Um espectro ronda das Américas

É possível que o espectro acima mencionado nada tenha a ver com o diretor da Companhia, interessado somente em respirar um pouco do ar tropical. Quem sabe, depois de tanto sofrer enquanto latino-americanos não nos caiba um pouco de autonomia para escolher dirigentes educados, corretos e posicionados em favor dos nossos reais interesses



Não vivemos, nas Américas, numa região fácil. Talvez por causa do nosso passado sombrio, de extermínio de indígenas e de escravidão dos africanos (uma das façanhas mais cruéis de todos os tempos), temos permanentemente a sensação de que, de Norte a Sul, caminhamos sobre o fio da navalha. Em função da revolução norte-americana, aceitamos o mito da democracia como uma conquista a consolidar, não obstante, ao contrário, nos vejamos num presente de ameaças constantes. De fato, os Estados Unidos, desde o século XVIII, dão a impressão de haver escolhido um bom regime para gerir os seus problemas. Enquanto modelo para os demais, no entanto, nem sempre se ajusta às nossas expectativas. E mesmo lá, como se viu nas eleições de Joe Biden, com a invasão do Capitólio, enveredou por um risco sério de instabilidade política. 

A famosa frase de Marx prenunciava convulsões que emancipariam o proletariado. No nosso caso, o espectro que nos aflige diz respeito, antes, a subversões sistêmicas, com quarteladas e golpes de estado como em 64, aqui e no restante do Continente. É verdade que, com a queda de Dilma Rousseff atravessamos períodos de maus presságios, alguns consistentes com o desenrolar dos acontecimentos, sobretudo depois da eleição de Jair Bolsonaro e sua militarização na administração pública, além do gosto que demonstra por armamentos e medidas de força. O Ministro Celso Amorim talvez esteja com a razão quando afirma que a CIA, quando age, não aparece. Ela acaba de aparecer em visita de seu Diretor, William Burns, ao Palácio do Planalto. Ali viu e cumprimentou um número de autoridades, incluindo dois generais, o Heleno e o Ramos, e o Presidente.

No momento em que a América Latina passa por eleições que anunciam mudanças (como na Argentina, na Bolívia, no Chile, com a Constituinte, e no Peru), o Sr. Burns em Brasília não representa uma silhueta tranquilizadora. Lembremos que em 64, a articulação militar que derrubou João Goulart, contou com a participação e o aconselhamento do então embaixador Lincoln Gordon, cujo nome, por causa disso, era pronunciado nos bares da cidade no Rio de Janeiro com a ironia: “Não precisamos de intermediários! Lincoln Gordon para Presidente!”. Era a nossa soberania que escorria pelos ralos. Esperemos que não seja o caso e que o Sr. Burns não esquente por muito tempo os assentos na Capital Federal. É certo, no entanto, que, embora admirador de Trump, Bolsonaro revelou inúmeras vezes suas inclinações mais amplas em favor de nossos irmãos do norte. 

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É possível que o espectro acima mencionado nada tenha a ver com o diretor da Companhia, interessado somente em respirar um pouco do ar tropical. Quem sabe, depois de tanto sofrer enquanto latino-americanos não nos caiba um pouco de autonomia para escolher dirigentes educados, corretos e posicionados em favor dos nossos reais interesses. Eleições manipuladas já conhecemos para lá do aceitável, para não falar de famílias de 01, 02, 03, 04, 05, ávidas por, no poder, colher duas ou três casquinhas e acumular prestígio. Por falar nisso, as enormes manifestações contra o governo têm explicitado a bússola para onde queremos navegar. Cidadãos mais ousados experimentam o grito atravessado na garganta, a ponto de se ouvir: “Chega de arbitrariedade! Exigimos nossa História de volta!”. Pois então (que os espectros nos ajudem!), até breve.

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