Um dia na vida de Dona Severina

A discussão ficou amistosa, acabou em algumas risadas e eu comecei a conversar com a vendedora. Perguntei seu nome e de onde ela era, "Severina, sou do interior do Piauí"

Tem uma história que eu adoro, já repeti no meu Facebook umas trocentas vezes e esses vazamentos da lava-jato me fizeram relembrá-la com força. No entorno da Cinelândia, ali entre as ruas Pedro Lessa e Santa Luzia, havia uma senhora que tinha um carrinho de alumínio vendendo um glorioso Angu à Baiana, e também sua variação suína, o Sarapatel.  

Nada de "Food Truck' ou "Comida Di Buteco", ali no meio da poeira e das buzinas, os populares recorrem mesmo é ao "Caminhão de Comida", e o único Di que o cara fica ligado são nos Dimenó batendo carteira.  

Pois bem, eu estava com fome só que não ao ponto de mandar um angu pra dentro naquele calor de 38°C, mas avistei essa senhora discutindo muito alto com um cliente e falando "o senhor não fale mal do meu marido", achei aquela cena curiosa e decidi comprar uma tigelinha de Sarapatel só para acompanhar de perto a confusão.  

A discussão ficou amistosa, acabou em algumas risadas e eu comecei a conversar com a vendedora. Perguntei seu nome e de onde ela era, "Severina, sou do interior do Piauí".  Dona Severina me contara que tinha 50 e poucos anos (não lembro a idade exata) - porém aparentava mais - havia chegado no Rio de Janeiro nos anos 80 fugindo da miséria, já com uma menina no colo e outra no bucho, pois como Belchior nos ensinou, "o que pesa no Norte, pela lei da gravidade, disso Newton já sabia: cai no Sul, grande cidade".  

No Rio, ela foi morar na favela do Parque União e logo se enroscou com outro cabra, teve mais uma filha, na mesma época sua filha mais velha, porém ainda adolescente, engravidou também. "Duas gestantes dentro de um mesmo barraco, pensa que loucura menino?", dizia e ria. Logo, além de criar os filhos, agora dona Severina teria mais uma boca pra alimentar, a do neto. 

Quando o seu neto fez 10 anos, ela engravidou mais uma vez, dessa vez de um menino, o pai era "um pernambucano gostoso que eu conheci num forró da Penha e nunca mais vi na vida". Ainda brinquei com ela, "xiii dona Severina, foi cair no folclore do Boto Rosa da amazônia em pleno Rio de Janeiro?".  

Nesse entremeio, ela me contou, "conheceu vários homens", confiou em muitos, colocou quase todos dentro da sua casa, "um barraquinho, mas que construí com suor, com muito trabalho, e é limpo, porque ser pobre não é desculpa para ser porco", porém ela nunca mais se juntaria com homem nenhum pois, "homem não presta, eu nunca mais boto macho dentro de casa, eles bebem, roubam meu dinheiro, e um safado já tentou agarrar minha filha a força". 

Tentei argumentar e falei assim, "ué? mas a senhora não estava discutindo com um cara minutos atrás, falando pra que ele não falasse mal do seu marido?", e dona Severina foi incisiva:  "Então meu filho, depois de tantas pancadas nessa vida, Dona Marisa que me perdoe, mas eu decidi que daqui pra frente sou casada é com Lula, sou fiel, não traio, não troco, e o meu papel passado é o diploma de faculdade da minha filha mais moça".  Não tentei argumentar mais, afinal, uma senhora maravilhosa daquelas merecia viver a sua própria verdade, e ninguém tinha nada com isso.

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