Uma cabeça em dificuldades

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Existem pensamentos e ideias sábios, geniais, maravilhosos, sedutores e únicos. São manifestações que simplesmente encantam a humanidade, deslumbram por sua lógica, poesia ou razão.

Há outros que são ‘comuns’. E há, ainda, os que são ‘apenas’ errados e desastrosos. Defeituosos, invertidos, resultantes não da inteligência, mas de seu avesso ontológico.

Um dos erros num pensamento haverá quando certa lógica objetiva, razão ou princípio de uma dada atividade, profissão ou ciência se vejam violados. A filosofia produz ‘pensamentos’ que se aplicam diversamente a diversas áreas.

Assim, na História há um pensamento histórico. Na Física, um pensamento físico. Na Biologia, um pensamento biológico. No Direito, um pensamento jurídico.

Jamais o pensamento histórico autorizará, como método de investigação, a inversão cronológica de fatos. Jamais o pensamento físico aceitará que se negue a mecânica. Jamais o pensamento biológico rechaçará a Evolução. Jamais o pensamento jurídico democrático atual admitirá qualquer agressão à dignidade da pessoa humana.

Por aí veem-se princípios universais, racionais e lógicos que impõem a qualquer pessoa que pretenda ‘aprender’ uma dessas ciências, a necessidade de considerá-los. Sob pena de formular um pensamento defeituoso. Esses e outros princípios acabam sendo inegociáveis.

Não há ideologias ou lados políticos preferenciais nos princípios das ciências. Todos eles obedecem a uma lenta e gradual evolução metodológica, ao longo da história de cada área que acabaram sendo confirmados, alguns a duras penas.

Um dos exemplos mais espetaculares é a Evolução. Ernst Mayr, em vários de seus mundialmente famosos livros de Biologia, mostra que a Evolução – para os biólogos seniores do mundo- deixou de ser uma ‘teoria’ para se transformar num fato, após resistir a 90 anos de críticas feitas pela própria Biologia como um todo, a partir de 1858, após Darwin. Pouco importa se algum político ou outro intelectualmente desonesto ou não estudioso ‘queira’ que a Evolução continue sendo uma teoria, para insistir no lado místico e sobrenatural de algum ‘criacionismo’.

Quando se ‘aplicam’ métodos da Filosofia em geral, mais propriamente da Filosofia da Ciência e da Lógica à questão atual da Pandemia, neste obscurantista Brasil político de 2020, veem-se, pelas redes sociais, uma série de ideias lobotomizadas de radicais e fanáticos, simplesmente violadoras de princípios que as toram tecnicamente imprestáveis.

Advirta-se, ainda, que esta situação crítica não é, historicamente, privilégio da direita ou da esquerda isoladamente. Os chamados petralhas e bolsominions, pela sabida trava mental que têm de exercer qualquer autocrítica por meio da própria inteligência, mostram-se com o mesmíssimo nível de dificuldade intelectiva. O fanatismo na história sempre vitimou cabeças, nunca salvou.

Exemplo crítico desse modo de pensar viciado é o pontual caso da ‘preferência’ de mortes, feita pelo presidente da República que, percebe-se, deveria ter uma assessoria melhor. Muito melhor.

Reparem-se as evocações pseudológicas feitas: primeira: ‘Está morrendo gente? Está! Lamento! Mas vai morrer muito mais se a economia continuar sendo destroçada.’ Segunda: ‘Um apelo que faço aos governadores. Estou pronto para conversar. Vamos preservar a vida? Vamos. Mas, dessa forma, o preço lá na frente serão centenas de mais vidas que vamos perder por causa dessas medidas absurdas de fechar tudo.’

Por elas o presidente até passou a dizer que lamenta o efeito morte. Melhorou. Porém, ‘escolhe’ qual morte se preocupa mais, quando afirma oclusivamente ‘lamento’, para as mortes da Covid19, e utiliza a conjunção adversativa ‘mas’ para as mortes que a economia, todavia, poderá vir a produzir.

Na segunda frase, utiliza a mesma ‘lógica’ de burocratizar as mortes da Covid19 e importantiza, pela mesma conjunção adversativa ‘mas’, as mortes – ‘centenas’- que a economia poderá causar.

O fato é que esta ‘economia’, referida pelo presidente, de abertura de fábricas e comércio, até o presente, não causou uma única morte. O que está matando aos milhares em curva ascendente e está no colo dos brasileiros é o Corona vírus. Ou seja, o Corona vírus é uma realidade presente, crescente e já mortífera, enquanto essa economia referida, para efeito morte, hoje continua sendo futurologia.

Há aí uma funesta, desastrada e irracional ‘hierarquia’ temporal, totalmente defeituosa no plano lógico-social. Isso vale como errância para qualquer governante do mundo que optasse por essa lógica absurda: preferir se preocupar com ‘centenas’ de supostas mortes que a economia do comércio ‘poderá vir’ a causar, em detrimento das milhares de mortes atuais e reais que já vitimam o país.

E veja que nem se trata de uma comparação quantitativa: milhares de mortes da Covid 19 versus as tais ‘centenas’ da economia referida do presidente. Em morte não se comparam quantidades ou qualidades. Atendem-se, emergencialmente, às do dia de hoje, sejam elas quais forem, buscando-se evitação a todo custo. A Pandemia é uma realidade que está matando, hoje.

Só este defeito de raciocínio expõe o pensamento presidencial ao erro racional, ou metodológico. O Brasil vive até o dia de ontem, 14/5/2020, o trágico número de 14.058 mortes.

Um pensamento político-jus-filosófico correto, atrelado a princípios universais de dignidade da pessoa humana e prevalência da vida a qualquer custo, não tem como tolerar a relativização da morte atual pela Covid19 em detrimento de uma suposta morte futurizada oriunda da economia.

Todas as visões de mundo das agências de ciência internacionais, centros médicos, governos, universidades e entidades globais estão contestes na preocupação com a morte da Pandemia. Sem ‘mas’.

Isto seria o mesmo que um diretor de hospital não atender a pacientes de uma certa doença, que já está matando, para não ocupar os leitos, no sentido de esperar uma outra doença que foi ‘anunciada’ e que no futuro matará de outra forma. Este diretor seria criminalmente processado e teria seu futuro médico exemplarmente arruinado se utilizasse essa ‘lógica’ energúmena.

Às vezes, as questões do pensamento são complexas e ‘chatas’, difíceis mesmo para um gestor público com poucos estudos e fundamentos. O grande pensador Edgar Morin, na obra Introdução ao Pensamento Complexo, p. 15, mostra como a antiga patologia do pensamento, ligada a mitos e deuses que criava, se atualizou em 5 versões, sendo a da patologia moderna da mente ligada à ‘hipersimplificação que não deixa ver a complexidade do real’.

O real na premência das milhares de morte pela Covid19 não deveria ser tão difícil de o presidente ver. Mas uma cabeça em dificuldades não produz compreensões humanistas. Muito menos metodológicas.

PS. Teich, ministro da saúde acaba de sair. Mais um com quem o presidente ‘briga’.

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