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Luciano Rezende Moreira

Professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Doutor e mestre em Ciências Agrárias, é graduado em Agronomia (UFV), Geografia (UERJ), Administração Pública (UFF) e Letras (UFF)

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Uma conquista de gerações: ANPG garante Previdência para bolsistas

Projeto aprovado na Câmara reconhece bolsistas como trabalhadores e consolida vitória histórica da luta organizada pela valorização da ciência brasileira

Uma conquista de gerações: ANPG garante Previdência para bolsistas (Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil)

A aprovação, na noite de quarta-feira (18/03), pela Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei 6.894/2013, que garante a inclusão de 150 mil bolsistas de pós-graduação no sistema da Previdência Social, representa uma conquista histórica para a ciência brasileira e para todos aqueles que dedicam suas vidas à produção de conhecimento. Trata-se de um marco civilizatório que reconhece, ainda que tardiamente, que pós-graduandos e pós-graduandas não são apenas estudantes em formação, mas trabalhadores essenciais ao desenvolvimento nacional, merecedores de direitos básicos como aposentadoria e licença-maternidade.

O projeto aprovado estabelece a possibilidade de contribuição previdenciária por parte dos bolsistas vinculados a agências de fomento, criando um mecanismo que permite a esses pesquisadores o acesso à seguridade social. Na prática, isso significa que milhares de mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos, que historicamente estiveram à margem de qualquer proteção social, passam a ter assegurados direitos fundamentais. Ainda que o texto siga agora para apreciação no Senado, sua aprovação na Câmara já representa um enorme passo, fruto de ampla articulação política e pressão da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), sob a presidência do doutorando Vinícius Soares.

Esta é uma vitória histórica não apenas pela sua relevância. Ela, de fato, tem uma larga trajetória que não surgiu de forma repentina. É resultado de uma longa luta, persistente e, muitas vezes, invisibilizada, travada ao longo de décadas pelo Movimento Nacional de Pós-Graduandos (MNPG). Desde sua origem, esse movimento tem sido protagonista na defesa da valorização da pesquisa e da dignidade dos pós-graduandos no Brasil, envolvendo dezenas de Associações de Pós-Graduandos (APGs). Sob a liderança da ANPG, gerações de pós-graduandos, pesquisadores e dirigentes construíram, com coragem e perseverança, as bases que hoje tornam possível celebrar essa conquista.

Ao longo desse percurso, inúmeras batalhas foram travadas. Entre elas, destaca-se o histórico Projeto de Lei dos Pós-Graduandos, ainda no período em que o deputado Jorge Bittar atuava no Congresso Nacional e era seu relator. Naquele momento, já se colocava com clareza a necessidade de reconhecer os bolsistas como sujeitos de direitos. Tive a honra, enquanto presidente da ANPG entre 2002 e 2004, de contribuir modestamente com esse processo, somando esforços a tantos outros companheiros e companheiras que acreditavam que a ciência brasileira não poderia continuar sustentada pela precarização de seus pós-graduandos.

É igualmente importante situar essa conquista no contexto mais amplo das políticas públicas para a educação e a ciência no Brasil. Foi durante os governos Lula e Dilma que a pós-graduação brasileira viveu um de seus períodos mais significativos de expansão e fortalecimento. Houve ampliação expressiva do número de bolsas, criação de novas universidades e institutos federais, interiorização do ensino superior e fortalecimento das agências de fomento. Esses avanços não apenas democratizaram o acesso à formação científica, como também consolidaram uma visão de Estado que reconhece a educação e a pesquisa como pilares estratégicos do desenvolvimento nacional.

A aprovação deste Projeto de Lei dialoga diretamente com esse legado. Representa a continuidade de um projeto de país que valoriza seus pesquisadores e compreende que não há soberania sem ciência. Ao mesmo tempo, evidencia o papel decisivo da organização coletiva na construção dessas políticas, reafirmando que conquistas dessa natureza são sempre resultado de pressão social e compromisso político.

É fundamental destacar, nesse contexto, o papel da atual direção do movimento, em especial a liderança de Vinícius Soares à frente da ANPG. Sua atuação firme e articulada foi decisiva para transformar uma pauta histórica em uma conquista concreta. Em um cenário frequentemente adverso à ciência e à educação, sua condução demonstra a força da organização coletiva e a importância de manter viva a chama da luta.

A inclusão dos bolsistas na Previdência Social representa também um avanço significativo na redução das desigualdades dentro da própria comunidade acadêmica. Ao garantir direitos como licença-maternidade, por exemplo, a medida contribui para a permanência de mulheres na carreira científica, enfrentando um dos principais fatores de evasão na pós-graduação. Da mesma forma, ao assegurar a possibilidade de aposentadoria, reconhece-se o caráter laboral da atividade de pesquisa, rompendo com uma visão ultrapassada que insiste em tratar bolsistas como meros beneficiários de auxílio.

Ainda há muito a ser conquistado. A valorização plena da ciência brasileira passa por melhores condições de financiamento, recomposição de bolsas, estabilidade e reconhecimento institucional. No entanto, a vitória alcançada ontem (18/03) deve ser celebrada como um passo decisivo nessa caminhada.

Um passo gigantesco que carrega consigo a história de décadas de luta e o compromisso com um futuro mais justo para os pesquisadores brasileiros, reafirmando que direitos não são concedidos espontaneamente, mas conquistados por meio da organização, da luta e da persistência. A ANPG, ao longo de sua história, mostrou exatamente isso e, mais uma vez, demonstra que a mobilização coletiva é capaz de transformar a realidade. Vale a pena lutar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.