Uma Copa cheia de batalhas
Copa do Mundo nos EUA expõe contradições entre festa do futebol, guerras, restrições migratórias e silêncio da FIFA
Afinal, estamos congregando a alegria do esporte mais popular do planeta ou estamos mal diante de um mundo em guerra? Não se trata de falta de ingenuidade. Um momento de tensão parecida foram as Olimpíadas de Berlim, em 1936. Uma festa do esporte sob os três valores fundamentais, como amizade, excelência e respeito, foi manchada pelo clima vivido, que, após o encerramento dos Jogos, levou com força total à perseguição aos judeus e aos planos expansionistas, acabando por começar a Segunda Guerra Mundial três anos depois.
Hitler ordenou a retirada de cartazes antissemitas das ruas de Berlim. Placas que proibiam a entrada de judeus foram removidas para evitar boicotes internacionais, tentando mostrar um país tolerante e pacífico. Ainda assim, a Alemanha excluiu quase todos os atletas judeus de sua própria equipe, exceto a esgrimista Helene Meyer, que ganhou a medalha de prata. Um grande evento mundial feito para unir as nações pode se tornar propaganda, com a intenção de mostrar um país rígido e intolerante. A começar pela não exclusão dos Estados Unidos como país-sede.
O Artigo 4, sobre neutralidade e direitos humanos, exige neutralidade estrita em questões políticas e proíbe qualquer tipo de discriminação contra um país, grupo ou pessoa, sob pena de suspensão ou expulsão. A Rússia foi banida das eliminatórias e competições da FIFA e da UEFA desde o início do conflito com a Ucrânia. Por que os Estados Unidos podem guerrear neste momento com o Irã? O grande capital pode tudo.
As recentes imposições dos anfitriões da Copa do Mundo, em vários casos, são vergonhosas aos olhos do mundo. A seleção do Senegal foi revistada de forma vexatória pela polícia de imigração de Trump, e a participação da seleção do Irã está coberta de restrições. Os jogadores não poderão permanecer em território americano e terão que entrar e sair do país no mesmo dia de cada partida. O árbitro africano Omar Artan, eleito o melhor do continente africano, foi impedido de entrar nos EUA sem nenhuma explicação pública. Muitos cidadãos são visados por sua ascendência, tanto por país de origem, cor de pele, gênero ou até posição política. O fotógrafo da seleção do Iraque, Talal Salah, foi deportado após horas de interrogatório. Tudo sob silêncio do governo, da FIFA e da imprensa. A Seleção do Uzbequistão foi tratada como terrorista na entrada ao país.
A FIFA sempre se pautou como uma entidade que preza o respeito às nações e o equilíbrio ético, mas, no caso dos Estados Unidos, tornou-se vexaminosa. A Copa do Mundo Feminina de 2003 seria realizada na China, mas, devido ao surto de SARS no país, a entidade transferiu a edição para os Estados Unidos. A dificuldade que a entidade tem em impedir cenas de racismo no futebol, com a luta de Vini Júnior durante meses e pouco sendo feito, mostra o quanto o lucro parece ser mais importante do que os valores esportivos. E pensar que o presidente da FIFA entregou o "Prêmio da Paz da FIFA" a Trump, em dezembro de 2025. Hoje, além de todos os problemas causados pela política da extrema direita de Trump, aconteceu um tiroteio em Ohio; protestos em San Antonio e anti-ICE em Nova Jersey, contra políticas de imigração e operações federais.
É uma Copa do Mundo sem que se queira o próprio mundo no país. No fundo, assiste-se à continuação de uma velha história: a guerra entre a intenção de se mostrar ordem e a truculência de quem tem ódio aos que não são americanos, que Trump carrega na alma. Os Estados Unidos de Trump são o resultado dessa situação mal resolvida de que quem tem dinheiro pode tudo. Sempre exaltavam que eram exemplo do espírito libertador, sempre lembrado pela Quinta Emenda.
Trump não valoriza a opinião alheia, achando que está acima dos direitos individuais e que tem razão. A Copa do Mundo teve o azar de se meter no meio dessas várias batalhas. Só nos resta ter jogadores que possam protestar tal qual Sócrates na Copa de 1986, com suas famosas faixas pelo povo e contra a guerra.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

