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Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

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Tumor

Trecho de uma peça do teatro-verdade

Tumor (Foto: Rafael Nascimento/MS)

Uma mesa cirúrgica no centro do palco. Em torno dela a equipe médica.

Cirurgião: Bisturi número 10.
Instrumentadora: Bisturi 10. (entrega o instrumento)
Cirurgião: Incisão na linha média. Retrator Gosset.
Assistente: Retrator posicionado. Visibilidade boa.
Anestesista: Pressão caindo um pouco, 90/60.
Cirurgião: Sucção aqui. Pinça Kelly no vaso mesentérico.
Residente: Sangramento controlado?
Cirurgião: Sim. Agora o grasper no intestino. Cuidado, atraumático – Babcock.
Cirurgião (virando-se para o residente, dramaticamente): Você vê isso? Esse é o momento em que decidimos se o paciente vive ou não. Não hesite.
Residente: Mas e se eu errar?Cirurgião: Todo mundo erra. Aprenda com isso. Grampeador GIA, carregado.

Fade out

Cena 2

Segue a cirurgia

Cirurgião principal: Bisturi 10 para incisão na linha média.
Instrumentadora: Bisturi 10.
Cirurgião: Afastador Balfour. Mais retração lateral.
Assistente: Retrator posicionado. Visibilidade boa no cólon sigmóide.
Cirurgião: Identifiquei o tumor. Grande obstrução. Pinça Babcock no intestino proximal e distal. Clamp vascular no mesentério.
Assistente: Mesentério isolado. Eletrocautério para dissecção.

Cirurgião: Repercussão sobre o cólon. Muito dilatado. Laceração no celo. Cirurgia ampliada. Evitamos usar bolsa.

Anestesista: Pressão estável, saturação 98%.
Cirurgião: Sucção aqui – há um pouco de sangramento. Pinça Kelly.
Cirurgião: Ressecção completa. Margens livres visivelmente. Grampeador GIA para anastomose.
Instrumentadora: Grampeador carregado.
Cirurgião: Disparo. Anastomose concluída. Verificando vazamento – nenhum. Fechando. Acabou a cirurgia!

Outra equipe entra em cena e se encarrega de levar a cama até uma UTI individual. 

Fade out

Cena 3

Na UTI de um hospital 5 estrelas. Um quarto individual mobiliado com bom gosto. Banheiro. Nove metros quadrados. Um quadro na parede com anotações e mensagens. O nome do paciente, o nome do médico do dia, mensagens de otimismo.

Estou na cama. Na minha frente um aparelho de TV de 60 polegadas. Ligado na CNN Brasil. Meu braço direito está preso, por fios, a um “poste”. Aperto o botão da campainha. Entra uma enfermeira. 

 

Eu: Ai, enfermeira, tá doendo muito aqui na barriga quando eu mexo. Parece que tá rasgando tudo por dentro. E esses gases estão me matando de inchaço.Enfermeira: Entendo, é normal sentir isso depois de uma cirurgia no intestino – o corpo está se recuperando da manipulação. Em uma escala de 0 a 10, onde 0 é sem dor e 10 é a pior possível, quanto está sua dor agora?
Eu: Uns 7 ou 8, principalmente quando eu tento virar na cama.
Enfermeira: Certo, vou aplicar o analgésico que o médico prescreveu agora mesmo. Vamos tentar uma posição mais confortável, com travesseiros apoiando a barriga. Respire fundo devagar, isso ajuda com os gases. Já já você vai sentir alívio. Se não melhorar em 30 minutos, eu aviso o médico para ajustar a medicação. Chame se precisar alguma coisa. Vou colocar o botão da campainha bem ao seu lado, na cama.

Eu: Onde? Não estou vendo.

Enfermeira: Está bem aqui.

Fade out.

Cena 4

Eu: Enfermeira, eu tô com muita náusea. Meu estômago tá revirando, e sinto um desconforto aqui embaixo, como se o intestino não estivesse funcionando.
Enfermeira: Isso é comum nos primeiros dias, porque o intestino demora um pouco pra 'acordar' depois da anestesia e da cirurgia. É o que chamamos de íleo pós-operatório. Você já eliminou gases hoje?
Eu: Não, nada ainda. E tô com medo de forçar.
Enfermeira: Vamos caminhar um pouquinho pelo corredor, devagar, que isso ajuda a estimular o intestino. Vou dar um remédio para a náusea agora. Comece com porções bem pequenas de líquido claro. Se não melhorar, a gente avisa o médico. Você está indo bem, é só o corpo se adaptando.

Fade out

Cena 5

Eu: Tô com muita dor para evacuar. Parece que tá tudo preso, e quando sai gás dói horrores na cicatriz.
Enfermeira: É frequente isso depois de cirurgia colorretal, seu Antônio. Os remédios para dor às vezes prendem o intestino. Como está a dor agora, de 0 a 10?
Eu: Uns 6, mas piora quando eu tento ir ao banheiro.
Enfermeira: Vou dar um laxante suave que o médico autorizou e um analgésico extra antes de você tentar novamente. Apoie a barriga com uma almofada ao fazer força, isso protege a incisão. Beba mais água e coma alimentos ricos em fibra quando tolerar. Se continuar assim amanhã, vamos investigar melhor.

Fade out

Cena 6

A visita da cirurgiã

Cirurgiã: Bom dia! Como o senhor acordou hoje?

Eu: Muito bem! Já posso comer alguma coisa?

Segunda Cirurgiã: Não, por enquanto não pode comer nem beber. Só pode molhar os lábios com uma gase. Posso examinar seu estômago.

Eu: Claro, fique à vontade.

Segunda Cirurgiã bate com os dedos em vários pontos do estômago.

Segunda Cirurgiã: Ainda está muito dilatado. O senhor tem soltado gases?

Eu: Não. Deveria?

Segunda Cirurgiã: Sim. Mostraria que o intestino começou a funcionar. Mas é normal ficar assim nos primeiros dias.

Eu: Não consigo dormir à noite. Fico acordado e só durmo de dia.

Segunda Cirurgiã: Tente dormir à noite. Isso faz o intestino funcionar.

Eu: Quantos dias vou passar sem água?

Segunda Cirurgiã: Não sabemos ainda. Vai depender da evolução. Alguma dúvida?

Eu: Eu vou viver ou morrer?

Ela pega na minha mão.

Segunda Cirurgiã: Vai viver!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.