Um sinal de que a democracia está escorrendo entre os nossos dedos

"O medo da não realização das eleições em 2022 já representa um sinal de que a democracia está escorrendo entre os nossos dedos", escreve Marco Mondaini

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(Foto: ABr | Jefferson Rudy/Agência Senado)


Por Marco Mondaini

Cada novo arroubo autoritário de Jair Bolsonaro – como o de publicar o decreto presidencial de concessão de graça ao deputado federal Daniel Silveira no Dia de Tiradentes – vem sendo acompanhado imediatamente por um sentimento de temor da parte daqueles que se situam no campo democrático do espectro político quanto à possibilidade de não ocorrerem as eleições do próximo 2 de outubro.

Não tenho dúvidas em relação à veracidade de tal sentimento, muito pelo contrário, mas o que me chama a atenção é o fato dele expressar algo mais profundo e preocupante, a saber, a constatação de não mais estarmos vivendo num Estado Democrático de Direito, no qual tem-se a certeza de que de quatro em quatro anos teremos eleições voltadas à manutenção ou mudança dos governantes escolhidos nas eleições anteriores.

Dito de outra maneira, quando a confiança de que o calendário eleitoral fixado será efetivamente realizado cede ao medo de que o mesmo pode não ser efetivado, seja qual for a razão para isso, é sinal de que as regras do jogo democrático, das quais falava o filósofo italiano Norberto Bobbio, não são mais respeitadas, ou seja, de que os procedimentos democráticos não se constituem mais como um consenso.

É indubitável que a raiz da quebra de tal consenso procedimental está localizada no golpe de 2016, o que parece ser uma relação dificilmente questionável. No entanto, não restam dúvidas também de que Bolsonaro jogou o país numa aventura fascistizante que tem seu rumo traçado desde março de 2019, quando afirmou num jantar com lideranças conservadoras em Washington que seria preciso “desconstruir muita coisa” no Brasil.

Todos sabemos que, desde 2019, o país vem sendo desconstruindo à velocidade de cruzeiro, nada escapando da sua sanha autoritária e entreguista, mas talvez ainda não tenhamos nos dado conta do fato de que alimentar o temor de que as eleições de 2 de outubro não venham a ocorrer já sinaliza uma vitória de um campo político que se alimenta da difusão do medo. Foi assim nas décadas de 1920 e 1930 e se repete nos dias de hoje.

Em poucas palavras, o medo da não realização das eleições em 2022 já representa um sinal de que a democracia está escorrendo entre os nossos dedos.

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