiro, personificar o alardeado tsunami que deseja ser, o trajeto, o caminho e a receita não pode ser outro que os elencados acima. Mas pode agregar ainda outros eventos de natureza catastrófica: inviabilizar o êxito dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016; inviabilizar o Mercosul e a proteção econômico-financeira dos países que o integram, quase sempre nossos fronteiriços, abrindo espaço para políticas imperialistas dos Estados Unidos (Nafta) e da Comunidade Econômica Europeia; desmonte da política externa marcada por altiva independência do Brasil em relação aos demais países do mundo; facilitar e aumentar o volume de repasses da publicidade governamental federal para manutenção da tutela dos meios de comunicação monopolistas sobre a sociedade brasileira, governo incluído, e que representam os interesses financeiros e políticos dos Grupos Globo, Abril, Folha de S.Paulo, Estadão.

Mas, em exercício de sincera boa vontade com a imagem cor-de-rosa e inofensiva que o presidenciável tucano desejou passar em sua Convenção para o tsunami, concedamos algum rasgo de crédito: Aécio deseja ser um tsunami para desalojar o PT do Palácio do Planalto; para melhorar os costumes políticos do país; para colocar decência no trato da 'res pública'; para estancar os dutos da corrupção que, segundo ele, corroem as contas públicas do país. Muito bem. Por que não testar primeiro o tsunami tucano em seu próprio quintal, varrendo a corrupção milionária que enferma os trens e metrôs paulistanos, ao longo de sucessivos governos tucanos à frente do Palácio dos Bandeirantes? Por que não atuar como tsunami nas Minas Gerais, ao invés de fazer cara de paisagem para o mensalão tucano, cobrindo com véus da maior leniência possível para com os malfeitos de Eduardo Azeredo e lançando ao governo mineiro o tucano Pimenta da Veiga, ele próprio um dos investigados pela Justiça mineira no mesmo escândalo, origem e gênese do chamado mensalão petista? Por que não ser um tsunami no respeito às leis do país – afinal, motorista com sinais de embriaguez (e carteira vencida) - deveria, por uma questão comezinha de bom senso e cidadania, se submeter a teste de bafômetro, porque não aceitou fazer o teste? Por que não ser um tsunami na investigação dos muitos escândalos de corrupção envolvendo a cobrança de escorchantes pedágios nas rodovias do estado de São Paulo? Por que não não ser um tsunami em defesa das noções de civilidade e de educação do povo brasileiro que, insuflado por ala vip do Itaquerão, entoou pesados xingamentos à presidente da República, uma senhora, mãe e avó, que resistiu bravamente a torturas nos porões do Ditadura nos anos 1970, enquanto ele, o candidato mineiro, tudo o que queria era flanar sobre o capô do carro 'Aero-Willys' de seu pais? Ao contrário, o aprendiz de estadista tucano, não só repudiou às vaias mais vis que uma mulher poderia receber, como também foi célere em endossá-la.

Aécio Neves precisa rever urgentemente a qualidade da assessoria política que lhe prestam. Ninguém teve a ideia de se inteirar mais sobre o que vem associada ao nome, à imagem e à ideia de um tsunami?

Mas é enigma simples de destrinchar: Tsunamis criam caos, destroem países, bagunçam finanças, exterminam milhares de vidas e infernizam a vida de populações, principalmente aquelas mais vulneráveis - pobres, semialfabetizados, que têm moradia precária e por aí vai. Uma desgraceira só.

Falando sério: Será mesmo esse o tipo de presidente-tsunami que o Brasil precisa na momentosa hora que o mundo atravessa?

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