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Zhou Zhiwei

Pesquisador sênior do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais e professor da Escola de Política e Economia Internacional da Universidade da Academia Chinesa de Ciências Sociais

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Um caminho ultrapassado rumo a lugar nenhum

A política dos EUA para a América Latina e o Caribe se orienta fortemente pela lógica da Doutrina Monroe

Presidente dos EUA, Donald Trump - 05/05/2025 (Foto: REUTERS/Leah Millis)

Publicado originalmente pelo China Daily

Do "America First" à orientação estratégica de um jogo de soma zero, passando pela tática do uso de tarifas como ameaça, o segundo mandato de Donald Trump subverteu as regras existentes da globalização econômica e da governança global. Cada movimento e declaração de seu governo exemplifica o hegemonismo dos Estados Unidos.

Como a região geograficamente mais próxima dos Estados Unidos, a América Latina inevitavelmente sofrerá os impactos da diplomacia de intimidação dos EUA. Sua cooperação com a China também será afetada, principalmente em duas dimensões-chave.

Primeiro, a política do governo dos EUA para a América Latina provavelmente representa uma retomada da Doutrina Monroe. Ao longo de mais de dois séculos, essa doutrina evoluiu para incorporar diversos objetivos centrais, incluindo a proteção contra ameaças à segurança, a exclusão de potências extrarregionais, a manutenção da hegemonia dos EUA e a construção de um sistema de alianças hemisférico. Alguns conservadores norte-americanos defendem que a cooperação regional dentro da América Latina e o engajamento com países extrarregionais prejudicam muitos dos interesses dos EUA na região.

Segundo, a abordagem do governo dos EUA em relação à América Latina é marcadamente caracterizada pela tendência de exercer poder e coerção. Por exemplo, forçou o Panamá a se retirar da Iniciativa do Cinturão e Rota da China, intensificou as sanções contra Cuba, Venezuela e Nicarágua, e utilizou tarifas para pressionar o México a fazer concessões contínuas na gestão da fronteira com os EUA. Com base nessas ações, parece que os EUA podem intensificar táticas coercitivas ao buscar seus interesses no continente.

Em uma entrevista recente à Fox, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que os erros de política do governo Barack Obama permitiram que a China avançasse significativamente na América Latina. Ele enfatizou que os EUA precisam recuperar seu “quintal”. Embora os comentários de Hegseth reflitam um sentimento mais amplo dentro do gabinete dos EUA, eles ignoram de forma evidente três fatos fundamentais que sustentam o rápido progresso das relações China-América Latina.

O primeiro é a crescente autossuficiência das nações latino-americanas. Desde suas independências, esses países têm priorizado a busca por soberania e autonomia política, objetivo especialmente evidente nas relações com Washington. Desde 1898, quando os EUA começaram a se firmar como hegemonia global por meio da Guerra Hispano-Americana, resistir ao neocolonialismo norte-americano tornou-se pauta essencial da América Latina para defender sua soberania e buscar autonomia. Nesse processo, os países latino-americanos não apenas exploraram ativamente diversos caminhos de integração regional, como também se empenharam em desenvolver uma política externa diversificada. Por exemplo, durante a Guerra Fria, esses países adotaram políticas externas independentes e autônomas. No início do novo século, fundaram a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), que exclui os EUA. O fortalecimento da cooperação com a China está alinhado às novas tendências de cooperação internacional e representa uma escolha de autonomia diplomática para os países latino-americanos. Além disso, constitui um meio eficaz de equilibrar a influência dos EUA. Assim, a tentativa do governo norte-americano de reafirmar sua hegemonia está estruturalmente em desacordo com a crescente autossuficiência das nações latino-americanas. Em certo sentido, a política dos EUA de tratar a América Latina como seu “quintal” nada mais é do que um devaneio.

O segundo ponto é o forte dinamismo endógeno da cooperação China-América Latina. A ansiedade estratégica dos EUA quanto a essa cooperação decorre, em grande parte, da alta eficiência da colaboração econômica e comercial entre a China e o continente. Contudo, essa eficiência se baseia na significativa complementaridade econômica entre as duas partes. Essa relação complementar é evidente não apenas na estrutura do comércio, mas também na dinâmica de oferta e demanda em investimentos. Está fundamentada nos desejos comuns de China e América Latina por globalização econômica, modernização e aprimoramento da estrutura industrial — e não em uma política econômica de “desamericanização”. Certamente, não se trata de uma cooperação em bloco voltada contra os EUA. A declaração do terceiro Encontro Ministerial do Fórum China-CELAC, em 2021, destacou explicitamente o aprofundamento contínuo de uma nova era na relação China-América Latina, pautada pela igualdade, benefício mútuo, inovação, abertura e centralidade nas pessoas. Diante da natureza vibrante e dinâmica da cooperação econômica e comercial entre China e América Latina, é difícil para os EUA alcançarem seu objetivo de forçar os países latino-americanos a se desvincularem da China.

O terceiro ponto é a visão compartilhada entre China e América Latina sobre o sistema de governança internacional. Conforme revelado nas declarações dos três encontros ministeriais anteriores do Fórum China-CELAC, ambas as partes compartilham uma visão comum de apoio à globalização e ao multilateralismo, além de oposição à política de poder e ao unilateralismo. Isso reflete plenamente a natureza de uma comunidade China-América Latina com um futuro compartilhado.

Atualmente, a política dos EUA para a América Latina se caracteriza por uma marcada inclinação protecionista e unilateralista, acompanhada por uma notável ausência de iniciativas concretas de cooperação. Nesse contexto, China e América Latina devem aprofundar sua colaboração, transformando desafios em oportunidades estratégicas. A cooperação China-América Latina apresenta as seguintes vantagens:

Primeiramente, o apelo do princípio diplomático chinês de buscar o bem comum e interesses compartilhados tende a crescer na América Latina. As ações do governo norte-americano exalam uma arrogância imperialista, atropelando os direitos arduamente conquistados de autonomia que as nações latino-americanas vêm buscando desde suas independências, há dois séculos. Em nítido contraste, as relações China-América Latina têm se pautado consistentemente pelos princípios de igualdade e benefício mútuo. Além disso, a postura aberta e inclusiva da China ressoa mais de perto com as aspirações políticas dos Estados latino-americanos.

Em segundo lugar, a cooperação econômica e comercial entre China e América Latina permanece altamente previsível. De acordo com meus cálculos, entre 2014 e 2023, a taxa média de crescimento anual do comércio China-América Latina foi de expressivos 8,5%, superando com folga os 4,8% do comércio EUA-América Latina. A vitalidade do comércio China-América Latina é significativamente superior. Caso os EUA imponham tarifas adicionais aos países latino-americanos, isso pode acelerar o processo de negociação para facilitação do comércio entre China e algumas dessas nações. A China já firmou acordos de livre comércio com cinco países latino-americanos. Se os EUA não ampliarem seus investimentos e assistência à América Latina, as expectativas desses países por investimentos chineses só aumentarão. De forma geral, a América Latina enfrenta baixo crescimento econômico e desafios crescentes na governança nacional. Nesse cenário, a cooperação aberta e eficiente entre China e América Latina está mais alinhada às necessidades de cooperação internacional dos países da região.

Em terceiro lugar, o multilateralismo é o alicerce da cooperação China-América Latina. Ambas as partes são defensoras e beneficiárias firmes do multilateralismo. Desde o retorno de Trump à Casa Branca, os EUA voltaram a se retirar de uma série de organismos e acordos internacionais, causando sérias perturbações à ordem multilateral. Diante disso, China e países latino-americanos devem defender resolutamente o multilateralismo, reforçar a coordenação de suas posições e aprofundar a cooperação em temas globais como mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável e redução da pobreza. Juntas, essas nações devem enfrentar os impactos provocados pelas ações unilaterais dos EUA. Este ano representa mais uma oportunidade para o Fórum China-CELAC atualizar sua agenda. Ambos os lados devem aproveitar plenamente a plataforma para promover uma cooperação abrangente, ao mesmo tempo em que apoiam os países latino-americanos na construção de consensos regionais, no fortalecimento da capacidade de governança e na defesa de seus direitos ao desenvolvimento independente.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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