Uma bela cagada

Protestos históricos contra o racismo, foram pontuados com frases e outros gestos, que ficaram imortalizados na história da luta por igualdade racial. Assim como os punhos cerrados dos atletas norte americanos, Tommie Smith e Jonh Carlos, no alto do pódio, ao receberem suas medalhas nos jogos olímpicos do México, em 1968.  Usar "Black is Beautiful" para limpar a bunda da atriz branca e ruiva, foi, no mínimo, uma bela cagada

Racismo
Racismo (Foto: Nêggo Tom)

Inúmeras canções foram imortalizadas na voz de Elis Regina. Dentre elas, "Black is Beautiful", composição de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, cujos versos diz: "Eu quero um homem de cor. Um deus negro, do congo ou daqui." A música foi gravada em 1971, e o título da canção remete ao slogan do movimento negro americano, mais ativo do que nunca na década de 1960. 

O "Black is Beautiful" ideológico, se fez um movimento cultural que tinha por objetivo, eliminar a ideia presente nem muitas culturas - principalmente na  cultura européia - de que as características naturais aos negros, eram inerentemente feias e fora dos padrões estéticos de beleza. O movimento encorajou homens e mulheres negros, a aceitarem suas características, sem tentar eliminá-las ou disfarçá-las. O cabelo "black power" foi um bom exemplo disso. 

Mas vamos a polêmica da vez, afinal, é ela o tema desse artigo. A marca de papel higiênico "Personal", resolveu lançar uma versão do produto na cor preta. O "Vip Black". Até aí, tudo bem! O desatino da ideia se configura no momento em que o publicitário responsável pela campanha, decide usar na peça publicitária, uma atriz branca - a bonita e talentosa, Marina Ruy Barbosa, que não tem nada a ver com a ignorância cultural de seus contratantes - e o mesmo slogan adotado pelo movimento negro americano. Não sei se foi falta de conhecimento histórico ou vontade de ser o primeiro a fazer uso do novo papel higiênico.

Suponhamos que uma organização terrorista decida criar uma propaganda, cujo o slogan é "Igualdade, liberdade e fraternidade", para lançar a sua mais nova e potente bomba, que será usada no próximo ataque a França. Nada provocativo ou imprudente, né? Talvez eu tenha sido mais radical do que um extremista islâmico usando esse comparativo, mas a falta de sensibilidade do responsável pela campanha, não fica por menos. Aliás, a ausência de negros no mercado publicitário, é um dos motivos que facilitam essa "insensibilidade" e permite que campanhas iguais a essa, possam ir ao ar, sem que alguém sugira uma revisão antes. Um preto na equipe, poderia ter alertado quanto ao desastre de usar o slogan de um movimento histórico e libertário, para divulgar um produto usado para limpar a bunda. 

Eu acho que a peça exibida não pode ser classificada como racista. O que já aborta a ideia de qualquer tipo de boicote a marca. Não é para tanto. Também não há problema algum com a cor do papel, a não ser o fato de que o papel branco, nos dá a garantia de uma melhor higiene. Pelo menos do ponto de vista visual. Imprudentes foram as frases utilizadas na campanha. Expressões como: "Black é único", "Black é ousado", "Black é elegante", podem ser consideradas verbetes de "Black is Beautiful" e são frases que simbolizaram liberdade, afirmação, resistência e empoderamento negro, diante da supremacia branca institucionalizada nos EUA. Poderíamos até interpretar como provocação, mas quero crer que tenha sido apenas alienação mesmo. 

Protestos históricos contra o racismo, foram pontuados com frases e outros gestos, que ficaram imortalizados na história da luta por igualdade racial. Assim como os punhos cerrados dos atletas norte americanos, Tommie Smith e Jonh Carlos, no alto do pódio, ao receberem suas medalhas nos jogos olímpicos do México, em 1968.  Usar "Black is Beautiful" para limpar a bunda da atriz branca e ruiva, foi, no mínimo, uma bela cagada.

Alfredo? Traz um "Neve" aí! 

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