Uma campanha sui generis?

A extinção do financiamento empresarial privado não se completou com a adoção do financiamento público. Porém, não deixa de ser um avanço

Em muitos aspectos, a campanha que agora se inicia tem muitas peculiaridades, frutos do arremedo de reforma política celebrado, ano passado, pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.

O quesito mais destacado e que, de fato, implica uma alteração substancial nas condições da peleja —a ausência de financiamento empresarial — decorre de ação da OAB junto ao STF, que acolheu a inconstitucionalidade desse expediente, que o Congresso pretendeu manter, mas a presidenta Dilma não permitiu, vetando-o no texto final.

Numa certa medida, este dispositivo aproxima o conjunto das campanhas de uma relativa igualdade de condições.

Relativa porque tanto o Fundo Partidário das agremiações maiores, como a possibilidade de desembolso pessoal, dentro de certos limites, por parte de candidatos ricos contribuem para manter a disparidade.

E a extinção do financiamento empresarial privado não se completou com a adoção do financiamento público.

Porém não deixa de ser um avanço.

De outra parte, a redução do tempo de campanha e a redução da multiplicidade de instrumentos e formas de propaganda convergem no sentido de uma relação mais direta entre o candidato e o eleitor.

O chamado corpo a corpo e o porta a porta voltam a ter força ao lado do uso das redes sociais.

Ações de rua mais do que nunca devem se combinar com a presença inteligente e ágil na internet.

Postas assim as condições da disputa, tudo parece convergir para elevação do conteúdo do debate eleitoral. Na dependência do nível real de construção política dos partidos, da militância partidária e da consciência do eleitorado.

Aí podem residir limitações importantes. Se é verdade que desde a superação da ditadura militar aos dias atuais, em meio a grandes jornadas políticas, tem-se dado uma elevação gradativa da consciência política da população, a fragmentação das informações pela grande mídia que as distorce e a cultura da radicalização do debate eleitoral contaminam o ambiente.

De toda sorte, cabe uma dose de esperança de que na curta campanha que nós teremos, reduzida a 45 dias, não se perca a oportunidade de debater em nível elevado o presente e o futuro das nossas cidades.

Talvez não haja tempo nem clima para a conhecida tentativa de “desconstrução” dos adversários, dando lugar à defesa das próprias propostas por parte dos postulantes ao poder executivo municipal.

Aos candidatos do PCdoB cabe abordar os problemas imediatos à luz do Programa Socialista, ferindo questões estratégicas como as reformas urbana e tributária como indispensáveis à construção de cidades mais humanas.

Se assim ocorrer, daremos um passo adiante no sentido da melhor qualificação do embate eleitoral, o desaforo cedendo lugar ao bom debate de ideias.

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