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Jairo Cabral

Mestre em História pela Unicap e ex-diretor da Ceroula de Olinda

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Um filme, uma camisa e o carnaval da Pitombeira dos Quatro Cantos

A força magnetizante do filme O Agente Secreto, além de sacudir a consciência nacional, reenergiza a cultura brasileira em suas múltiplas faces

Cena do filme "O Agente Secreto" (Foto: Divulgação/Vitrine Filmes)

O aclamado filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, protagonizado por Wagner Moura e maravilhoso elenco, faz história brasileira, valorizando a cultura nordestina, com toques precisos de universalidade. Ambientado no período da ditadura civil-militar, durante a semana do carnaval de 1977, é um grito de alerta contra o apagamento da memória coletiva de um povo. Enfatiza também, a importância de combater o esquecimento, principalmente mediante tentativas golpistas de restaurar um passado nefasto.

A força magnetizante do filme, além de sacudir a consciência nacional, reenergiza a cultura brasileira em suas múltiplas faces. O carnaval, a maior manifestação popular do país, profundamente enraizado em Olinda e Recife, tem destaque especial. Constam na trilha sonora do filme o frevo de rua Esquenta Mulher, de Nelson Ferreira, o hino da Troça Cariri Olindense e o antológico frevo de rua, Cabelo de Fogo, do Maestro José Nunes de Souza. Pela ótica carnavalesca, uma das cenas icônicas transcorre quando o personagem Marcelo-Armando, surge na tela com a camisa amarela e preta da gloriosa Pitombeira dos Quatro Cantos. A cena despertou paixões adormecidas, desencadeou uma onda enorme de pertencimento, atraiu a juventude, encheu de orgulho a nação pitombeirense e o carnaval de Pernambuco.

A Pitombeira dos Quatro Cantos, fundada em 17 de fevereiro de 1947, tem uma origem curiosa. Um grupo de jovens foliões do bairro do Amparo e adjacências, brincava despretensiosamente pelas ruas da cidade, quando avistou galhos de pitomba amontoados numa calçada. Movidos a bate-bate, bebida alcoólica bastante consumida à época, resolveu prosseguir com a brincadeira carregando os galhos de pitomba como adereço. Essa atitude, considerada irreverente para os padrões até então vigentes, é uma das marcas da Pitombeira, assinalada no hino composto por Alex Caldas em 1950 e que permanece até hoje.

O apogeu dos carnavais pitombeirenses se deu nos anos 1970, até meados dos anos 1980. Os belos figurinos temáticos desenhados pelo cenógrafo Carlos Ivan, os carros alegóricos bem decorados e as fantasias exuberantes que concorriam no baile municipal do Recife, faziam da Pitombeira a maior e mais popular atração do carnaval olindense. A afiada orquestra de metais formada por grandes músicos, conduzia o enorme cortejo pelas ladeiras da cidade, entoando o buliçoso hino da agremiação:

Nós somos da Pitombeira nós brincamos muito mais se a turma não saísse não havia carnaval.
Bate-bate com doce eu também quero eu também quero eu também quero.
A turma da Pitombeira tem seis dedos em cada mão e o P que tem na testa faz parte da confusão. Bate-bate com doce eu também quero...
Pitombeira só tem dez letras e uma significação pitomba é fruta besta se compra com qualquer tostão.
Bate-bate com doce eu também quero...
A turma da Pitombeira na cachaça é a maior o doce é sem igual como ponche é o ideal se a turma não saísse não havia carnaval.

A histórica Pitombeira, que em 2027 completará 80 anos, ao longo da sua trajetória enriqueceu, com imenso brilhantismo e perseverança, o carnaval da velha e charmosa Marim dos Caetés. Este ano, com muito frevo no pé, o carnaval esplendoroso da Pitombeira – DOS QUATRO CANTOS PARA O MUNDO - vai vestir Olinda de amarelo e preto. Será que Wagner Moura e Kleber Mendonça, fantasiados de Agente Secreto, vêm fazer o passo com a turma da Pitombeira? Tânia Maria, a Dona Sebastiana do Edifício Ofir, a Senhora tem a resposta?

Seja bem-vindo seu Oscar!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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