Um Crime chamado Justiça

Por pouco mais de uma hora, minha mente foi oxigenada por um texto inteligente, intrigante, surpreendente e bem-humorado

www.brasil247.com -


Por Florestan Fernandes Júnior, do Jornalistas pela Democracia

Depois das três doses da vacina e usando máscara KN95, tomei coragem e arrisquei sair de casa para ir ao teatro assistir “A Pane”, do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt. Minha impetuosidade foi muito bem recompensada.

Por pouco mais de uma hora, minha mente foi oxigenada por um texto inteligente, intrigante, surpreendente e bem-humorado. Tudo cuidadosamente embalado na direção primorosa de Malú Bazán e na interpretação impecável do elenco. Atores consagrados como Oswaldo Mendes, Antônio Petrin e Roberto Ascar dividem o palco com os jovens, mas não menos talentosos Cesar Baccan, Heitor Goldflus e Marcelo Ullmann. 

Escrito inicialmente como novela, “A Pane” vira peça de teatro depois que Dürrenmatt faz uma pesquisa sobre os julgamentos dos crimes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) na Europa. 

A história se passa num vilarejo onde um caixeiro viajante, Alfredo Traps, homem comum, se vê obrigado a passar a noite por causa de uma pane no seu carro. Na falta de uma hospedaria, o rapaz aceita o convite para pernoitar na casa de um ex-juiz, que naquela noite oferecia um jantar para amigos, todos ex-profissionais de Direito aposentados.

No encontro, regado a muito vinho e lauto banquete, os veteranos convidam Alfredo Traps a participar de um jogo, para que eles possam exercitar suas antigas funções na Justiça. Cada um representa um personagem nesse tribunal imaginário. O rapaz aceita o papel de réu e é lançado numa trama jurídica que envolve temas como poder, sexo, corrupção, desvios morais e éticos. Durante a longa noite, o jovem embriagado pelo vinho, pelo banquete  e pelas sustentações dos membros do simulacro de tribunal, é persuadido pelos “senhores da lei” a confessar-se e acreditar-se um assassino e merecedor da pena de morte. 

O texto nos leva à reflexão sobre a fragilidade de algumas decisões judiciais e, fatalmente, nos remete a algo do nosso passado recente: à farsa do julgamento do caso “triplex do Guarujá”, que resultou na condenação e na prisão por mais de um ano do ex-presidente Lula. As circunstâncias do julgamento e a condição de suspeição do julgador, posteriormente expostas e reconhecidas pelo STF, tornam essa associação inevitável.

Essa é a função da literatura e da arte, promover o pensamento crítico, despertar a formação da consciência social e histórica. Arte e literatura são agentes emancipadores do ser humano. E esse papel, a peça “A Pane” exerce com louvor. 

“A Pane” está em cartaz no Teatro FAAP  (rua Alagoas, 903, em Higienópolis, São Paulo), com sessões às sextas, às 21h; sábados, às 20h; e domingos, às 18h. Informações e televenda: (11) 3662-7233 ou (11) 3662-7234

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

Cortes 247