Um monumento não cai sozinho — leva consigo a mão que o construiu
Guerra dos EUA, Israel e Irã avança sobre centros científicos e patrimônios históricos, transformando cada ataque em perda definitiva de conhecimento
O ataque a instalações científicas e os danos a patrimônios históricos no Irã deslocam a guerra para um território mais grave: o da capacidade de sobrevivência de uma sociedade — e daquilo que ela construiu, acumulou e preservou ao longo de gerações.
Em Teerã, o Instituto Pasteur do Irã — fundado em 1920 a partir de cooperação científica entre França e Irã — sofreu impactos diretos em laboratórios de microbiologia, áreas de armazenamento de cepas e estruturas críticas de pesquisa. Técnicos locais relatam destruição parcial de equipamentos de sequenciamento genético, danos a freezers de ultrabaixa temperatura — onde amostras são preservadas por décadas — e interrupção de projetos ligados a doenças infecciosas como raiva, tuberculose e hepatites virais.
Não é uma perda administrativa. É uma ruptura de continuidade científica. Em termos comparativos mais precisos, equivale a comprometer setores históricos do Instituto Butantan, responsável por vacinas que sustentam campanhas nacionais, ou atingir unidades centrais do Robert Koch Institute, que coordena a vigilância epidemiológica de um país inteiro. A consequência não se mede apenas em escombros, mas em anos — às vezes décadas — de conhecimento interrompido, protocolos desfeitos e respostas sanitárias enfraquecidas.
Em Isfahan, os danos atingem outra dimensão da perda — aquela que não se recompõe. O Palácio Ali Qapu, construído no século XVII sob o xá Abbas I, sofreu avarias em estruturas internas delicadas, incluindo madeira entalhada, estuques ornamentais e a célebre sala de música, cujos nichos acústicos foram projetados para amplificar sons sem tecnologia moderna.
Parte do complexo da Praça Naqsh-e Jahan, reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO, o edifício não é apenas um símbolo nacional — é um testemunho material de um tempo histórico que não pode ser reproduzido. Comparativamente, seria como registrar danos internos na Capela Sistina ou em áreas sensíveis do Museu do Louvre.
Mas há uma diferença decisiva: certas perdas não admitem restauração verdadeira. Pode-se reconstruir a estrutura, recompor volumes, imitar formas. O que não retorna é a autenticidade — porque não tem mais a mão que fez. E o povo iraniano experimenta, nestas 48 horas, angústia próxima à dos bahá’ís ao lembrar locais históricos e sagrados destruídos por fanatismo em Teerã, Shiraz e outras cidades.
O conflito, no entanto, não se limita a um lado da linha de frente. Em Israel, ataques com mísseis e drones atingiram áreas urbanas e infraestrutura estratégica, deixando mais de 400 mortos e milhares de feridos nas últimas semanas, além de danos significativos a sistemas energéticos e residenciais, especialmente no norte do país.
Em paralelo, bases militares norte-americanas na região — incluindo instalações no Golfo e no Iraque — foram alvo de ataques indiretos, ampliando o risco de envolvimento direto dos Estados Unidos. O teatro de operações já não distingue com clareza entre centros civis, estruturas militares e espaços simbólicos.
Os números ajudam a retirar o debate do terreno da abstração. Desde o final de fevereiro de 2026, estimativas de agências humanitárias indicam mais de 2.300 mortos no Irã e cerca de 24 mil feridos. No Líbano, os registros apontam aproximadamente 1.350 mortos e mais de 1 milhão de deslocados internos.
Em Israel, além das vítimas fatais, dezenas de milhares de pessoas vivem sob deslocamento temporário ou em zonas de risco permanente. São números ainda provisórios — e, justamente por isso, reveladores: continuam crescendo e ampliando o alcance humano da tragédia.
No plano político, a resposta internacional revela mais fricção do que direção. Em 25 de março de 2026, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a guerra havia ultrapassado limites considerados improváveis até por seus próprios protagonistas.
No mesmo dia, anunciou a nomeação do diplomata francês Jean Arnault como seu Enviado Pessoal para o conflito. Nascido em 1951, Arnault traz consigo décadas de experiência em negociações multilaterais, incluindo processos na América Latina e missões recentes ligadas ao Afeganistão.
Sua tarefa não é simbólica: é tentar restabelecer a interlocução onde hoje predomina a lógica da força.
Há ainda um vetor que conecta diretamente o campo de batalha à vida cotidiana global. O Estreito de Ormuz — responsável por cerca de 20% do petróleo transportado no mundo — tornou-se um ponto de estrangulamento energético.
A instabilidade já pressiona preços, amplia riscos inflacionários e afeta cadeias produtivas, incluindo fertilizantes nitrogenados essenciais à agricultura. A consequência é direta: interrupções logísticas agora se traduzem em insegurança alimentar nos próximos ciclos agrícolas. Em muitas partes do planeta está chegando o ciclo do plantio.
Nesse contexto, a frase de Guterres — “a guerra não é a resposta” — não pode ser tratada como consigna vazia. Ela descreve um padrão verificável: cada avanço militar amplia o alcance do dano, desloca populações, compromete sistemas de saúde e fragiliza economias inteiras.
O que eu vejo, portanto, não é apenas uma escalada. Vejo a perda de referências mínimas que historicamente limitavam a guerra. E vejo algo ainda mais difícil de reparar: quando um laboratório científico é atingido, perde-se a capacidade de proteger vidas; quando um patrimônio histórico é danificado, perde-se uma parte insubstituível da experiência humana.
Edificações podem ser reconstruídas. Infraestruturas podem ser refeitas. Mas certas perdas não têm substituto, não têm réplica, não têm retorno. Porque não tem mais a mão que fez.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
