Uma opinião sobre tática e estratégia

"A história é farta de casos nos quais, quando a necessária flexibilidade tática não está acompanhada por rigor estratégico, os partidos populares acabam por se transformar em apêndice de alguma fração das classes dominantes", avalia o jornalista Breno Altman

(Foto: Reprodução)
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Vamos nos colocar de acordo sobre a terminologia, antes de mais nada.

Tática diz respeito à orientação política em determinada conjuntura, com objetivos circunscritos aquele momento.

Estratégia remete ao longo prazo, a um objetivo estruturante, cujo centro é sempre a questão do poder político, que somente pode ser alcançado através de sucessivos movimentos táticos, nas mais variadas conjunturas, que permitam às forças populares construirem hegemonia sobre o Estado e a sociedade.

Quando a esquerda tem apenas estratégia e é incapaz de compreender realidades concretas, formulando as táticas correspondentes, normalmente tende a substituir o acionar político, a construção de força real, por um vago discurso acerca de ideais revolucionários, descolado do povo por incapaz de apresentar caminhos que possam ser viáveis e compreendidos pelas massas como a solução de seus problemas reais.

Mas quando a tática não está inserida e centralizada por um estratégia de poder, até quando dá certo pode dar tudo errado.

Um exemplo? A conquista do governo nacional, com um programa que enfrente a miséria, mas não é acompanhado por um esforço concentrado de politização e organização - cuja necessidade não provém de demandas da realidade, mas de um imperativo da estratégia -, pode levar à ascensão social de milhões e jogá-los diretamente ao domínio de valores e concepções que correspondem à reprodução da ordem capitalista.

O objetivo tático, nesse caso, é alcançado, mas provoca regressão estratégica e sua valia na acumulação de forças é nula, ou até negativa.

O caso histórico mais notório de sucesso tático e fracasso estratégico, na esquerda brasileira, é o velho PCB durante a luta contra a ditadura.

Os comunistas tinham razão na política de frente democrática - isso é, da união de todas as forças que estavam contra o regime militar -, mas ao concebe-la sem ter como princípio reitor a hegemonia e a independência da classe trabalhadora, com seu próprio programa, a vitória dessa tática reforçou o ocaso do próprio partido, por colocá-lo em um papel subalterno à oposição liberal-burguesa e desidratar completamente sua identidade de classe.

Esse descolamento da tática em relação à estratégia tem sido, nos últimos anos, o desvio mais nefasto às forças progressistas.

A história é farta de casos nos quais, quando a necessária flexibilidade tática não está acompanhada por rigor estratégico, os partidos populares acabam por se transformar em apêndice de alguma fração das classes dominantes, satisfazendo-se com pequenos avanços e abdicando de sua missão histórica.

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