Um guarda-chuva francês em Zagreb

Bem, finda a nossa estadia em Paris, pegamos um voo no Aeroporto de Orly com destino a Zagreb. A companhia era a Lufthansa e a aeronave era (orgulho de ser brasileiro!) da Embraer

Um guarda-chuva francês em Zagreb
Um guarda-chuva francês em Zagreb

Quer saber? Estou feliz com a vitória da Croácia sobre a Rússia e sua classificação para as semifinais da Copa. E torço por uma final contra a França. 

Em 2010, Mariana Bezerra e eu, depois de ter passado uma semana em Paris, passamos outra semana em Zagreb. Tudo, diga-se en passant, com passagens e hospedagem por conta dos festivais nos quais Elvis e Madona participou. E tivemos um grato choque cultural. 

É notório, quase um clichê, que o típico parisiense é um sujeito que acorda todos os dias com a avó atrás do toco. Isto não é de todo verdade, mas tem seu fundamento. O nível de paciência do parisiense com o idioma, por exemplo, é quase zero. Falar em inglês, então, nem pensar. Mesmo que domine fluentemente o idioma do rival histórico, o parisiense acha um insulto não falar sua língua natal em sua própria cidade. Contudo, de oui em oui, com as mágicas excusez-moi, s'il vous plaît e merci - e alguns três bien e d'accord para florear - a gente acabava se entendendo. Comer suã faz suar et vive la France! 

Nossa rotina nesses dias de Paris, entre as várias agendas do Festival, era acordar cedo, flanar e flanar. Museus, praças, um panini com coca-cola que custava 5 euros na carrocinha cujo dono era sempre sírio ou libanês, igrejas, um café au lait em alguma varanda de Trocadero (quem não gosta de um café numa esquina de Paris?), brechós e antiquários só para olhar, e, ao fechar o dia, um jantar de 35 euros no Quartier Latin com direito a uma taça de vinho da casa. 

Como o nosso quarto de hotel era provido de um pequeno frigobar (não é redundância, não: o frigobar era realmente pequeno, parecia uma caixa de sapatos refrigerada), compramos guloseimas, pães, biscoitos e frios diversos para não gastar comendo na rua. Mesmo assim, nossa despesa total em Paris passou dos 700 euros, o que foi uma fortuna para a nossa condição de baixo orçamento, totalmente coerente com o filme que representávamos. Ah, pra piorar, começou uma temporada de chuvas e fomos obrigados a comprar um guarda-chuva que custou extravagantes 25 euros. Infelizmente, a rede carioca de vendedores ambulantes da chuva não tinha filial em Paris. Espero que já tenha. Caso contrário, fica a dica. 

Bem, finda a nossa estadia em Paris, pegamos um voo no Aeroporto de Orly com destino a Zagreb. A companhia era a Lufthansa e a aeronave era (orgulho de ser brasileiro!) da Embraer.

 Chegando a Zagreb,  o agente alfandegário pegou nossos passaportes e ali começou o choque cultural. O camarada olhou o passaporte de Mariana e conferiu se a foto era mesmo dela. Fez o mesmo com o meu e simplesmente nos devolveu os documentos dizendo: You are very welcome to Croatia. 

Eu fiquei muito decepcionado e retruquei no inglês que deus me deu: “Meu irmão. Você não vai carimbar nossos passaportes, não? Você vai quebrar a minha coleção de carimbos de passaporte?”. Ele sorriu e respondeu: “Não precisa carimbar. Vocês já estão na Europa”. Então tá, então, né? 

Enfim, estávamos na Croácia, em Zagreb. Lá encontramos um povo carinhoso, feliz e sorridente quando necessário. Também perambulamos pela cidade - bem menor do que Paris, é claro - e vimos uma mescla de arquitetura medieval e contemporânea muito prazerosa ao nosso olhar. Mas também vimos várias edificações com marcas de tiros de metralhadoras, morteiros e bazucas, bem como ruínas preservadas como memória da recente guerra de independência que o país tinha enfrentado contra as tropas sérvias de Slobodan Milosevic. Fomos informados que, havia apenas 15 anos, a cidade quase fora totalmente destruída, tal como Varsóvia foi em 1944. 

Tudo em Zagreb era muito barato, bem mais barato do que no Rio de Janeiro. A amiga querida e saudosa Suzy Capó, que também estava no mesmo Festival de Zagreb, nos levou para almoçar num restaurante chiquíssimo, onde nos fartamos de Risotto Nero, prato feito com tinta de polvo, e bebemos duas garrafas de um bom vinho branco, tudo por cerca de 10 euros por pessoa. 

Andando pelas vielas medievais do centro de Zagreb, Mariana encontrou uma lojinha de bijuterias que vendia brincos, pulseiras e afins, tudo custando 30 ou 40 centavos de euro.  Essa foi a fonte de presentes para aniversários de avós, mães, tias, irmãs, primas e amigas ao longo do ano, pois, com 6 ou 7 euros, e depois de quase duas horas de seleção com uma simpática vendedora, Mariana comprou mais de 20 lembrancinhas. 

Mais tarde, já de noite, andando pela zona boêmia da cidade, eis que a tal vendedora nos reconhece e nos convida para tomar uma cerveja com sua turma. E fomos lá nós, e nos divertimos muito com a mútua curiosidade dos povos, conversando desde a colonização romana da região até a explicação do que era o Carnaval no Brasil. Tomamos umas 4 ou 5 canecas de uma ótima cerveja artesanal, a qual não sei o preço, porque o grupo de novos amigos croatas não deixou que dividíssemos a conta, mas estou certo de que nossa parte foi bem maior do que o gasto com as bijuterias. 

E o tal guarda-chuva francês, que imaginávamos seria um estorvo na bagagem, também foi muito útil em Zagreb. É ele quem aparece neste vídeo gravado por Mariana com seu celular.

 Por tudo isso, na Copa da Rússia, agora eu sou Croácia, e – repito – torço por uma final contra a França. 

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