Um bilhão
Deus quer o Bolsonaro na cadeia, soluçando, arrotando e comendo lavagem
Foi bom enquanto durou, tive megassonhos com essa mega-sena.
Vi-me bilionário!
Sim, sonhei, de olhos abertos, e tive lúcidos delírios.
Imaginei-me com fumos de fidalgo, metido num fraque escuro, bigode engomado, relógio de bolso, fumando cachimbo e andando pra lá e pra cá numa charrete elizabetana.
Também tive sonhos mais modernos, vi-me de sapatênis, copo stanley e camisa polo, frequentando circuitos de fórmula 1 e abertos de tênis.
Frequentaria a hípica e o jóquei, jogaria golf, jogaria dinheiro fora em cassinos e iria naquele restaurante que o barbicha quebra a munheca pra salgar o churrasco.
Compraria um camelo, um vestido de algodão egípcio e uma túnica, só pra me sentir um sheik.
Minha casa teria um formato minecraft e uma porta alta o suficiente para receber a visita de algum anunnaki.
O carro abriria as portas como um morcego abre as asas.
Sim, vivi assim por duas intermináveis semanas.
Todas as manhãs eu sentia entrar pela janela, com o frescor do orvalho, o cheiro colorido da bufunfa, o aroma adocicado da riqueza.
Era como despertar em um grande jardim cujas flores tinham pétalas de grana.
Com ela, compraria perfumes árabes, cavalos árabes, carros chineses, sapatos alemães, gravatas italianas, charutos cubanos, vinhos franceses e teria escravos e escravas ruivas.
Mas aí eu despertava e pensava, então é isso? é pra isso que serve um bilhão?
Quero não.
E voltava a dormir.
Mas às vezes eu sonhava coletivamente, e esse sonho atraente e empático me levava novamente a cobiçar a fortuna.
E a palma da mão voltava a coçar, a febre retornava e reapareciam os delírios.
Compraria um grande terreno, cultivaria uma agrofloresta e criaria vacas, cavalos, porcos e galinhas.
Pensava em morar com os amigos e amigas e já os enchia de presentes em minha imaginação.
Imaginava-me comprando uma cadeira de rodas voadora pro amigo jaburu ou um exoesqueleto nicolélico, só pra vê-lo, veloz e todo fagueiro, a correr atrás de redemoinhos e borboletas.
Levaria o amigo Davi, o grande cabeça de trolha, para uma viagem espacial intergalática, ou mergulharíamos em um pequeno submarino até as profundezas abissais oceânicas.
Compraria um alambique pra mozinho, no formato de uma grande carranca, pra ele poder tomar suas pingas de cabeça, enquanto cheirava seu rapé inseparável, enriquecido com douradíssimos fios de ouro.
Compraria uma nuvem pro caretinha, uma cachoeira pro gilmar, um trovão pro osmarango, um arco-íris pra rafaela, um saci pererê pra flavinha, uma estrela cadente pra sara, um unicórnio pro hermano, uma encruzilhada pro valdeci, asas pro velho sids e um enorme jequitibá pra livinha.
Pra tia teca, contrataria um pocket show do zeca pagodinho, no quintal de olhos d'água, com pedro nas sete cordas, hugo samambaia no bandolim e olavo como mestre salas.
E jogaria milhares de poemas, enrolados em milhares de notas de 100 pratas, do alto de um helicóptero, no sol nascente.
Só pra ver a poeira subir e a multidão se acotovelar em folgada alegria lá embaixo.
Mas Deus não quis!
Deus quer o Bolsonaro na cadeia, soluçando, arrotando e comendo lavagem.
E também quer o Lula quatro.
Pra mim tá bão.
Palavra da salvação.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

