Uma reflexão sobre racismo estrutural e relações afetivas inter-raciais

O grande cantor Agnaldo Timóteo, falecido recentemente, costumava criticar as relações inter-raciais, que, segundo ele, era uma forma de os negros bem sucedidos atenuarem a cor da pele

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“Pela proibição do casamento inter-racial e pela criminalização da miscigenação, pedimos ao legislativo que atenda ao pedido de uma grande parte da população brasileira, que se sente num limbo étnico e vê-se perder a identidade cultural.” Para surpresa do leitor, o texto que dá início a este artigo não data do século 18. Ele é de 2014, mas só agora ganhou repercussão nas redes sociais, mobilizando a justiça brasileira a tomar providências quanto à eugênica petição contra o casamento entre brancos e negros.  

Antes de tentar analisar essa solicitação feita por uma empresa de Curitiba, e que estava hospedada no site peticaopublica.com.br, eu gostaria de supor, apesar de já ter a convicção, de que bolsonaristas estejam por trás dessa petição. Mais uma prova de que Bolsonaro não é pior do que os seus apoiadores. Ele apenas legitimou, a conduta racista e excludente de outros milhares de brasileiros que viviam sufocados dentro de um armário social, contendo a fúria do seu preconceito. Não existiria presidente genocida, se não existissem ideias genocidas entre os seus eleitores.

Voltando ao tema, entendo que as relações inter-raciais precisam ser analisadas observando a lógica do racismo estrutural, que vigora nos países colonizados e desenvolvidos a partir da escravidão dos povos africanos. Os europeus subjugaram e desumanizaram a africanidade ao primeiro contato que tiveram com ela. Consideraram um horror o que viam, desde as nossas características étnicas, até os nossos costumes e cultura. Tal conceito, aliado às políticas excludentes de manutenção do privilégio branco, ainda é transmitido através das gerações, o que colabora com a perpetuação do racismo na sociedade.

Com isso, os descendentes de africanos continuam a ser apresentados como referências negativas, o que resulta na suspeição e na depreciação de suas capacidades de produzir educação, conhecimento, cultura, e, principalmente, estabilidade financeira, o que sustenta, em tese, algumas relações inter-raciais. Inseridos forçosamente num sistema racista e carregando a marca que o colonizador lhes deixou na testa, os pretos ficaram com a eterna incumbência de provar que merecem respeito. Algo que, na maioria das vezes, é chancelado por um branco.

Partindo deste ponto, uma das formas encontradas para viabilizar essa aceitação foi o casamento inter-racial. Calma! Eu não estou definindo todas as relações inter-raciais como uma espécie de Green Card social. O que estou tentando explicar, é como ter “acesso” a branquitude pode fazer com que o negros ganhem mais notoriedade. Evocando a memória afetiva de pessoas negras acima dos 30 anos de idade, só encontraremos eternizados em suas retinas, a imagem de pessoas brancas como exemplo de beleza, credibilidade, honestidade, respeitabilidade, inteligência e sucesso profissional e financeiro. Consequência de um trabalho desempenhado com muito sucesso, pelas mídias televisivas e pelo marketing publicitário.

Levando-se em conta que as referências da infância e adolescência, costumam moldar o nosso pensamento e a nossa conduta para a vida adulta, é normal (no sentido alienante da palavra) encontrarmos esses mesmos negros, agora bem sucedidos profissional e financeiramente, buscando se relacionar com parceiros que sempre representaram a sua atual condição. A colonialidade não acaba com o fim da colonização. E, infelizmente, ainda levaremos um tempo para que os negros estejam tão bem representados na sociedade, ao ponto de despertarem o interesse de todos os outros negros.

O grande cantor Agnaldo Timóteo, falecido recentemente, costumava criticar as relações inter-raciais, que, segundo ele, era uma forma de os negros bem sucedidos atenuarem a cor da pele. Embora fosse um poço de contradições, a ponto de declarar que nunca havia sido discriminado por ser negro, o que é algo inimaginável em se tratando de Brasil, um dos países mais racistas do mundo, ele provocava, mesmo que de maneira incorreta e instintiva, um debate e uma reflexão acerca dos motivos que levam, por exemplo, a maioria dos negros famosos, a se relacionarem apenas com mulheres loiras. O que algumas ativistas negras costumam chamar de “palmitagem”

Não que as mulheres negras famosas e bem sucedidas, incluindo algumas ativistas, não “palmitem” igualmente. Afinal, elas também estão submetidas ao mesmo padrão sistêmico de racialização, que sempre apresentou os homens negros como menos interessantes e promissores do que os brancos. A questão é complexa, porque envolve estruturação social, estereotipização racial e assimilação cultural. O que torna mais necessário, pelo menos a meu ver, promover as relações étnico afetivas, do que lutar pelo “direito” a sua interracialização. Isto, porque cada um já possui o direito de se relacionar com quem bem quiser, mas nem todos, principalmente os negros, estão inseridos nos padrões estabelecidos de aceitabilidade social.

É justamente o que a petição reivindica. Só que com base no racismo e na eugenia. A defesa da identidade. Para além da ideia de que “somos todos humanos”, que coloca negros e brancos em igualdade e na mesma vitrine, é preciso pensar e defender a nossa existência real. Uma vez que não estamos convivendo apenas com seres espiritualizados, cuja consciência social e humana já lhes permitem enxergar o outro como igual, independentemente de sua raça, credo, gênero, origem social e situação financeira. Precisamos também alinhar cada vez mais o nosso discurso com a nossa prática. Uma coerência que cobramos daqueles que se dizem não racistas.

Quando perguntamos a um branco quantos amigos pretos ele tem, para nos certificarmos do seu antirracismo, precisamos responder com que “tipo” de preto nós estamos buscando nos relacionar, para que ele se certifique de que a nossa conduta também não é seletiva e prestigia apenas os pretos colocados em evidência, por estes se encaixarem no perfil de boa descrição social preconizado pelo colonizador. O do tal do “É preto, mas é bem sucedido”, que dá para tolerar. Atitudes podem convencer mais do que palavras. Estejamos atentos a elas. Os ideais que eu defendo, precisam estar presentes na minha vida.

Não estou propondo um tratado afetivo com base na cor da pele ou no tronco étnico. Estou chamando a atenção para as contradições existentes em alguns discursos da negritude ativista. Se um homem preto levanta uma discussão sobre a solidão da mulher preta, mas busca se relacionar apenas com mulheres brancas, ele não está sendo plenamente coerente com seu discurso. O mesmo ocorre quando uma mulher preta engajada em combater a desconfiança que paira sobre a capacidade e a confiabilidade dos homens pretos, escolhe apenas homens brancos para se relacionar e “justificar” o seu discurso. Melhor que não levantemos bandeiras sobre tais temas...

Em síntese, a petição é pura e simplesmente racista. Em tese, somos todos iguais. Até entre nós pretos.

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