Um engodo chamado Rodrigo Maia

Eric Nepomuceno, do Jornalistas pela Democracia, comenta as recentes críticas de Maia a Bolsonaro: "Esse inesperado ataque de lucidez e contundência política apenas confirmam que Rodrigo Maia, no fundo e na superfície, não passa de um tremendo engodo"

Maia e Bolsonaro em evento no Palácio do Planalto Palace 17/6/2020
Maia e Bolsonaro em evento no Palácio do Planalto Palace 17/6/2020 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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Por Eric Nepomuceno, do Jornalistas pela Democracia

Com a mão direita na maçaneta da porta de saída, o ainda presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia, resolveu partir com quase tudo para cima de Jair Messias.

Chamou o Ogro que habita o Palácio da Alvorada de covarde e irresponsável. Disse também que ele tem culpa pela montanha de vidas perdidas na pandemia. Criticou o negacionismo presidencial. Não há como discutir: pela primeira e única vez na vida, concordo plenamente com ele. Aliás, é também a primeira vez que o rechonchudo deputado se lança de forma tão contundente contra o Ogro.

Ainda assim, foi um tanto frouxo e por isso o “quase tudo”. As palavras não levam a lugar nenhum. Cadê a abertura de um, um único dos pedidos de processo de impeachment?

Vamos lá: em declarações ao jornal Folha de S.Paulo, Rodrigo Maia deixa clara sua tentativa de parecer duro contra o Ogro. Disse, textualmente: “Não podemos mais aceitar um ministro que não entende de saúde e um presidente irresponsável que nega o vírus”.

E foi adiante, sempre segundo a Folha: “Todos estamos cansados disso, desse negacionismo e dessa irresponsabilidade. Está na hora de uma reação forte de todos nós, brasileiros, contra a irresponsabilidade do governo”.

Pois bem: faz muito tempo que é inaceitável, e faz muito tempo que passou da hora da tal reação forte e necessária. Muito tempo e dezenas e dezenas de milhares de vidas perdidas na pandemia. E um dos que deveriam ter se levantado contra essa tragédia é precisamente Rodrigo Maia, que ao se negar a abrir um – e apenas um – das dúzias de pedidos de abertura de impeachment que repousam em sua gaveta se tornou cúmplice do Aprendiz de Genocida. Disse ele, há meses, que não havia “clima político” para levar adiante um processo de destituição. E tudo indica que fosse verdade: afinal, padecemos não apenas o pior governo da história da República mas também o pior Congresso em muitas décadas. 

Ao longo dos últimos meses, porém, o ambiente mudou pelo menos o suficiente para que o debate fosse aberto. Maia diz que, além de continuar a não haver “ambiente político”, abrir agora um dos mais de 60 pedidos de impeachment poderia ser considerado um gesto de oportunismo. Ora, oportunismo é, na hora da saída, lançar críticas duras que deveriam ter sido lançadas lá atrás. Esse inesperado ataque de lucidez e contundência política apenas confirmam que Rodrigo Maia, no fundo e na superfície, não passa de um tremendo engodo. E, como quase todos os engodos, oportunista. Jair Messias, por sua vez, e por isso mesmo, sabe dar mostras da sua segurança. Falando ao bando de fanáticos arrebatados sabe-se lá aonde e que se concentra na porta do Alvorada para aplaudir o sociopata, disse com um sorriso nervoso: “Daqui, só Papai do Céu me tira”.

Maia parece concordar.

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