Um dilema para o PT: se as diretas não passam, o que fazer?

"O 6º. Congresso Nacional do PT que começa hoje em Brasília também foi atropelado pela conjuntura de aguda incerteza trazida pela delação da JBS, que transformou Michel Temer num presidente zumbi. Destinado a renovar a direção partidária e fixar balizas para o reencontro com seu projeto original, depois dos desvãos em que caiu após chegar ao poder, o congresso do PT será também forçado a discutir a posição que o partido tomará caso venha mesmo a ocorrer a eleição indireta do substituto de Temer", diz a colunista do 247 Tereza Cruvinel; "Lula já mandou recado: O PT deve ficar fora deste acordão das elites. Mesmo assim, os mais 'pragmáticos' seguem conversando com os governistas sobre o assunto e acham que, não havendo diretas, o PT se isolaria se ficasse fora das negociações"

Luiz Inácio Lula da Silva
Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Tereza Cruvinel)

O 6º Congresso Nacional do PT, que começa hoje em Brasília, também foi atropelado pela conjuntura de aguda incerteza trazida pela delação da JBS, que transformou Michel Temer num presidente zumbi. Destinado a renovar a direção partidária e fixar balizas  para o reencontro com seu projeto original, depois dos desvãos em que caiu após chegar ao poder, o congresso do PT será também forçado a discutir a posição que o partido tomará caso venha mesmo a ocorrer a eleição indireta do substituto de Temer. Lula já mandou recado: O PT deve ficar fora deste acordão das elites. Mesmo assim, os mais “pragmáticos” seguem conversando com os governistas sobre o assunto e acham que, não havendo diretas, o PT se isolaria se ficasse fora das negociações.

A queda de Temer virá, mais dia, menos dia. As articulações para a eleição indireta do substituto avançam no Congresso e uma parte da oposição, para além do PT, já discute com os atuais governistas sua participação na suposta eleição, o que ajudaria a legitimar o processo. A chapa Rodrigo Maia-Aldo Rebelo chegou mesmo a ser cogitada no encontro havido na terça-feira na casa do líder do PDT, Weverton Rocha, do qual participaram representantes do PDT, PSB e PC do B. Aos petistas, Lula mandou um recado claro esta semana: O PT não deve participar de convescotes e acordos para eleição indireta. O PT não deve legitimar nenhum colégio eleitoral. O PT deve insistir na aprovação da emenda pelas eleições diretas e apoiar decididamente os atos pró-diretas.

Apesar do recado de Lula, posições distintas convivem nas bancadas  do PT. Os mais próximos de Lula fincam pé nas diretas, a exemplo da líder no Senado, Gleisi Hoffmann, e do senador Lindbergh Farias, que  foi o relator da emenda do senador José Antonio Reguffe aprovada ontem na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Estes petistas, bem como os integrantes da Frente Parlamentar Mista pelas Diretas, filiados a outros partidos de esquerda, acham que ainda há tempo para a emenda avançar. Avaliam que, quando mais Temer durar no cargo, expondo as misérias de seu governo e realizando manobras cínicas para sobreviver,  mais força irá ganhando o movimento na sociedade.

Mas existem os pragmáticos,  que mesmo defendendo as diretas publicamente, admitem que a  correlação de forças não promete um grande movimento de massas com força bastante para dobrar a maioria do Congresso e sensibilizar o próprio STF, que teria de chanceler a mudança da regra sem observância do prazo prévio de um ano.  E por isso, acham que o PT deve dialogar com as outras forças políticos sobre a sucessão indireta de Temer, como vem fazendo, inclusive, o líder da bancada na Câmara, Carlos Zaratini. Ele tem conversado com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e com outros governistas sobre a hipótese da eleição indireta. Excluindo-se das negociações, dizem os pragmáticos, o PT estará isolado e enfraquecido no pós-Temer.

De algum modo, o PT está novamente na sinuca de bico que enfrentou em 1985, quando se recusou a participar do Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo e Sarney para encerrar a ditadura com um grande de elites.  Alguns votaram em Tancredo, acreditando que esta era a obrigação dos democratas. Foram expulsos.  Até hoje o PT paga por aquela decisão, assim como pela de não assinar o texto constitucional de 1988.

Rodrigo Maia segue defendendo a permanência de Temer no cargo mas hoje ele é, como dizem alguns deputados, “o Temer do Temer”. Ou seja, está no papel que Temer ocupava em relação a Dilma. Embora ele não herde o governo, em caso de afastamento, como ocorreu com Temer após o golpe do impeachment,  Maia seria o maior beneficiário: ocuparia interinamente a presidência e levaria vantagem sobre outros candidatos à eleição indireta, disputando no cargo.

As apostas sobre a fórmula de remoção de Temer agora se deslocaram um pouco, do TSE para o próprio STF. No TSE, o processo pode alongar-se muito com as manobras e pedidas de vistas, estando Temer disposto a cometer todas as chicanas para ficar no cargo. Já o STF, em breve, vai lidar com a situação nunca antes ocorrida, de receber uma denúncia do procurador-geral da República contra um presidente no cargo.  Se aceitar a denúncia, terá que afastar imediatamente Temer, como fez com Eduardo Cunha. Não aceitar será um suicídio histórico para uma suprema corte que já carrega o estigma de ter se omitido diante de um golpe parlamentar sob a forma de impeachment com desvio 

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