Uma paleta tropical com características chinesas
Sete meses depois de chegar a Beijing, entre o apartamento bege, os #OutfitsComunas, a escrita e a tentativa diária de entender a China por dentro
No dia 23 de novembro de 2025, eu desembarcava em Beijing para a maior aventura da minha vida. Estava a 16.900 quilômetros de Brasília, minha cidade-natal, e a uma distância ainda maior de tudo aquilo que, até então, eu chamava de casa.
Era um domingo de outono. Entrei no apartamento e era tudo bege.
As paredes, os móveis, o chão, a luz. Tudo bege. Eu também estava meio bege por dentro. Exausta da viagem, atravessada pelo fuso, pela mudança, pelo medo e por aquela coragem meio irresponsável de quem decide recomeçar quando muita gente acha que já passou da hora de mudar.
Sete meses atrás, deixei o universo que sempre foi meu: meus filhos, minha família, minha cachorrinha, o lugar onde tudo era conhecido e o idioma que carrego na alma. Vim para a China construir uma vida nova do zero.
E comecei pelo apartamento.
Aos poucos, fui colocando minha personalidade no meu novo cantinho. É a primeira vez que moro sozinha. Dois amigos, em especial, me ajudaram a trazer para dentro de casa as cores que são tão importantes para mim.
Tings Chak me deu pôsteres revolucionários. Renato Peneluppi me deu tapetes coloridos. Aprendi a comprar plantas no supermercado. Comprei um vaso e passei a comprar flores frescas toda semana. Coloquei um tapete de borracha bem colorido na cozinha. Outro, azul, ao lado da cama. Fui criando a minha paleta tropical com características chinesas.
Vi o outono virar inverno. Fui enchendo o guarda-roupa para criar meus #OutfitsComunas e encarar a solidão e o frio. Vi neve pela primeira vez. Senti aquele frio que corta a pele. E senti também uma solidão que, em alguns dias, pesava no peito.
Houve dias em que Beijing parecia grande demais, o idioma distante demais e eu pequena demais diante de tudo. Em alguns momentos, a vida cotidiana parecia uma gincana: comprar uma coisa simples, pedir comida, entender uma placa, explicar um problema no apartamento, pegar um carro, atravessar a cidade. Tudo exigia tradução. Tudo exigia paciência. E eu, que nunca fui exatamente conhecida pela paciência, precisei aprender.
Depois veio a primavera.
E Beijing mudou diante dos meus olhos. A cidade que eu tinha conhecido cinza, seca e gelada foi ganhando flores, cores, cheiros, delicadezas. Acompanhei cada floração como quem acompanha uma novela. Primeiro uma árvore, depois outra, depois uma rua inteira. Cerejeiras, magnólias, peônias, flores que eu nem sabia nomear. A cidade foi me ensinando que também existe política na beleza, no cuidado com os parques, nas praças cheias, nos idosos dançando, nas famílias ocupando os espaços públicos.
Agora chegou o verão.
E, com ele, veio também a sensação de que alguma coisa em mim começou a criar raiz. Não porque tudo ficou fácil. Nada aqui é simples quando você não domina o idioma, quando os códigos sociais ainda escapam, quando a vida exige uma tradução permanente. Mas existe um tipo de pertencimento que nasce devagar. Não vem pronto. A gente constrói.
Nesses sete meses, conheci pessoas novas, criei laços sinceros e aprendi a aceitar ajuda. Também aprendi a ficar sozinha sem me abandonar. Talvez essa tenha sido uma das maiores novidades. Eu sempre vivi cercada: filhos, família, trabalho, amigos, cachorro, notícia urgente, panela no fogo, reunião, prazo, mensagem, boletim, programa ao vivo. De repente, eu estava do outro lado do mundo, num apartamento bege, tendo que descobrir quem eu era quando ninguém precisava de mim naquele instante.
Trabalhei muito. Escrevi, gravei, editei, estudei, pesquisei. Só para a CGTN Português, já foram 28 textos: seis prosas imaginárias com Henfil na série China em Dois Tempos; nove sobre moda e política; e outros 13 tentando explicar a China. Não satisfeita, criei também esse blog pessoal aqui no Substack, que já soma 15 textos. Ou seja: em sete meses, foram 43 textos autorais, uma média de seis por mês.
Mas não escrevo para fazer volume. Escrevo porque é assim que organizo o mundo. A escrita, para mim, sempre foi trabalho, mas também é uma forma de terapia, de investigação e de sobrevivência. Escrevo para entender o que estou vendo. Escrevo para dar nome ao estranhamento. Escrevo para transformar deslocamento em pensamento. Talvez seja por isso que, quanto mais distante estou de casa, mais preciso escrever.
E isso só na escrita.
Também passei a fazer uma coluna em vídeo semanal para o RodaMundo, programa do Opera Mundi: a Beijing da Iara, que já chegou ao oitavo episódio. Quase toda semana, participo do videocast Saco de Gatos, uma parceria da revista eletrônica Outras Palavras com a Editora Alameda. Uma vez por mês estou no Observatório de Geopolítica no GGN
No meio disso tudo, comecei a aprender chinês na Beijing Foreign Studies University (BFSU), ou BeiWai para os íntimos. E aí a humilhação é pedagógica. Voltei para um lugar quase infantil: repetir sons, errar tons, não entender perguntas simples, comemorar quando consigo reconhecer uma palavra na rua ou entender uma frase inteira sem depender do tradutor. Para alguém que sempre viveu da palavra, é uma experiência brutal e bonita. Brutal porque eu perco o principal instrumento que sempre tive. Bonita porque me obriga a escutar o mundo de outro jeito.
Também comecei a viajar por este país imenso. Conheci Wuhan, voltei a Shanghai, visitei Xiong’an e Nanjie. Em cada lugar, encontrei uma China diferente daquela que eu imaginava antes de viver aqui. Uma China cotidiana, contraditória, grandiosa, delicada, veloz, profunda. Uma China que não cabe nos clichês com que o Ocidente costuma tentar explicá-la.
E talvez seja essa uma das coisas mais importantes destes sete meses: a China não cabe em fórmula pronta. Não cabe no medo fabricado, nem na propaganda simplória, nem na fantasia exótica. A China real é muito mais interessante. E muito mais difícil de explicar.
Mas talvez a maior viagem tenha sido mesmo para dentro.
A 16.900 quilômetros de Brasília, distante dos meus filhos, da minha família, da minha cachorrinha, da minha língua e das referências que me formaram, fui obrigada a me escutar de outro jeito. Sem os ruídos conhecidos. Sem os papéis de sempre. Sem a proteção do território familiar.
Sete meses atrás, eu entrei em um apartamento bege.
Hoje, ainda há muito bege ao meu redor. Mas já tem pôster revolucionário, planta, flor, tapete colorido, livro, roupa espalhada, café, chá, memória e futuro. Já tem um pouco de mim em cada canto.
E talvez seja isso que Beijing tem me ensinado: recomeçar não é apagar a vida anterior. É carregar tudo o que fomos para um lugar onde ainda podemos descobrir quem somos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

