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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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“Uma escolha muito difícil” entre Lula e a filial do trumpismo

O ataque em Washington não prova conspiração contra Trump. Revela algo mais grave

O momento em que Trump é retirado do jantar (Foto: Reuters)

Em 16 de abril, publicamos o artigo “Narcisismo maligno e um Trump em declínio cognitivo”, a partir do alerta aceso pelo New York Times e por análises que passaram a tratar de forma cada vez mais explícita a deterioração psíquica, política e institucional representada por Donald Trump. 

Onze dias depois, em 27 de abril, o próprio New York Times voltou a registrar outro sintoma da mesma doença política americana. Depois do ataque no jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, em Washington, rumores, especulações e teorias conspiratórias passaram a circular nas redes com velocidade vertiginosa. 

A tentação imediata seria perguntar se alguma dessas teorias faz sentido. Mas essa talvez seja a pergunta errada. A pergunta mais importante é outra: como os Estados Unidos chegaram ao ponto em que qualquer episódio de violência política, antes mesmo de ser esclarecido, já é imediatamente sugado por uma máquina paranoica de interpretação? 

O país da suspeita permanente 

A sociedade americana já não parece capaz de receber um fato traumático apenas como fato. Tudo vira imediatamente enredo. Tudo vira cálculo. Tudo vira operação. Tudo vira suspeita. 

A violência política, nesse ambiente, deixa de ser apenas uma crise de segurança pública ou institucional. Passa a funcionar como combustível simbólico de uma guerra civil fria, em que cada campo interpreta a realidade a partir de sua própria trincheira. Não se trata de dizer que todos os lados são iguais. Não são. 

Trump e a extrema direita americana tiveram papel central na destruição deliberada da confiança pública. Foram eles que transformaram a imprensa em inimiga, a Justiça em conspiração, as eleições em fraude, os adversários em inimigos e as instituições em obstáculos a serem esmagados. 

Durante anos, Trump mentiu compulsivamente, sistematicamente, metodicamente. Converteu a mentira em arma de governo. Fez da desconfiança uma indústria. Fez da conspiração uma pedagogia política. Fez da paranoia uma forma de lealdade. 

E exportou o método para o mundo, incluindo — especialmente — o Brasil. 

Agora, os Estados Unidos colhem o resultado. Depois de anos de corrosão, a própria realidade se tornou instável. O país que aceitou viver sob suspeita permanente já não sabe distinguir fato, hipótese, manipulação, mentira e delírio. 

Os Estados Unidos chegaram ao ponto em que até hipóteses delirantes circulam porque a política virou um território de suspeita permanente. Esse é o verdadeiro colapso. 

Um país não adoece apenas quando um líder mente. Adoece quando milhões passam a viver dentro de uma estrutura mental em que toda informação é suspeita, toda instituição é cúmplice, toda apuração é fraude e todo fato é apenas a superfície visível de uma conspiração invisível. 

É exatamente aí que mora o perigo. 

O trumpismo ensinou milhões de americanos a desconfiar de tudo — exceto de Trump. Mas nenhuma cultura paranoica permanece domesticada para sempre. 

Quando a suspeita se torna o idioma principal da política, ela também passa a devorar seus próprios criadores. O líder que se alimenta do caos pode, em determinado momento, tornar-se refém dele. O presidente que governa pela emergência pode descobrir que a emergência já não depende de sua vontade. O demagogo que transforma toda crise em palco pode ser engolido por um palco em chamas. 

É nesse ponto que o ataque no jantar dos correspondentes se torna politicamente maior do que o próprio episódio. Ele revela uma sociedade em que a realidade já não é mais ponto de partida comum. É apenas matéria-prima para manipulação. 

E isso vale especialmente para o Brasil, em pleno processo eleitoral, quando dois nomes concentram o centro da disputa: Luiz Inácio Lula da Silva, que tenta a reeleição com um projeto progressista, soberano e de centro-esquerda; e Flávio Bolsonaro, herdeiro direto do bolsonarismo, aliado incondicional de Trump e candidato da extrema direita brasileira. 

“Uma escolha muito difícil” 

Há uma memória incômoda que volta a assombrar a elite brasileira. 

Em 8 de outubro de 2018, no contexto do segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, o jornal O Estado de S. Paulo publicou o editorial “Uma escolha muito difícil”. 

A fórmula entrou para a história política recente porque traduzia, em linguagem editorial, a tentativa de construir uma equivalência impossível. De um lado, Jair Bolsonaro, candidato da extrema direita, apologista da ditadura militar e da tortura. De outro, Fernando Haddad, candidato do campo progressista, da centro-esquerda e do Partido dos Trabalhadores. Oito anos depois, o Brasil conhece o resultado daquela falsa dificuldade. 

Jair Bolsonaro governou de 2019 a 2022 como governam Trump e os líderes da extrema direita contemporânea: pela mentira, pelo conflito permanente, pela destruição da confiança pública, pelo ataque às instituições, pela submissão geopolítica aos Estados Unidos e pela tentativa de converter a política em guerra contra inimigos internos. 

Tentativas de golpe contra a democracia 

Não foi apenas retórica. Foi método. O governo Bolsonaro demonstrou, durante quatro anos, adesão ampla ao trumpismo, alinhamento automático aos Estados Unidos e hostilidade permanente a qualquer projeto soberano de país. E, quando perdeu a eleição de 2022, não aceitou o resultado das urnas. Tentou um golpe  planejou até o assassinato do presidente Lula, de seu vice Alkmin — já empossados — e o ministro Alexandre de Moraes.   

Tentou, durante e depois da campanha presidencial e da posse do presidente eleito nas urnas, golpear a democracia junto com militares de alta patente, saudosos do golpe de 1964, que instaurou uma ditadura de 21 anos, marcada por prisões, cassações, torturas, mortes e desaparecimentos. 

O desfecho foi a investigação, o julgamento e a condenação, pelo Supremo Tribunal Federal, do núcleo golpista que tentou abolir violentamente a democracia brasileira, no histórico 8 de janeiro de 2023. A pena mais alta foi imposta a Jair Bolsonaro: 27 anos e três meses de prisão, considerado pelo STF o líder da organização criminosa. 

Aquilo que em 2018 foi apresentado por setores da elite como uma “escolha muito difícil” terminou, historicamente, como uma das maiores ameaças institucionais desde o fim da ditadura militar. É nesse ponto que o presente ganha importância. 

Em 2026, o problema retorna sob o mesmo sobrenome. Flávio Bolsonaro aparece como tentativa de reorganização eleitoral do mesmo campo político. Já não se trata apenas do filho do ex-presidente. Trata-se do herdeiro de um método: mentira como arma, paranoia como disciplina, guerra cultural como governo, submissão aos Estados Unidos de Trump como horizonte geopolítico. A diferença é que, agora, até parte da mídia conservadora e das elites brasileiras parecem perceber o tamanho do passivo. 

Os esqueletos de Flávio Bolsonaro 

No editorial “Os esqueletos de Flávio Bolsonaro”, publicado em 13 de abril de 2026, o Estado de S. Paulo resgatou controvérsias que acompanham a trajetória do senador: rachadinhas, Fabrício Queiroz, suspeitas de apropriação de salários de assessores e relações com milicianos. O editorial sustentou que o candidato, ao dizer que não sabia de nada, “escolheu ofender a inteligência do eleitor”. 

O dado político relevante não é que o Estadão tenha se tornado progressista. Não se tornou. Continua porta-voz de setores das elites brasileiras. O dado relevante é outro: o jornal que em 2018 tratou a escolha entre Bolsonaro e Haddad como “muito difícil” parece ter entendido que, diante de Flávio Bolsonaro, os esqueletos já não cabem mais no armário. 

Esse deslocamento importa. Porque 2026 não repetirá 2018 nos mesmos termos. Agora há memória histórica, há experiência de governo, há tentativa de golpe julgada, há condenações, há provas, há trauma institucional e há um país que viu, na prática, o que significa entregar o Estado brasileiro à extrema direita brasileira, liderada pelos Bolsonaro e seguidora incondicional da ultradireita trumpista. 

A pergunta, portanto, já não pode ser apresentada como se fosse uma dificuldade moral equivalente.  

Não se trata de escolher entre dois extremos. Trata-se de escolher entre um projeto democrático, progressista e soberano, liderado por Lula; e a restauração de um campo político que já demonstrou desprezo pelas urnas, pelas instituições, pela soberania nacional e pela própria realidade, liderado pelo filho de Bolsonaro. 

Em 2018, parte da elite brasileira e o porta voz Estadão fingiram que a escolha era difícil. Em 2026, essa desculpa já não existe. 

O espelho brasileiro 

O Brasil acompanha essa decomposição em pleno processo eleitoral. 

De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva tenta a reeleição com um projeto progressista, democrático e soberano de centro-esquerda. De outro, Flávio Bolsonaro se apresenta como herdeiro político direto do bolsonarismo, agora tentando uma versão eleitoralmente “moderada”, mas organicamente conectada ao bolsonarismo e ao trumpismo internacional. 

A disputa brasileira de outubro será travada dentro da mesma guerra global de narrativas que transformou a mentira em método, a desconfiança em indústria, a conspiração em pedagogia política e a paranoia em forma de lealdade. 

Pesquisa divulgada nesta segunda-feira, 27, mostrou Lula e o filho de Bolsonaro tecnicamente empatados em simulação de segundo turno: 46% para Lula e 45% para Flávio. Ou seja: não se trata de hipótese distante. Trata-se de risco político concreto. 

O problema não é apenas Flávio Bolsonaro admirar Trump. O problema é o que essa admiração significa como método de poder. 

Jair Bolsonaro importou esse método para o Brasil. Mentiu contra as urnas. Atacou o Supremo Tribunal Federal. Hostilizou a imprensa, inclusive parte da mídia hegemônica conservadora, e militarizou a política. Tratou adversários como inimigos da pátria. Alimentou teorias conspiratórias. Flertou com a ruptura institucional. 

E, ao final, deixou como herança uma tentativa de golpe, uma sociedade fraturada, o rastro de mortes evitáveis na pandemia, o desprezo pela ciência, o atraso deliberado na compra de vacinas e uma extrema direita que ainda não abandonou o sonho de capturar novamente o Estado. 

Não se trata apenas de escolher um presidente 

Flávio Bolsonaro não surge fora dessa história. Surge de dentro dela. Sua candidatura não representa apenas a continuidade da facção Bolsonaro. Representa a tentativa de reorganizar, sob aparência “mais moderada”, o mesmo núcleo político que devastou a confiança pública no Brasil. 

A diferença é que, agora, esse projeto aparece ainda mais explicitamente conectado ao eixo internacional da ultradireita liderada por Trump. 

Na CPAC, nos Estados Unidos, Flávio comparou Jair Bolsonaro a Trump, apresentou o pai como aliado leal do republicano e buscou projetar sua candidatura no ambiente político da direita americana. Em sua fala, também pediu “pressão diplomática” sobre as eleições brasileiras, ainda que tenha negado desejar interferência estrangeira. 

Isso significa que a eleição brasileira também será atravessada por uma questão de soberania. Não se trata apenas de escolher um presidente. 

Trata-se de decidir se o Brasil aceitará importar para dentro de suas instituições o método político que hoje corrói os Estados Unidos: mentira como arma, paranoia como disciplina, submissão externa como estratégia e guerra permanente como ambiente natural de governo. 

Outubro será também uma escolha sobre a realidade 

O ataque no jantar dos correspondentes em Washington interessa ao Brasil não porque prove qualquer conspiração contra Trump. Até aqui, não prova. Interessa porque mostra o tipo de sociedade que nasce quando a política deixa de produzir confiança e passa a produzir apenas suspeita. 

Esse é o alerta. 

Quando a extrema direita destrói a confiança nas eleições, nas instituições, na imprensa, na ciência, na Justiça e na própria realidade, ela não cria apenas um ambiente favorável ao líder autoritário. 

Cria também um país ingovernável, intoxicado, incapaz de reconhecer fatos comuns, pronto para transformar qualquer crise em conspiração e qualquer adversário em inimigo interno. 

Foi assim nos Estados Unidos. Foi assim no Brasil de Jair Bolsonaro. E é isso que estará novamente em jogo em outubro. 

A escolha continua muito difícil? 

A eleição brasileira de 2026 não será apenas uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Será uma disputa entre dois modos de organizar a vida pública. 

De um lado, a política como negociação, reconstrução institucional, soberania nacional e pacto democrático. De outro, a política como guerra cultural permanente, alinhamento automático ao trumpismo, suspeita generalizada, submissão geopolítica e revanche contra as instituições. 

O artigo que publicamos em 16 de abril de 2026 já apontava para o colapso psíquico e político representado por Trump. O episódio de Washington, em 26 de abril de 2026, acrescenta uma camada ainda mais grave. Não é apenas o líder que parece preso à paranoia. É a própria sociedade que começa a respirar por ela. 

O Brasil precisa olhar para esse espelho antes que seja tarde. Porque a tragédia americana mostra que o autoritarismo não destrói apenas governos. Destrói primeiro a confiança. Depois, destrói a realidade. E, quando a realidade comum desaparece, a democracia já está de joelhos. Em outubro, o Brasil não escolherá apenas entre dois candidatos. 

Escolherá entre a soberania democrática e a importação do império da paranoia,  e da mentira, do conflito permanente, da destruição da confiança pública, do ataque às instituições, da submissão geopolítica aos Estados Unidos e da tentativa de converter a política em guerra contra os “inimigos internos.” 

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* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.