Um ano que expôs um mundo estruturalmente defeituoso
Sem colapso imediato, o mundo normalizou riscos, mas toda longa noite contém sinais de exaustão
Entre 21 de janeiro de 2025 e 20 de janeiro de 2026, eu vi o mundo atravessar 365 dias que cabem em poucas palavras duras: desestruturação, instabilidade e medo. Não é figura de linguagem. Foi um ano em que conflitos se multiplicaram como incêndios em mato seco — alguns por guerra aberta, outros por tarifas, bloqueios, retaliações, chantagens econômicas e a velha tentação de reivindicar o território alheio como se o século XXI ainda aceitasse mapas desenhados pela força.
A sensação dominante foi a de que a previsibilidade virou luxo, e a estabilidade, lembrança.
Ao longo desse período, um desenho se impôs com nitidez incômoda: dois movimentos estruturais disputam o futuro — os processos de integração e de desintegração. A desintegração acelerou. Fez barulho. Sabotou conquistas que pareciam consolidadas, especialmente aquelas construídas após a Segunda Guerra Mundial, quando a humanidade tentou inventar regras para que o poder não fosse apenas músculo. De repente, muitas dessas regras passaram a ser tratadas como ornamentos, e não como proteção.Ainda assim, a integração não morreu.
Ela segue trabalhando por baixo do ruído, como água que encontra passagem mesmo em terrenos fraturados. É um processo mais lento, menos fotogênico e, por isso, subestimado. Não recebe a cobertura midiática nem justa nem ao menos proporcional ao que significa, não ocupa o palco que o espetáculo do conflito monopoliza.
Às vezes, o vital processo de integração quase parece nulo. Mas ela existe. Existe como necessidade histórica, como inteligência coletiva em estado latente. E sigo convencido de que, no tempo próprio das sociedades, ela haverá de emergir não como idealismo, mas como imperativo: o único remédio capaz de curar os ossos ao quebrados da humanidade que subsiste dentro de um corpo coletivo já incapaz de caminhar. A verdade é que são muitas essas fraturas.
Esse contraste mexeu, ao longo do ano, com um tipo específico de gente: professores e estudiosos da sociologia da comunicação, da geopolítica e da história do pós-globalização.
Eu me incluo aí, com o desconforto de quem ensina enquanto o objeto de estudo se rearranja diante dos olhos. Muitos desses meus colegas atravessaram noites insones — não por mania de catastrofismo, mas porque o repertório que explicava o mundo começou a falhar. As categorias que pareciam firmes perderam apoio. E, quando isso acontece, a realidade passa a lembrar aquela sentença antiga, quase profética: tudo o que é sólido se desmancha no ar.
O que se viu não foi apenas conflito. Foi uma mudança de atmosfera.
Normas internacionais passaram a valer menos. Tratados e compromissos começaram a ser tratados como cláusulas reescritas ao sabor do humor do dia. Até fatos verificáveis — aqueles que deveriam ser indiscutíveis — entraram numa zona cinzenta em que narrativa se veste de verdade. E, quando a verdade vira produto, o medo deixa de ser consequência e passa a ser método.
Foi nesse clima que os 365 dias se pareceram com uma longa noite feita de dias diferentes. Uma noite que, em muitos momentos, lembrou um retorno simbólico ao que precedeu o Iluminismo: o tempo em que superstição, charlatanismo e crendice competiam com a razão e a ciência sem grande constrangimento.
Agora, em janeiro de 2026, as luzes que deveriam iluminar o mundo parecem ofuscadas. Narrativas suplantam fatos. O negacionismo vacinal — que deveria ter sido sepultado pela história e pelos números — voltou a ganhar espaço com ousadia. E a xenofobia, esse vício antigo de transformar o outro em ameaça, reapareceu tentando empurrar a humanidade para trás, como se fosse possível revogar a era dos direitos — tão bem descrita por Norberto Bobbio — por grito, decreto ou algoritmo.
Nesse cenário, o voluntarismo virou estilo de governo e a imprevisibilidade passou a ser vendida como virtude estratégica.
O egocentrismo despudorado, que antes parecia traço de personalidade, transformou-se em linguagem de poder. O resultado foi um recuo visível do multilateralismo e a reedição de uma lógica internacional baseada menos em regras compartilhadas e mais em hierarquias de força.
Já devíamos ter percebido que quando a regra comum enfraquece, cada ator passa a calcular sozinho — e o mundo se torna um tabuleiro em que a peça mais pesada acredita ter sempre razão. Mas não tem. Nem nunca terá.
Nada disso provocou, ainda, um colapso imediato. Mas produziu algo mais perigoso do que o choque: anormalização. A instabilidade passou a parecer acomodada. O conflito permanente foi naturalizado. A ideia de que alianças são provisórias, compromissos são descartáveis e a verdade é adaptável conforme conveniências momentâneas tornou-se hábito mental.
E se esses hábitos mentais se enraízam, eles banalizam o risco, enfraquecem critérios morais e acabam por reorganizar sociedades inteiras de maneira discreta, porém com alta letalidade destrutiva.
A história, no entanto, ensina que noites longas não são eternas. Elas testam a resistência das instituições, das ideias e da ética, mas também expõem seus limites.
O mundo que emerge desses últimos 365 dias está mais dividido, mais cansado e mais desconfiado — mas não está imóvel.
É que mesmo sob a escuridão mais espessa, há sinais quase imperceptíveis de reorganização, de aprendizagem forçada, de exaustão diante da barbárie repetida. Como após a noite mais tenebrosa, chega a madrugada. Primeiro tímida, quase invisível. Depois, um raio de luz rompe o horizonte. E então, sem alarde, nasce o dia. Não igual ao anterior, mas necessariamente diferente — porque toda longa noite, quando finalmente cede, obriga o mundo a se reinventar.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
